Reportagem

Artesãos vivem dias infernais no novo Mercado

Augusto Cuteta

“Nem uma peça sequer consegui vender ao longo desses últimos 30 dias”. O desabafo, carregado com um tom de desagrado, é de João Bole, um dos vários artesãos com diversas peças expostas no Centro de Artes do Benfica, o actual Mercado do Artesanato, uma infra-estrutura inaugurada a 4 de Abril de 2015 pelo ex-Presidente da República, José Eduardo dos Santos, nas cercanias do Museu da Escravatura e do Terminal Marítimo de Passageiros.

Este cenário de falta de clientes, que João Bole considera “bastante desolador”, dá-se a partir de 2017, meses depois de os artesãos e artistas plásticos que expunham peças de artes, no bairro Kifica, terem sido, de forma compulsiva, transferidos para a zona do Museu da Escravatura.
Num discurso curto, mas bastante profundo, o também presidente da Mesa de Assembleia da Cooperativa de Artesãos e Promotores de Artes (COAPRA) refere que a escassez de compradores está, inclusive, a criar uma série de consequências dentro dos lares dos artistas. “Hoje, somos praticamente dependentes das nossas senhoras!”, lamenta.
O expositor explica que a distância que separa o antigo Mercado do Artesanato do actual, que dispõe de capacidade para albergar 275 artesãos, é o principal “calcanhar de Aquiles”. O complexo de cinco edifícios, com auditórios e ateliês, fica 15 quilómetros além da cidade de Luanda.
Apesar do encanto que é o espaço, preenchido por uma estrutura moderna, que alberga 260 bancadas de exposição e de venda de peças de artesanato, 12 de cestarias e igual número de trajes tradicionais, além de 120 outras para esculturas antigas, o artesão é de opinião que “o mercado não devia ter sido erguido fora da cidade”.
Construídos num espaço com 10.916 metros quadrados de zonas verdes, a perder o brilho, por falta de melhor tratamento, os edifícios que integram o Centro de Artes do Benfica ocupam uma área de 7.945,50 metros quadrados, sendo infra-estruturas consideradas por João Bole e companheiros pouco valorizadas, assim como são a arte angolana e os seus fazedores.
“Nós fomos trazidos para o inferno. Aqui, quase ninguém vem. Fica longe da cidade e a estrada desencoraja as pessoas, pelos perigos que representa”, aponta o artesão, que vende peças no Centro de Artes do Benfica, juntamente com mais de 150 colegas, num espaço com mercado, atelier, espaço café, espaço exposição, auditório (155 lugares), arruamentos e serviços de apoio (garagem, armazém, edifício técnico, instalações sanitárias, guarita e escritório).
Por causa disso, conta, os habituais compradores do antigo Mercado do Artesanato, no Kifica, deixaram de procurar os criadores. Alguns artesãos estão a abandonar a arte. Os que continuam, nas instalações do Centro de Artes do Benfica, devido às longas horas que ficam sem clientes, “matam” o dia com jogos de diversão, como sueca e dama.
João Bole explica que, em nenhuma parte do mundo, as feiras do artesanato são levadas para fora das cidades. “Essa gente teve uma ideia estudada de fazer morrer a nossa arte e empobrecer, ainda mais, a cultura nacional”. Exemplo disso, é o que se passa na COAPRA. Por falta de valorização, a cooperativa, que dispunha de mais de 500 membros, conta, actualmente, com menos de 200.
Em função da gravidade da situação, o responsável da cooperativa pediu ao Estado para tomar medidas urgentes, que evitem o que chamou de “tragédia cultural”, uma vez que a necessidade de se resolver os problemas sociais está a falar mais alto que a cultura.
“Entre abandonar as artes e dar de comer à família, noutra actividade, e continuar aqui e deixar morrer os filhos, a primeira solução é o caminho para muitos de nós”, alerta o artesão.

Internacionalização da arte

Tal como João Bole, o jovem artesão Cipriano Pinheiro defende uma série de acções que visam a internacionalização do artesanato angolano, uma vez acreditar na existência de condições para a grande indústria de arte no país.
Para atingir esse objectivo, o jovem sugere a criação de políticas, encabeçadas pelo próprio Estado, através do Ministério da Cultura, para a concessão de crédito bancário aos artesãos, para que reforcem a capacidade de aquisição de matéria-prima, para aumentar a produção e fomentar exposições regulares internacionais.
A falta de uma caixa social também preocupa os artistas. João Bole e Cipriano Pinheiro dizem que esta questão tinha de ter o apoio do Estado, uma vez que a grande maioria dos criadores desta arte está com idades acima dos 45 anos. “Quando estivermos velhos, temos de ir todos ao Beiral?”, questionou João Bole.
Outra situação que atormenta os artesãos e artistas plásticos do Benfica tem a ver com a pouca divulgação ou promoção do espaço que os acolhe. “Há poucas pessoas que conhecem este lugar, o que faz com que muita gente não passe por aqui, mesmo os que vêm aqui fazer praia”, acredita.

Maiores compradores

Embora sejam peças que retratem a cultura nacional, as obras dos artesãos do Centro de Artes do Benfica recebem maioritariamente visitantes e compradores estrangeiros, disse Cipriano Pinheiro.
Para os artesãos Bole e Pinheiro, este facto é, também, indicativo da pouca valorização do trabalho do artesão e do artista plástico entre os nacionais, principalmente no seio da juventude.
“Não é nada normal que sejam os de fora a dar maior importância às coisas que têm a ver com a nossa própria cultura”, lamentam.
O jovem artesão vai mais longe ao afirmar que, no país, ainda existem famílias que deixam de adquirir peças de artesanato por acharem que as mesmas têm alguma relação com feiticismo, o que não corresponde à verdade.

Peças de alto valor vendidas a preços módicos

Em relação aos preços, João Bole disse que o valor depende da peça. Porém, deixou claro que algumas peças de alto valor acabam por ser vendidas a preços módicos, por causa das dificuldades financeiras acima referidas. Mas, a obra mais cara custa cerca de 500 mil kwanzas e a mais barata 1.000 kwanzas.
“Entre levar uns 100 mil, por uma peça que custaria 300 mil, e ficar sem nada no bolso, somos obrigados a vender os trabalhos, por preços que não correspondem ao nosso esforço”, desabafa João Bole.
Apesar da pouca ou quase inexistente venda, a administração do centro cobrava 350 kwanzas, por semana, a cada artesão por ocupação de espaço. “Nós deixámos de pagar, porque estamos incapacitados de o fazer”, confessa o responsável da COAPRA.
Na produção de peças, os artesões usam diversas espécies de pau (troncos de árvores) com destaque para o rosa, opaco, preto, disseca, ferro ou mbota, bambu, além do cura-tudo, tacule, moreira e girite. Além daquelas matérias-primas, os artesãos recorrem ainda à lixa, anelina e ao búfalo (usadas em sapatos), vieclene (pó para tingir ou dar coloração castanha), à raspa e a pelos de cabrito. Em relação à madeira, os artesãos adquirem-na nas províncias de Cabinda, Zaire, Bengo e Huíla e na República do Congo Brazzaville.
Os artesãos começaram a actividade em 1985, no Kinaxixi, de onde se transferiram para a Praça do Artesanato de Benfica, em 1993, encontrando-se, desde finais de 2016, no centro de artes do Museu da Escravatura.

 

 

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