Reportagem

Albinos pedem saúde gratuita

Osvaldo Gonçalves

Ao narrarmos histórias da nossa infância, vulgarmente se comenta que então “éramos felizes e não sabíamos”, mas, se tivermos coragem para nos darmos ao trabalho de aguçar um pouco mais a memória, decerto daremos conta de actos que então praticávamos na maior das inocências, diante dos quais, hoje em dia, resta-nos concordar que era tão grande a nossa ignorância e que, se desconhecendo a felicidade de alguns momentos, tínhamos de tal forma as mentes moldadas pelos preconceitos que nos permitíamos a tratar mal o nosso semelhante, assim que detectássemos nele a mais simples diferença.

Aproveitemos, pois, que ainda é tempo, a oportunidade de nos penitenciarmos pelo facto de termos sido injustos, ainda que tal seja apenas por termos alguma vez cuspido no nosso próprio peito, por debaixo da bata da escola, por causa de algum albino com que nos cruzássemos no caminho, escravos que éramos da ideia estapafúrdia de que assim estaríamos, de alguma forma, a espantar os demónios que nos trariam essa deficiência. Afinal, quão néscios éramos e nem sabíamos!
Só quase já em idade adulta começámos a olhar para a situação com outros olhos, mas levámos anos a perceber um pouco mais a questão e a procurar na medicina e na ciência, em geral, explicações para o facto de serem essas pessoas tão “diferentes” das demais. Foi dessa forma que soubemos ser o albinismo uma anomalia pigmentar, originada por factores genéticos (genes recessivos dos pais), que leva a cor da pele, dos pelos e dos olhos a tornarem-se claros e que isso se deve a factores genéticos, que não é considerado uma doença, podendo, entretanto, surgir problemas na visão e haver um risco maior de cancro da pele nos portadores.
Dados das Nações Unidas e da OMS referem que uma em cada 18 mil pessoas no mundo tem um tipo de albinismo, taxa que, nalgumas regiões de África, pode ser de uma para cada 1.500 pessoas. É também no nosso continente onde a discriminação e a perseguição dos albinos são mais acentuadas, atingindo muitas vezes níveis macabros.
Foi essa a principal preocupação que levou a ONU a proclamar, em 2015, o 13  de Junho como Dia Mundial da Conscientização do Albinismo, cujo objectivo é divulgar informação sobre essa anomalia, com vista a evitar a discriminação aos albinos. Procura-se, dessa forma, sensibilizar as populações para condição dos albinos, que, em todo o mundo, enfrentam preconceitos e até superstição, decorrentes da pouca ou nenhuma pigmentação da sua pele. Na verdade, essa incapacidade de um indivíduo produzir melanina, que é um filtro solar natural e que dá cor à pele, pêlos, cabelos e olhos pode suceder em qualquer parte do mundo e com indivíduos de todas as raças. Mas é em África que é mais frequente e problemático. Dados da ONU mencionam que centenas de pessoas com albinismo, na sua maioria crian-
ças, foram atacadas, mutiladas ou mortas em pelo menos 25 países africanos.
Na Tanzânia, por exemplo, onde existe um albino em cada 1.400 pessoas, vários são raptados, feridos ou mortos por feiticeiros e curandeiros, dada a crença de que os seus órgãos possuem poderes mágicos, sendo vendidos por cerca de 550 euros e utilizados em rituais. Situações idênticas acontecem em Moçabique e no Malawi. De acordo com a Amnistia Internacional, pelo menos 30 mil albinos moçambicanos foram vítimas de discriminação e marginalizados da sociedade nos últimos anos e muitos correm risco de vida. Segundo a organização, os incidentes de perseguição aumentaram durante 2017 e há conhecimento de pelo menos 13 albinos mortos naquele país, embora admitam que este número possa ser maior.
“Os homicídios foram motivados por superstição ou mitos relacionados com poderes mágicos das pessoas com albinismo. A maioria dos homicídios ocorreu nas províncias do Centro e do Norte, as regiões mais pobres do país”, referiram os autores de um estudo sobre a situação.

Discriminação e perseguição é prática também em Angola

Em Angola, infelizmente, a discriminação e até perseguição dos albinos continuam a ser práticas recorrentes. Em 2017, a presidente da Associação Nacional dos Albinos, na Huíla, Paula Evaristo, denunciou no Lubango casos de progenitores que recusam a paternidade de filhos que nascem com albinismo.
O gabinete jurídico da-quela associação registou no ano passado só na Huíla mais de dez casos do género, que foram encaminhados ao Tribunal Provincial, na perspectiva de serem resolvidos, uma vez que tais situações configuravam crime de fuga à paternidade e discriminação racial. A discriminação no seio das famílias, que em África atinge cifras astronómicas, com, pelo me-nos, mais de cinco mil casos confirmados, é ainda mais gravosa, quando se sabe ter o albinismo origem genética.
Uma pessoa detentora de albinismo possui capacidades intelectuais, sensoriais e técnicas como qualquer outra não albina, mas cabe à sociedade, como um todo, encarar este desafio e às igrejas, nomeadamente, desenvolverem acções enérgicas de combate à sua discriminação

 Albinos defendem assistência médica gratuita

Os albinos, em Angola, querem beneficiar de consultas grátis junto das unidades hospitalares públicas, para impedir que continuem a contrair doenças da pele.
A informação foi prestada, ontem, ao Jornal de Angola, por Manuel Domingos Vapor, presidente da Associação de Apoio aos Albinos de Angola, instituição que reúne 500 pessoas nesta condição.
O responsável disse que a associação já escreveu várias vezes para o Ministério da Saúde, solicitando este apoio, mas nunca obtive resposta.
"Há muitos albinos no país com problemas da pele, que, em muitos casos, originam cancro", revelou.
Actualmente, por causa do bom senso de alguns médicos, solidários com os problemas que enfrentam, conseguem fazer consultas grátis nos hospitais Américo Boavida e Josina Machel, salientou Manuel Vapor.
Apesar da facilidade dada por estes médicos, a situação não resolve o problema de todos. Manuel Vapor alerta que mais hospitais deveriam abraçar a causa, de forma a permitir que mais albinos possam fazer consultas da pele sem transtornos.
Em relação aos casos de discriminação, o presidente da Associação referiu que não são tantos quantos no passado, mas, ainda assim, os registados actualmente são preocupantes.
Manuel Vapor revelou haver no país casos de albinos que são recusados pelas próprias famílias, chegando, por isso, a não ter uma casa para morar.
"Entre os vários casos registados, há o de um jovem que só não viveu na rua porque foi acolhido por uma senhora, que também é albina, que foi solidária", contou.
Em algumas escolas, prosseguiu, existem albinos que não conseguem estudar à vontade, por causa da discriminação que sofrem dos professores e de colegas.
"Esse tipo de comportamento afecta grandemente o rendimento escolar destas pessoas".
Referiu que a mesma situação é verificada no mercado de trabalho, onde muitos albinos não conseguem ocupar certas vagas ou cargos por causa da sua condição.
"Se tivermos que medir, em Angola, os albinos ainda sofrem discriminação na ordem dos 50 por cento", salientou.

César Esteves

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