Reportagem

Ameaça silenciosa campeia nas escolas

João Pedro |

Pais e encarregados de educação mostram-se cada vez mais preocupados com a ocorrência de casos de “bullying” nas escolas do país, quando se aproxima o início do ano lectivo.

Pais e encarregados de educação bem como professores devem prestar mais atenção ao comportamento dos jovens que sofrem “bullying” nos estabelecimentos escolares para evitar um fim desastroso
Fotografia: Paulino Damião | Edições Novembro

As agressões começam em forma de brincadeira e chegam a criar medo e a retrair alunos da escola durante o ano lectivo. A situação tem reflexos no índice de reprovações.
A prática conhecida por “bullying” consiste em actos de intimidação física ou verbal praticados, sobretudo, nas escolas. Angola não tem leis para punir tais práticas. Os professores são os principais agentes na prevenção de maus tratos entre os alunos.
Especialistas defendem que as instituições de ensino devem criar políticas para prevenir abusos verbais e físicos entre colegas dentro das escolas para ajudar ao desenvolvimento e melhorar o aproveitamento estudantil.
De acordo com um estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), em 18 países, dentre eles africanos, europeus e americanos, mais de 100 mil jovens entre os 13 e os 30 anos foram vítimas de “bullying” e nove em cada dez acreditam que o problema está generalizado nas comunidades.
A pesquisa feita pela plataforma U-Report, em que participaram dois milhões de jovens, conta que sofrer “bullying” é normal e por isso não contam a ninguém sobre os incidentes. Por norma, os comentários são em torno da aparência física, orientação sexual ou etnia.
A conselheira sénior da Unicef para Protecção da Criança, Theresa Kilbane, declarou que o “bullying”, inclusive online, continua a ser um grande risco para o bem-estar de crianças e adolescentes.
O psicólogo angolano Manuel José disse que de um pequeno acto de brincadeira pode advir uma perda irreparável, como forma de retaliação do ofendido.
 “Adolescentes envolvem-se em rixas, outros desistem dos estudos por falta de segurança, fruto do “bullying”“, explicou. Para o especialista, o “bullying” não é uma brincadeira, mas “assunto sério”.
Manuel José aconselha os pais a estarem atentos aos sinais que os filhos demonstram e dar o devido apoio quando sofrem tais abusos, “seja na escola ou noutro meio social”.
O “bullying” caracteriza-se por agressões intencionais recorrentes, sejam verbais ou físicas por um ou mais alunos contra um colega. Podem ser ameaças, tirania, opressão, intimidação, humilhação e maus tratos.
As consequências variam de acordo com a personalidade de cada adolescente, mas o “bullying” pode resultar em agressividade, síndrome de pânico, medo de tudo e outras ainda, na busca de alternativas, como o isolamento, entre outros. “Infelizmente, é na escola onde acontece um grande número de casos e, muitas vezes, as vítimas ficam traumatizadas a ponto de não quererem mais estudar”, alertou o psicólogo Manuel José.
A Convenção sobre os Direito da Criança recomenda que é preciso criar programas conforme o ambiente escolar, incluindo aspectos como a solução de conflitos de forma pacífica e políticas de combate ao “bullying”.
Manuel José disse que uma das medidas para a redução desses casos é a tomada de medidas preventivas, como debates e palestras, para evitar a proliferação de casos de “bullying” e preservar a saúde dos adolescentes. “Já se assiste, em algumas instituições, a acções que envolvem alunos e têm resultados positivos no desenvolvimento estudantil.”
 
Violência calada

O isolamento é um dos sinais de depressão característicos em muitos jovens, adolescentes e até crianças. Essa realidade é cada vez mais comum e nem sempre levada em conta pelos encarregados de educação. Maria do Céu, de oito anos, conviveu com a violência no silêncio. Na terceira classe, a menina era “fustigada” pelos colegas por ter o corpo avantajado.
O medo começou a tomar conta da pequena ainda na segunda classe, altura em que a mãe notou resistência em ir à escola. Dona Dina recorreu a um psicólogo, chegando a pensar tratar-se do facto de a menina não viver com o pai. “O problema era permanente. Era a terceira escola por que a minha filha passava. Só com o médico vim a saber que ela era aborrecida pelos colegas pelo facto de ser forte”, conta a mãe. “A minha filha é afectuosa e acanhada. Com os abusos ela tornou-se mais tímida e quase não gostava de falar no assunto”, disse. Além do médico, dona Dina procurou a escola e lá conseguiram junto dos colegas criar programas de integração social com palestras em que alunos e professores participam.
O adolescente Paulo Filipe, de 14 anos, também já sofreu e praticou “bullying” contra outros colegas. Por causa de algumas inimizades criadas pelas brincadeiras, o jovem procura não mais abusar de colegas e vizinhos.
“Aprendi que algumas brincadeiras que fazia não eram boas e isso magoava os meus colegas e seus familiares”, disse. Numa situação, o professor estava a falar sobre o sistema solar e pediu para que alguém desse um exemplo. “Nesse instante, levantei-me e fui para ser o Sol. Senti que alguns colegas cochichavam que eu era redondo como o Sol. Neste instante, senti-me mal e quase lutei com um colega”, conta o adolescente.
Em conversas mantidas no período de matrículas, os entrevistados são unânimes em confirmar já terem sofrido ou praticado “bullying”. A maioria afirma ter-se sentido humilhada. Por norma, os abusos acontecem devido à aparência física.
O director pedagógico do Colégio Jopira, Fidel Jorge, defendeu a criação de programas nas escolas para desencorajar tais práticas. ­”Internamente, temos um programa de combate ao “bullying”, com debates e aulas de arte em que os alunos, em clima de brincadeira estudam os significados das palavras e suas consequências”, afirma. Desde que se criaram tais acções, as queixas dos encarregados baixaram de forma considerável, garante.
Em média, a instituição, que lecciona do primeiro ciclo ao ensino médio, registava antes queixas de dois alunos em cada dez por prática de “bullying”. Os rapazes eram os principais abusadores. 
O pedagogo reconhece que o sorriso, o assobio e falar alto são marcas habituais dos adolescentes. Na maioria das vezes, tem cunho de gozo e brincadeira, sem a intenção de magoar.

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