Reportagem

Ambiente efervescente em Luanda a 11 de Novembro

Luísa Rogério |

Aquele dia de Novembro amanheceu diferente. Algo bastante incomum se sobrepôs ao quente clima característico do mês em que a chuva aumenta de intensidade e as flores desabrocham.

Içar da bandeira no dia da Independência
Fotografia: Edições Novembro

O ambiente estava impregnado da azáfama que acompanha as ocasiões extraordinárias. Faltavam poucas horas para a então província ultramarina portuguesa de Angola dar lugar a mais uma nação africana soberana. Na véspera do acontecimento singular, os jornais da época publicados em Angola e em Portugal reflectiam os instantes que antecederam o fim da colonização que durou cinco séculos.
As rádios tocavam predominantemente música revolucionária. “A independência está chegando”, da autoria de Mirol, ecoava em todos os cantos de Luanda. A célebre canção, que anunciava o resplandecer da terra, interpretava fielmente os anseios dos angolanos.
Quem presenciou os factos fala deles com sentimentos mistos. Impossível esconder a emoção e convicção pelo passo certo. As testemunhas da história recapitulam, como se tivessem vivido ontem, os momentos relevantes do dia que trouxe a emancipação política de Angola. Luanda exultava com a proximidade da independência celebrada intensamente em todo o território nacional, apesar de se desenrolarem nos arredores acontecimentos cruciais para o que a seguir se registou. O povo festejava a liberdade com restrições materiais, mas com alegria genuína. Ainda que ninguém pudesse precisar o futuro imediato, havia a consciência geral de se estar a viver algo inédito.
A construção da identidade angolana, assim como a formação de uma sociedade nova, baseada na igualdade, justiça social, liberdade e o direito de conduzir os destinos da própria terra condensavam princípios realçados pela linguagem impregnada pelo fervor do período. As palavras vigilância e organização constituíam o denominador comum. Nessa altura já estavam enraizadas as estruturas populares de base, comissões de moradores e de trabalhadores. Às diferentes organizações competiu mobilizar as populações para participação massiva nas manifestações em prol da independência, cuja data foi marcada ao abrigo dos Acordos de Alvor, assinados em Portugal no mês de Janeiro de 1975.
Com o derrube da ditadura salazarista a 25 de Abril de 1974, multiplicaram-se as perspectivas para a independência de Angola e das outras colónias portuguesas. Das negociações estabelecidas entre o governo revolucionário português e os três principais movimentos de libertação nacional, designadamente o MPLA, FNLA e UNITA, nasceram os citados acordos, entretanto suspensos pelo curso da história. Os factos atestam que coube ao movimento dirigido por Agostinho Neto proclamar a independência de Angola num contexto extremamente difícil.
Assediada a sul pelo exército sul-africano e confrontada a menos de 30 quilómetros no eixo norte com a célebre batalha de Kifangondo, Luanda estava no centro das disputas. As autoridades acharam prudente organizar os festejos nos bairros. A intenção não impediu que centenas de milhares de pessoas se concentrassem no Largo que ganhou o nome da Independência para acompanharem ao detalhe o nascimento do novo país. O sol já se tinha recolhido há muito quando a caravana de dirigentes se instalou na tribuna. Dizem que o troar das famosas “Monacaxito”, nome dado aos canhões de origem soviética, era audível em distintos pontos da cidade, inclusive no principal palco.
De acordo com diversos relatos aproximadamente trinta homens estavam perto de Agostinho Neto naquela noite quente e húmida de Novembro. Imperial Santana, sobrevivente do 4 de Fevereiro, e Diniz Kanhanga, pioneiro da OPA, ambos já falecidos, hastearam pela primeira vez a bandeira rubro-negra no mastro colocado na Praça da Independência. O entoar do “Angola Avante”, hino nacional, completou o “desfraldar” de símbolos da nação que começou a ser construída a 11 de Novembro de 1975.
Pouco depois da meia-noite, Agostinho Neto elevou-se para, através da voz suave e pausada, proclamar “solenemente, perante a África e o mundo, a independência de Angola”. A explosão de alegria imediata replicou-se pela cidade. Familiares, amigos e vizinhos juntaram-se para seguir a transmissão em directo feita pela Rádio Nacional de Angola. Metaforicamente, as lágrimas e suor juntaram-se ao sangue derramado nos campos de batalha. A importância do acto solene estendeu kandandus a desconhecidos e até inimigos. Tiros de armas iluminaram os céus de Luanda. Na falta de fogo-de-artifício, a comemoração foi feita ao som de balas. Segundo algumas publicações portuguesas, as autoridades coloniais impediram o embarque de nove fogueteiros para Luanda.
As pessoas nascidas no território ultramarino português chamado Angola acabavam de conquistar a cidadania. Entretanto, nem tudo foram celebrações durante a noite. A escassos metros da Praça da Independência, o Hospital Militar ia recebendo feridos. A guerra fazia vítimas. Em distintos pontos da cidade, inúmeros lares exercitavam a solidariedade herdada dos ancestrais ao albergarem familiares regressados apenas com a roupa que tinham no corpo. Todos os outros pertences perderam-se em cenários que deram lugar a outros campos de batalha. O recuo, deslocados, confrontos militares, cubanos, sul-africanos e colunas militares deram corpo a expressões ligadas ao dossier proclamação da independência.
Um dias antes da independência, por volta do meio-dia, o então Alto Comissário e Governador-Geral de Angola, almirante Leonel Cardoso, conduziu o último acto político em nome do Governo que representava. Retirou do mastro a bandeira de Portugal, reconhecendo implicitamente a soberania dos legítimos donos da terra. Frisou, ao longo do discurso de ocasião, que durante os quase quinhentos anos de presença “se foram cimentando amizades e caldeando culturas, com ingredientes que nada poderá destruir”. Nesse mesmo dia, as tropas portuguesas abandonaram as instalações do palácio e da fortaleza de São Miguel, local onde funciona agora o Museu de História Militar de Angola. A bordo dos navios Uíge, Niassa e São Gabriel, regressaram a Lisboa sem cerimónias protocolares. Navegaram pelo mesmo Oceano Atlântico que os trouxe em caravelas.
Com o amanhecer prolongou-se a euforia. As crianças não tinham a dimensão da realidade, mas compreendiam que qualquer coisa acabara de mudar para sempre as suas vidas. Um pouco por toda Angola “à volta da fogueira” ou em ambientes familiares, os filhos da independência aprenderam como “se ganha uma bandeira”. Aprenderam a “saber o que custou a liberdade” como faz notar o refrão imortalizado pela voz de Rui Mingas na canção musicada a partir de um poema de Manuel Rui. Sabem também que, não sendo um fim em si, a independência assinalou o início para as almejadas mudanças. Representa, em todo o caso, um valor inegociável.

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