Reportagem

Aposta da Aldeia Nova na produção de cereais

Leonel Kassana |

As previsões da produção de milho na Sociedade Aldeia Nova confirmam a trajectória ascendente desta  empresa localizada na Vila do Waco Cungo, município da Cela, província do Cuanza Sul.

Pólo agro-industrial no Uaku Cungo da sociedade Aldeia Nova aposta na produção de milho e soja para cobrir uma parte da procura nacional de fertilizantes
Fotografia: Vigas da Purificação| Edições Novembro

Para este ano agrícola foram trabalhados 1.400 hectares para a plantação de milho e a expectativa é que a colheita seja de 8.000 toneladas. Outros 600 hectares foram preenchidos com soja, prevendo-se uma safra de mais de 2.500 toneladas no final da campanha agrícola. Esses números superam de forma muito significativa os da anterior campanha, em que foram colhidos pouco mais de 6.000 toneladas de milho e 1.200 de soja.
As chuvas que caem, com regularidade, nessa região vieram facilitar de modo muito incisivo a produção cerealífera, representando, no caso da Aldeia Nova, mais matéria-prima para pôr a funcionar a indústria de rações para as galinhas poedeiras e, em consequência, de ovos e frangos para abate. “As chuvas tornaram as terras do Waco Kungo mais produtivas e não teremos prejuízos”, diz um operador de máquina de colheita de milho, enquanto enchia mais um camião.
Como pôde o Jornal de Angola acompanhar, nesta altura já iniciou a colheita do milho no Waco Kungo. Todos os dias, três potentes máquinas recolhem o produto do campo para os camiões que o encaminham para os silos instalados na fábrica de rações. 
“A nossa aposta é a auto-suficiência em cereais para termos quantidade suficiente de ração animal”, diz o director-geral da Aldeia Nova, Kobi Trivizki, que destaca o compromisso da empresa para a criação de mais empregos para as famílias camponesas e combate à fome e à pobreza.
A colheita do milho é, nos dias que correm, um dos aspectos mais visíveis na recuperação da capacidade produtiva que se assiste na Aldeia Nova. Ocupa mesmo um lugar central nesse complexo agro-industrial, que há cerca de quatros anos experimentou um período algo sombrio.

Fábrica de Rações

Com o aumento da produção de cereais em grande escala na Aldeia Nova, veio a disponibilidade de mais matéria-prima para a fábrica de rações, a partir da qual são distribuídas às várias Aldeias que produzem galinhas poedeiras.
O responsável da fábrica de rações, Joaquim Alberto, explica que “a falta de matéria-prima já faz parte do passado, já que todos os dias recebemos milho e soja em grandes quantidades dos vários campos”.
O milho é colhido fresco e depois armazenado em silos com capacidade de 2.500 toneladas cada. Antes permanece duas horas num secador com capacidade de 32 toneladas. Aqui, tudo foi pensado ao detalhe. Assim, a secagem do milho, com o apoio de um moderno sistema garante um perfeito e duradouro estado de conservação, enquanto a correcta armazenagem salvaguarda todo o processo, evitando, assim, a deterioração.
A secagem e a armazenagem dos cereais são consideradas como etapas fundamentais e de elevada complementaridade em todo o processo de produção de rações para as galinhas.
No dia em que passámos pela Aldeia Nova, dois desses silos encontravam-se completamente cheios de milho. O terceiro aguardava a chegada de camiões dos campos de produção de soja.
“Temos dois silos completamente cheios de milho e aguardamos a colheita da soja para podermos preencher o terceiro”, adianta o jovem que lidera uma equipa de 23 pessoas, entre elas uma jovem, “devido à especificidade do trabalho”, como ele mesmo explica. “A produção é armazenada em grão, pois não temos capacidade  para consumir de uma só vez”, explica Joaquim Alberto, reiterando que há milho e soja suficiente para manter  a unidade de rações a funcionar sem quaisquer dificuldades.
Sublinha que todos os outros componentes para a produção de rações estão disponíveis na fábrica e que existe a preocupação permanente da direcção da Aldeia Nova com a reposição dos sctocks. O objectivo é, contudo, aumentar progressivamente a produção de rações, podendo ser vendidas a outros produtores dos municípios do Cuanza Sul e outras províncias.

Ovos dos aldeamentos

Como parte fundamental na cadeia de produção de cerais, as rações permitem a criação de elevadas quantidades de galinhas poedeiras nas diferentes Aldeias situadas no perímetro da Aldeia Nova. Todos os dias, inúmeras carrinhas da empresa desdobram-se pelos aldeamentos para distribuir galianhas e recolher os ovos, que são encaminhados para o Centro Logístico para, depois de calibrados, entrarem no mercado.
O director-geral da Aldeia Nova esclarece que coloca diariamente no mercado mais de 300.000 ovos, cifra que poderá subir já que há disponibilidade de rações em quantidade. “Até final do ano devemos alcançar os 400.000 ovos por dia”, sublinha. A par das vacas leiteiras, a criação de ovos ocupa a maioria das famílias que vivem na Aldeia Nova.
Júlio Miguel, 55 anos, morador no Aldeamento 2, é considerado um dos muitos casos de sucesso na produção de ovos. Tem uma ligação de onze anos com a Aldeia Nova, um dos mais emblemáticos projectos agro-pecuários alguma vez implementado no país e que tem a particularidade de atender as necessidades de integração dos ex-militares.
Diariamente recolhe acima de 800 ovos das mais de 900 galinhas poedeiras que cria junto da sua casa na Aldeia 2. Antigo militar das FAPLA, explica, satisfeito, que já vai na sexta povoação de aves poedeiras que recebeu da Aldeia Nova e que são, hoje, o principal sustento para a sua família constituída por 12 filhos. A produção de Júlio Miguel é a meta de todos os aldeamentos que se dedicam à criação de galinhas poedeiras.
Todos os ovos, explica Júlio Miguel, são encaminhados para o Centro Logístico da Aldeia Nova onde são comercializados, permitindo a recepção de novas galinhas poedeiras. “Mediante a deposição dos ovos mensalmente no Centro Logístico, obtenho o meu lucro”, adianta, sublinhando que isso implica uma gestão rigorosa e bastante profissional na criação de galinhas para evitar desperdícios.
Ele esclarece, por isso, que deve haver menos consumo de ovos em casa para permitir um maior depósito, pois “não há vencimento fixo” e tanto pode chegar aos 40 ou 100.000 Kwanzas mensalmente.
O ex-militar sublinha que “a Aldeia Nova veio mudar a vida de muitas famílias que se dedicam à criação de galinhas, pois com os rendimentos que obtêm melhoram as suas condições, como alimentação, propinas, material didáctico e transporte para a deslocação dos filhos à  escola”. Júlio Miguel não tem dúvida que o modelo de gestão da Aldeia Nova traz muitas vantagens para a reinserção social dos ex-militares ao proporcionar-lhes nova esperança para futuro. “A Aldeia Nova é, na verdade, uma referência para os ex-militares no município da Cela e não só”, adianta o ex-militar, que gasta diariamente 1.600 kwanzas no táxi para os filhos que estudam a mais de 12 quilómetros da vila.
Recorda que quando, num passado recente, a Aldeia Nova passou por um período menos bom, as famílias dos ex-militares enfrentaram sérias dificuldades para suprir as suas necessidades básicas, chegando-se ao extremo de muitas crianças terem de abandonar a escola por falta de recursos.
“Tivemos grandes apertos e a solução foi trabalhar arduamente nas lavras para sustentar as nossas famílias”, refere o ex-militar com passagem pelas províncias da Huíla, Malanje e Cuanza Sul.O sentimento de Júlio Miguel é partilhado por milhares de pessoas que na Aldeia Nova fazem da criação de galinhas poedeiras o seu principal sustento. Com os lucros e dependendo do dinamismo de cada um, compram material escolar, vestuário, suportam as despesas com táxi para os filhos, alimentação e fazem alguma poupança.
Para os ex-militares, investir em sementes, adubos, fertilizantes e insecticidas para as suas lavras tornou-se, agora, mais fácil. Da Aldeia Nova, os ex-militares recebem a ração para as galinhas, cartões para embalagem dos ovos, assistência médica, água, energia e outros apoios.
Está, aqui, de facto, uma iniciativa empresarial inovadora que se consolida permanentemente, depois de ter disponibilizado a cada ex-militar e respectiva família três hectares de terreno para a prática da agricultura.

Inovações

Mas, como em todo o processo de produção, não se pense que não haja desperdícios na criação de galinhas para ovos e frangos. A pensar neste aspecto foi criada uma “Fábrica de Refeições” para onde são encaminhadas as galinhas no final do seu círculo de produção. Trata-se de uma unidade moderna e que emprega 25 pessoas, das quais 19 mulheres, que chama a si a responsabilidade de preparar aquilo que é chamada “refeição completa”, a partir de coxas, patas, asas de galinha com arroz, legumes, batata, além de feijoada em lata.
Depois de confeccionadas e embaladas em sacos apropriados, as “refeições completas” são encaminhadas para outra unidade, onde são submetidas a um choque térmico de 120 graus para eliminar todo o tipo de micróbios, que eventualmente se instalem nos legumes ou na carne, o que dá uma garantia para consumo de um ano, segundo Victor Lima.
Victor Lima, responsável da “Fábrica de Refeições” explica:  “Preparamos a refeição completa a partir da galinha e também fazemos bolo familiar, biscoitos e delícias, a partir da clara dos ovos, ou seja, pretendemos ter o mínimo de desperdício da galinha”. Quanto a  números sobre os níveis de produção, Victor Lima diz ser “relativo”, mas deixou escapar que a fábrica está à altura de satisfazer todo o tipo de encomenda. “Em Dezembro, recebemos e conseguimos satisfazer um pedido de dez mil refeições completas”, refere, acrescentando que uma parte significativa de biscoitos e bolo familiar disponíveis em supermercados, como Kero, Shoprite e outros já são fornecidos pela fábrica de refeições, o que comprova, como diz, a sua aceitação pelo mercado.

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