Reportagem

As histórias de quem vive no Beiral

André da Costa

Apoiada numa bengala, Maria Teresa Freitas, 70 anos, completados a 19 de Junho, caminha devagarinho pelo quintal do Lar da Terceira Idade Beiral, em Luanda. Com uma lucidez mental de invejar, a idosa vive no local há um ano e três meses. Viúva, diz ter trabalhado, durante seis anos, na Embaixada de Angola na República Checa, onde deixou um casal de filhos a estudar.

Fotografia: André da Costa | Edições Novembro

Durante vários anos, viveu no bairro Cassenda. Depois de ser indicada para trabalhar na República Checa, acompanhada do marido, deixou a casa aos cuidados de uma afilhada de casamento. Ao regressar ao país, descobriu que a afilhada lhe tinha vendido a casa com todos os haveres lá dentro. Triste, conta que ainda tentou reaver a casa, mas sem sucesso. 

Como alternativa, Maria Teresa Freitas e o marido tiveram de arrendar uma casa para viverem. Com a morte do esposo e sem dinheiro para pagar a renda, foi viver, por algum tempo, com uma irmã mais nova. A crise financeira que o país vive colocou no desemprego alguns familiares que sustentavam a casa da irmã, que se viu obrigada a arrendar a casa para poder sobreviver.
“A minha irmã disse-me que havia de arrendar a casa e pediu que procurasse outro lugar para morar. Como antiga funcionária e conhecendo bem as leis do país, recorri ao Ministério da Acção Social, Família e Promoção da Mulher e acabei por vir parar ao Beiral”, disse.
Os filhos, com quem mantém contacto, diz, conhecem a sua situação. “Os meus filhos choraram porque não era isso que queriam para mim, depois de uma trajectória de vida saudável”, disse. Maria Freitas garante sentir-se bem no Beiral, onde diz ser ser “bem tratada”, não tendo por isso “reclamações nem chatices.” “Sou doente do coração e sinto-me bem aqui”, afirma.

Reencontrar famílias
Maria Manuel, 62 anos, está há um ano e um mês no Beiral. Natural da Lunda-Sul, veio, em 2009, para Luanda onde, numa casa arrendada no bairro Golfe, viveu com o marido até a sua morte. Sozinha, viu-se obrigada a vender alguns produtos na rua para se poder sustentar. Com o agravar do custo de vida, ficou também sem dinheiro para pagar a renda e comida, acabando por ir parar ao Beiral. O grande desafio é reencontrar os três filhos, já adultos, na Lunda-Sul para poder regressar ao seio familiar.
Desde o ano passado, José Cabanga, 64 anos, vive no Beiral, vindo da República da Namíbia, onde residia desde 1973. Naquele país, onde trabalhou como electricista, deixou, sem nenhu-ma explicação, esposa e quatro filhos. À reportagem do Jornal de Angola, revela que a esposa desconhece até hoje o seu paradeiro. Tomado pela saudade, pretende agora reencontrar a família e deixar o lar da terceira idade.
João Manuel Café, 52 anos, está há seis meses no Beiral, proveniente do Cuando Cu-bango, onde, desde 1983, cumpriu o serviço militar. Desmobilizado em 1992, na Matala, província da Huíla, regressou à sua terra natal, Malanje, onde não encontrou nenhum familiar em vida.
Desolado, regressou ao Cuando Cubango, onde so-brevivia como agricultor. No ano passado, veio para Lu-anda para morar com a única filha, que acabaria por falecer por doença, deixando seis filhos menores em casa de renda. Sem alternativa, foi parar ao Beiral.

Morte de idosos
O Lar da Terceira Idade Beiral acolhe 103 idosos, dos quais 60 homens e 43 mulheres. A directora da instituição, Guiomar Damião, explica que, dos 103 idosos, 20 foram abandonados pelos seus familiares nos hospitais Américo Boavida, Josina Machel, Clínica do Prenda e Capalanga.
Este ano, o Beiral registou o falecimento de sete idosos por doença, tendo a instituição se responsabilizado pelos funerais. “Eram idosos cujo estado de saúde exigia a sua permanência em hospitais e não no Beiral”, disse, acrescentando que alguns filhos, depois de saberem que os pais estão no Beiral, fazem visitas clandestinas e acompanhamento à distância.
A directora do Beiral de-nuncia que muitos desses filhos, ao tomarem conhecimento da morte do pai ou da mãe no Beiral, vão a correr buscar o boletim de óbito para se apoderarem da casa e do dinheiro deixado no banco. “Desde que descobrimos essas artimanhas, deixámos de entregar os boletins de óbito”, garantiu.

Denúncias de desvio de bens doados
Recentemente, três idosos, em cartas endereçadas aos órgãos de comunicação social, acusaram a direcção do Beiral de desviar os bens doados por várias instituições públicas e privadas. Guiomar Damião refuta tais acusações e garante que os idosos têm direito a três refeições diárias. “A direcção dá o seu melhor para o bem-estar dos idosos”, assegurou.
Para a directora do Beiral, essa atitude dos três idosos revela comportamentos negativos trazidos desde o seio familiar, onde não eram tolerados. Por isso, disse, tem trabalhado com os idosos em causa no sentido de mudarem a sua conduta, sendo que uns acatam e outros não.
“Trabalhamos 24/24 horas, sem feriado nem final-de-semana, cuidando dos idosos, inclusive daqueles internados nos hospitais, onde até damos banho. Mas, para eles, não fazemos nada, por isso exigem que devemos dar as mesmas condições que an-tes tinham em casa, antes de cá virem”, refere Guiomar Damião.

Programas de apoio ao idoso
A directora nacional para a Política Familiar do Ministério da Acção Social, Família e Promoção da Mulher, Santa Ernesto, disse que a Lei da Pessoa Idosa acautela aspectos relacionadas com o idoso desprovido de atenção familiar, em situação de abandono e de isolamento.
O Ministério da Acção Social, Família e Promo-ção da Mulher, frisou, tem levado a cabo um projecto de apoio ao idoso na comunidade e no lar, que consiste na atribuição de uma cesta básica.
“Outro projecto em curso é o Jango de Valores, que visa sensibilizar as famílias sobre a necessidade de se proteger a pessoa idosa, porque o lugar do idoso é na família”, sublinhou.
Santa Ernesto referiu que o país possui 18 lares de acolhimento em 11 províncias, com capacidade para 150 pessoas cada. As províncias com maior número de lares de acolhimento são as do Moxico, que alberga 233 idosos, e a de Benguela, que acolhe 112.
Mensalmente, disse, dão entrada dois idosos nos lares da terceira idade, embora haja alguns períodos em que não se regista nenhuma entrada. “Isso é um bom sinal, porque antes deparávamo-nos com muitos idosos na rua.”
O Ministério da Acção Social, Família e Promoção da Mulher, frisou, está a realizar um levantamento para apurar o número de famílias que vivem em extrema pobreza.

Situação degradante

O sociólogo Marcelino Pintinho considera que, em Angola, apesar das melhorias no domínio da acção social, família, promoção da mulher e da saúde, a condição da pessoa idosa é degradante.
“O lugar do idoso é, certamente, na família e não no lar de acolhimento. Ninguém nasceu para viver no lar, não nos podemos esquecer que o idoso de hoje foi o jovem de ontem, e o jovem de hoje será o idoso do amanhã. O seu lugar é dentro dos limites da estrutura familiar”, defendeu. O Dia 1 de Outubro, além de homenagear as pessoas de mais idade, visa incentivar e consciencializar a sociedade sobre as necessidades das pessoas idosas. Para isso, os cidadãos e os governantes devem estar cientes do papel social que devem desempenhar, desde o respeito e auxílio aos indivíduos idosos, até políticas e estratégias públicas (nos variados sectores) que garantam que as pessoas tenham um envelhecimento com qualidade de vida e dignidade.

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