Reportagem

Angosat reduz custos operacionais

Edivaldo Cristóvão

Angola, a partir do próximo mês, vai usufruir de serviços de telecomunicações com melhor qualidade e com menos custos, com a entrada em funcionamento do primeiro satélite, o Angosat, a ser lançado na base do Cazaquistão, e o país terá mais uma das ferramentas que dão impulso à economia e ao desenvolvimento sustentável.

Com o lançamento do primeiro satélite, o país vai ganhar mais uma infra-estrutura para servir à população
Fotografia: João Gomes | Edições Novembro

O Angosat vai fornecer produtos e serviços que proporcionam comunicação entre empresas e pessoas, encurtando distâncias, minimizando a info-exclusão, contribuindo activamente para o desenvolvimento socioecónomico e, ao mesmo tempo, criar soluções de comunicações no mercado internacional.
O processo de comercialização do satélite só começa a ser feito em Março do próximo ano, porque antes terá de passar por várias etapas. Depois da sua conclusão que durou cerca de quatro anos, agora é o período de testes, para garantir que o aparelho esteja em órbita no tempo e no posicionamento pelo qual foi definido.
Neste momento, em terra, têm sido feitas simulações, para testar as condições atmosféricas. A conclusão dos ensaios, depois do lançamento, dura pelo menos três meses e só depois é que passa para o processo de vendas.
O Ministério das Telecomunicações e Tecnologias de Informação definiu que, para as vendas do satélite, 80 por cento da sua capacidade vão ser vendidos a empresas interessadas, para que o investimento feito até agora seja recuperado e garanta a produção de outros satélites futuramente.
Outros 20 por cento da capacidade do satélite vão estar disponíveis para necessidades estratégicas e acções sociais, para garantir, por exemplo, internet nas escolas, hospitais e em pequenas iniciativas desenvolvidas por jovens no ramo das telecomunicações e empreendedorismo.
Os preços deste tipo de serviços são “stander”, ou seja, são os mesmos praticados internacionalmente, apesar de a estratégia do Executivo ser torná-los atractivos.
O Angosat foi desenvolvido com o propósito de poder capacitar às empresas o uso de tecnologias de comunicação mais modernas e inovadoras, possibilitando assim a promoção e o desenvolvimento de novos produtos e serviços de informação e comunicação.
O ministro das Telecomunicações e Tecnologias de Informação, José Carvalho da Rocha, garantiu que, com o lançamento do primeiro satélite, o país vai ganhar mais uma infra-estrutura para servir à população um serviço de melhor qualidade e com menos custos.
O ministro considera que uma das formas de garantir a viabilidade e a auto-sustentabilidade do processo foi apostar na formação de jovens angolanos ao mais alto nível em conhecimento técnico e científico, em universidades de renome, tanto dentro como fora do país, com níveis de licenciados, doutores e mestres.
O investimento do satélite foi gerido por três contratos, nomeadamente o da construção, aluguer dos segmentos espacial e terrestre. Este conjunto ficou avaliado em 320 milhões de dólares, financiados por um consórcio de bancos liderados pelo VTB da Rússia, onde a responsabilidade do Governo angolano foi garantir a formação dos especialistas e a construção de infra-estruturas em terra, que asseguram o apoio dos serviços de gestão do satélite.
José Carvalho da Rocha disse que foi um grande investimento, mas com um retorno garantido, que brevemente será reembolsado pelas operadoras que actuam no país, porque elas hoje, mensalmente, gastam em média de 15 a 20 milhões de dólares.
E uma das grandes vantagens que as operadoras vão ter com o Angosat é pagar preços mais acessíveis e em kwanzas, “com isso, teremos a capacidade política de pressionar as empresas a baixarem as tarifas actuais do mercado.”
José Carvalho da Rocha lembrou que todo o utilizador pretende falar mais e pagar menos, daí o que Executivo pretende estabelecer uma política de preços que estejam à altura de todos os bolsos.
Além do lançamento do Angosat 1, o Executivo tem também outros projectos que estarão associados ao satélite, dos quais dois avaliados em 260 milhões de dólares, nomeadamente o Programa Espacial Nacional que impõe várias acções nas áreas da economia, fundamentalmente na Indústria, Agricultura e formação. O outro é o Angola Cables, um investimento público-privado, por via da Angola Telecom, com a participação da Unitel, Movicel, MS Telecom e Mundo Startel. Ambos os projectos podem estar concluídos ainda este ano e garantir maior acesso à Internet, tornando-a mais barata e rápida.

Angostat 1

A entrada em órbita do primeiro satélite angolano, prevista para o próximo mês de Dezembro, vai fazer com que o sinal das tecnologias de informação e comunicação cubram todo o território nacional, o que estimulará os serviços das operadoras nas zonas onde não há sinal.
 O sinal do Angosat 1 propiciará outros negócios para o país, por ter uma capacidade de iluminação desde a África do Sul até  à Itália.
 O satélite angolano Angosat 1 foi construído na Rússia e tem segmento espacial: posição orbital 14.5 E, pesa mil 55 quilogramas, peso de carga útil 262.4 quilogramas, potência de carga útil três mil 753 w, banda de frequência CKu, número de repetidores 16C+6Ku e uma vida útil de 15 anos.
 O projecto Angosat 1 foi construído por meio do foguete transportador ucraniano Zenit, a partir do cosmódromo Baikonur, no Cazaquistão, e o próximo passo será enviá-lo para a órbita terrestre.
 O centro de controlo e emissão de satélites do Angosat 1 encontra-se na comuna da Funda, norte da província de Luanda. Como satélite geoestacionário artificial, o Angosat 1 está a uma distância de 36 mil quilómetros a partir do nível do mar. A sua velocidade coincide com o da rotação da terra e consegue cobrir um terço do globo terrestre.
Além do Angosat, o país tem igualmente um outro projecto no sector das telecomunicações. Trata-se do cabo submarino de fibra óptica, que vai ligar Luanda ao estado de Ceará, no Brasil, que visa a melhoria e redução de custos no acesso aos serviços das telecomunicações no país.

Centro de controlo é monitorado por técnicos angolanos bem capacitados

O projecto entra em funcionamento efectivo em Julho do próximo ano e Angola passará a ser o primeiro país a ligar a África e a América do Sul por via do oceano Atlântico.
O Angosat terá um período de vida de 15 anos e possui 22 “transponders”, dispositivos de comunicação electrónica e o projecto inclui duas estações de rastreio, uma em Angola e outra na Rússia.
Estas estações vão permitir uma intervenção russa no controlo e comando do satélite, sempre que se mostre necessário, enquanto Angola cria autonomia neste domínio. O  Angosat vai ter uma utilização de 99,2 por cento da capacidade prevista.
O Angosat vai fornecer serviços de suporte às telecomunicações electrónicas, incluindo a prestação de serviços em banda larga e de televisão. Para garantir o funcionamento do Angosat, o Ministério das Telecomunicações e Tecnologias de Informação teve a missão de formar e capacitar quadros em Engenharia de Satélites e Sistemas de Engenharia Espacial. Neste momento, contam com 47  funcionários.

Centro de controlo

O centro de controlo e emissão de satélites, órgão que vai controlar, rastrear e fazer a telemetria dos dados enviados pelo satélite Angosat 1, localiza-se na comuna da Funda, município de Cacuaco, em Luanda, e neste momento conta com 47 funcionários. Vangilya Pereira de 33 anos é das poucas jovens que entrou no projecto desde a sua implementação em 2012, licenciada em Engenharia Electrónica e Telecomunicações e mestre em Comunicação por Móveis e Satélite.
A jovem que conta à nossa reportagem que sempre teve paixão pelo mundo das tecnologias, vive no Miramar com o esposo e três filhos. O trajecto que faz todos os dias do trabalho para casa e vice-versa fá-la percorrer mais de 70 quilómetros, uma tarefa que não tem sido muito fácil para si. “Agradeço a compreensão do meu esposo que muito tem feito para ajudar na tarefa com as crianças, porque tenho tido menos tempo do que ele em função deste desafio”, disse.
A jovem considera o projecto da Angosat muito desafiador, inovador e com grande abertura e capacitação humana. Conta que quando entrou eram apenas duas mulheres, mas hoje são nove. “Foi uma adaptação tranquila, sempre fui apaixonada pelo ramo espacial, posso afirmar que trabalho num dos meus maiores sonhos, além de fazer parte de um grande desafio que vai ajudar a desenvolver o meu país.”
Gilberto Gomes, outro engenheiro de 35 anos, PHD em Ciências Técnicas, formado na Rússia, foi contactado pela primeira vez para fazer parte do projecto por meio da embaixada daquele país, em 2012 entrou para o Programa de Gestão Espacial, no gabinete de programas e mais tarde foi reconduzido ao Angosat. Gilberto sempre foi apaixonado pelas tecnologias, considera que está colocado no lugar certo, como um dos directores de voo da Angosat e a sua função é controlar o satélite, garantir o seu normal funcionamento no espaço e corrigir eventuais falhas.
O edifício da Angosat foi construído numa área de 6.617 metros quadrados, tem três pisos com capacidade para 45 técnicos, um heliporto, parque de estacionamento, 50 lugares e áreas verdes.

 Primeiro satélite angolano

O Angosat 1 será o primeiro satélite de comunicações de Angola. O contrato foi assinado pelas partes russas e angolanas em 2009. Nos anos seguintes, ambas as partes realizaram um trabalho em conjunto para organizar o financiamento do projecto, que tornou possível a sua aplicação prática. O trabalho sobre o satélite começou no final de 2012.
O satélite vai ser lançado ao espaço por meio do veículo Angara A5/Blok-DM-03, a partir do cosmódromo de Plesetsk, na Rússia. O Angosat 1 será equipado com 16 transponders em banda C e 6 em banda Ku para fornecer serviços de telecomunicações para Angola. O sinal da banda C do mesmo poderá ser recepcionado em toda África e Europa.
O Angosat 1 é um projecto que vai fornecer oportunidades na expansão dos serviços de comunicação via satélite, acesso à Internet, rádio e transmissão televisiva. O projecto é parte integrante do Programa Espacial Nacional, em que um dos objectivos é a criação de competências nacionais no domínio das tecnologias de comunicação por satélite.
O projecto Angosat é resultado de um profundo estudo sobre a viabilidade da produção de um satélite angolano, entre a Comissão Interministerial de Coordenação Geral do Projecto de Telecomunicações via Satélite de Apoio Multissectorial (CISAT), criada por Despacho Presidencial nº 21/06 de 21 de Junho. O estudo contou com o Consórcio russo, liderado pela empresa ROSOBONEXPORT, RSC Energia (construtora do satélite Agosat-1).
O Angosat é a denominação do primeiro satélite angolano geoestacionário que vai fornecer oportunidades de expansão dos serviços de comunicação via satélite para melhorar o acesso a Internet, rádio, e transmissão televisiva.
Vai tornar o país numa referência de excelência no âmbito espacial com reconhecimento a nível mundial.

 

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