Reportagem

Angola já tem um dicionário de língua gestual

Helma Reis |

O instrumento de comunicação da comunidade surda angolana é a linguagem gestual, mas ainda não está reconhecida. Por esse facto, o Instituto Nacional para Educação Especial INEE) criou o projecto de uniformização da língua gestual, onde os protagonistas são a própria comunidade surda.

Iniciativas do Instituto Nacional para a Educação Especial ajudam a chamar a atenção para a necessidade de apoio da sociedade
Fotografia: Jornal de Angola

O instrumento de comunicação da comunidade surda angolana é a linguagem gestual, mas ainda não está reconhecida. Por esse facto, o Instituto Nacional para Educação Especial INEE) criou o projecto de uniformização da língua gestual, onde os protagonistas são a própria comunidade surda.
O director adjunto do Instituto Nacional para Educação Especial, Jorge Pedro, explicou que existe um projecto de linguagem gestual, cuja aprovação depende do Ministério da Cultura, que por sua vez, não reconheceu até ao momento a língua gestual angolana.
“Não estando reconhecida legalmente, não podemos ter intérpretes nas instituições como hospitais, cadeias, esquadras de polícia, porque não temos como pagá-los”, disse Jorge Pedro ao Jornal de Angola.
Jorge Pedro explica que só com o reconhecimento da linguagem gestual angolana é que os intérpretes podem encontrar espaço junto do Ministério da Administração Pública, Trabalho e Segurança Social e do Ministério das Finanças.
“Até ao momento, os intérpretes prestam serviço, sem uma base legal, àquelas instituições que os contratam para um objectivo específico”, disse o director adjunto do Instituto Nacional para a Educação Especial.
A título de exemplo, Jorge Pedro conta que, recentemente, a Polícia Nacional contactou o Instituto Nacional para Educação Especial para pedir um intérprete para ajudar a compreender um cidadão com deficiência que pretendia apresentar uma queixa.

Primeiro dicionário angolano

Jorge Pedro informou que já existe o primeiro dicionário da língua gestual angolana e o segundo está em fase de elaboração.
Há três anos quando não havia nenhum instrumento de apoio, acrescentou, a comunidade surda comunicava-se por gestos, com influência de línguas gestuais do Congo, Rússia, Portugal e Brasil.
O director adjunto do Instituto Nacional para Educação Especial  afirmou que a instituição tem bases suficientes e recursos humanos para formar outros quadros e facilitar a inclusão da linguagem gestual na televisão.
Jorge Pedro informou que Angola tem 17 escolas de ensino especial e 630 escolas do ensino geral com salas inclusivas e referiu ainda que há um projecto de redimensionamento das escolas de ensino especial para centros de recursos de apoio à inclusão escolar às restantes escolas do ensino geral.
“A inclusão é uma tendência mundial, para evitar a exclusão social”, disse Jorge Pedro, acrescentando que este processo está em curso em todo país e tudo está a ser feito para abrir salas de atendimento educacional especializado.

Linguagem gestual na TPA />
O Ministério da Educação, através do Instituto Nacional para a Educação Especial, tem registados 23.193 alunos com necessidades educativas especiais e 4.517 professores a lecionar nas diversas áreas, como a surdez, deficiência visual e mental. Teresa Cassule tem 17 anos, estuda a segunda classe na escola de ensino especial do Bairro Nelito Soares. Tem deficiência mental e gosta de ver televisão, principalmente bonecos, novelas e filmes. A interpretação dos conteúdos é feita pelo irmão. “Mas se a nossa televisão tivesse intérpretes em cada programa, era bom. Assim, não deixava de ver constantemente programas internacionais, nem ficava dependente do meu irmão”. 
Teresa Cassule disse ao Jornal de Angola que se sente igual a outras pessoas e que não tem encontrado dificuldade em relacionar-se com meninas da sua idade e até com pessoas adultas.
Querene Apolinário Francisco, dez anos, tem deficiência intelectual desde o primeiro ano de vida. Segundo a mãe, Marcelina Mutolo, a deficiência foi descoberta quando a menina manifestou paralisia dos membros. Para a filha ver televisão, muitas vezes tem de ser forçada. “Mas sempre que posso, faço a interpretação dos bonecos para ela ganhar o hábito”. A irmã mais nova também ajuda a mãe nesta tarefa.
“Se a nossa televisão tivesse intérpretes nos vários programas, podia ajudar muitas crianças com este tipo de deficiência a estar informadas”, acrescentou a mãe de Querene Francisco.

Associação profissional

O Presidente da Associação dos Profissionais de Educação Especial em Angola, Manuel Kawanga de Sousa, defende a criação de um instrumento de avaliação psicopedagógica e programas educativos visuais que permitam conhecer as características psicopatológicas de cada criança e as necessidades educativas de cada região.
“Temos trabalhado com os Ministérios da Saúde e da Educação para que nas comunidades haja um gabinete de tratamento logopédico, uma vez que, diariamente, registamos, nos nossos consultórios, pessoas com diversas deficiências”.
Diariamente, a Associação dos Profissionais de Educação Especial recebe, em consulta, 12 a 14 casos novos de crianças e jovens com problemas de surdez, distúrbio intelectual e com outras patologias, que devem ser acompanhadas com regularidade. “Isto só é possível se a criação de gabinetes de tratamento nas comunidades for uma realidade”, refere Manuel Kawanga. O acompanhamento especial à criança com deficiência está entre os compromissos assumidos, em 2007, pelo Estado angolano sobre a criança, durante o II Fórum Nacional sobre a Criança, realizado em conjunto com a UNICEF.

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