Reportagem

Aposta na lavoura à escala industrial

Estanislau Costa | Matala

Por estrada o percurso de 200 quilómetros, à leste da cidade do Lubango, é feito em cerca de três horas, passando pelo município de Quipungo.

O perímetro irrigado da Matala possui condições adequadas para a produção de arroz
Fotografia: Arimateia Baptista | Lubango | Edições Novembro

Ao se atingir a sede do município da Matala, desperta a atenção várias infra-estruturas públicas e privadas com serviços diversas.
Habitam na circunscrição acima de 243 mil habitantes, um crescimento populacional  alcançado em consequência da guerra de três décadas que forçou numerosas famílias a abandonarem as suas terras de origem para se aconchegarem em zonas com melhor segurança. A protecção era assegurada pelo Quartel de Infantaria Motorizada que tinha a missão de cuidar da barragem hidroeléctrica da Matala.
O facto de o rio Cunene percorrer alguns pontos da circunscrição tem estimulado os pequenos e grandes agricultores, nacionais e estrangeiros, a apostarem fortemente na actividade agro-pecuária a escala industrial. O sucesso agrícola e pecuária tornou a localidade numa referência na produção de batata rena, hortícolas e outros alimentos.
Determinados programas agrícolas e pecuários criados pela Administração Municipal e a Sociedade de Desenvolvimento da Matala (SODEMAT) atraem vários produtores a explorar dezenas de hectares de terra irrigados, num perímetro com mais de 42 quilómetros de extensão.
As associações e cooperativas de camponeses espalhadas em vários pontos das zonas agrárias concentram um número considerável de pessoas que têm no campo o seu ganha-pão diário, por ser capaz de dar rendimentos favoráveis ao sustento das suas famílias.
Para fortalecer o cultivo dos espaços distribuídos a cada associação ou cooperativa, o Instituto de Desenvolvimento Agrário (IDA) potencia cada organização com kits agrícolas, compostos maioritariamente por enxadas, catanas, charruas, junta de bois, sementes e fertilizantes diversos.
De realçar que os camponeses associados da localidade da Tchipópia, arredores do município da Matala, constam entre os que beneficiaram, recentemente, de motobombas entregues pelas autoridades locais, para permitir que o processo de irrigação atinja, cada vez mais maior número de  campos lavrados.
O regedor da localidade da Tchipópia, Francisco Século, descreveu que o equipamento representa uma mais-valia na actividade dos lavradores por incentivar a todas as famílias associadas a se empenhar no trabalho das zonas de regadio e desenvolver a agricultura principalmente em  épocas secas.
 
Produção de arroz
 O cultivo de arroz figura como a nova aposta dos produtores que exploram o potencial do perímetro irrigado da Matala. Trata-se de uma iniciativa que envolve as autoridades locais em parceria com uma empresa chinesa que envolve técnicos experientes em lidar com a irrigação por inundação.
São já animadores os resultados preliminares do ensaio da cultura de arroz, segundo o administrador municipal da Matala, Miguel Vicente, que sublinhou a importância da  introdução de tecnologia de ponta para o melhor aproveitamento hídrico do perímetro. O administrador explicou que o estudo efectuado  sobre o solo permitiu concluir que o perímetro irrigado da Matala possui condições adequadas para a produção do arroz, capaz de abastecer o mercado da local e nacional.
Os resultados positivos do ensaio da empresa chinesa, feito no ano passado, favoreceram a ampliação da área de cultivo para 514 hectares. “As boas colheitas da primeira produção são incentivadoras para tornar o município numa referência na produção de arroz”, disse o administrador.
“Temos agora a certeza que no perímetro uma empresa chinesa de renome já trabalha centenas de hectares de arroz. A mesma empresa está, igualmente, a produzir numa área de quatro mil hectares de tabaco para atender a demanda nacional e depois exportar o excedente”, referiu com satisfação.
A empresa China Hyway leva a cabo desde o ano passado, um projecto agrícola designado Leijun-ca, que prevê colher,  até ao fim de Dezembro do corrente ano, acima de mil e 701 toneladas de produtos diversos, num espaço cultivado de 150 hectares.
O director do projecto Xue Chun explicou que está preste a colheita de 120 toneladas de batata rena, 180 de cebola, 1.400 de milho e uma tonelada de arroz. “Em 2018 perspectivou-se plantar 20 hectares de batata rena, 15 de cebola, 150 de milho e outros produtos do campo”.
A empresa em referência tem em vista  explorar, ao todo, 500 hectares. “Estamos a desbravar 150 hectares de terras virgens para viabilizar o desenvolvimento do projecto agrícola”, disse.

Preocupação dos produtores
 A ausência de um mecanismo que permite o escoamento eficiente dos produtos perecíveis e um sistema de conservação por períodos mais prolongados, de modo que se evite a escassez em certas épocas do ano, figuram como preocupações  já  apresentadas pelos agricultores.
 “Gostaríamos que a batata rena, tomate, cebola, couve, repolho e outras leguminosas fossem conservadas em sistemas de frio apropriado para que nas estações do ano em que os mesmos não fossem produzidos se evitasse a carência no mercado ou outras especulações”.

 

  Deterioração dos produtos

O agricultor Fernando António, que se dedica apenas ao cultivo de batata rena e leguminosas, explicou ao Jornal de Angola que já se confrontou em muitos casos com a deterioração dos produtos por falta de escoamento e inexistência de um sistema de frio compatível.
A saída, como explicou, às vezes, tem sido a redução ao máximo dos preços dos produtos como a cebola, tomate e batata para evitar perdas. “Baixar os preços não é a solução viável porque os alimentos perecíveis acabam deteriorando por falta de clientes suficientes”, reconheceu.
Já o tio Pedro da cooperativa agrícola 1º de Maio da Matala defendeu que uma das medidas para reduzir as perdas pós-colheitas da produção agrícola, assegurar a presença de produtos perecíveis no mercado por períodos mais prolongados e melhorar o escoamento “é a criação de unidades de abastecimento”.
As unidades de abastecimento, esclareceu, a semelhança do Papagro, mas com uma melhor organização e estruturas auxiliares, com realce aos sistemas de frio para conservar qualquer tipo de produto do campo, “seriam o elo entre os agricultores, o mercado e os consumidores”.
Estas unidades devem estar preparadas para se ocuparem da recepção, limpeza, desinfecção, selecção, tratamento, embalagem, conservação dos produtos hortofrutícolas e posterior escoamento  para os pequenos e grandes centros comerciais. 
O produtor Severino Francisco considerou que caso se opte pela criação de unidades de abastecimento, ficaria, também, assegurada e resolvida a questão do escoamento.

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