Reportagem

As inexploradas quedas do Cuemba e do Luando

João Dias e João Constantino

O som ribombante da queda das águas é ininterrupto desde que a natureza as moldou.

Fotografia: José Cola | Edições Novembro

A água tem força da natureza. Procurou passagem por entre as pedras, formou seu caminho e assim se fizeram as quedas do Cuemba e do Luando com diferenças pouco substanciais.

As quedas do Cuemba e Luando são apelativas. Mas, elas continuam inexploradas. Sem estruturas para as rentabilizar senão um pequeno sombreiro, a 200 metros das quedas do Cuemba, no alto da colina, que permite vislumbrá-la.
O impacto da queda das águas é tão forte que se espalmam com imensa brutalidade nas rochas pretas de granito, formando pequenas nuances flutuantes de água em estado gasoso, que parecem nuvens a emergir por entre as pedras. É surreal a obra da natureza!
Por enquanto, a natureza mantém-se na sua forma original sem alterações da engenharia humana. Continua rústica na sua essência, e petulante na sua manifestação, nada discreta. As quedas do Luando, do rio com o mesmo nome, são ligeiramente “mais caudalosas” em relação às do Cuemba.
Se nesta última, os acessos são razoáveis, nas do Luando o acesso do Cuemba à comuna do Luando é radicalmente difícil. É quase que inacessível, não fossem as picadas, mas da comuna com o mesmo nome do rio e das quedas, a viagem segue com alguma normalidade. As quedas do Luando estão completamente intocadas. Continuam tal como a natureza as fez. Uma e outra têm de comum o facto de estarem localizadas no município do Cuemba.
São muito bonitas. Mas, sem projectos para as explorar, não passarão de belas e nada mais do que isso. Serão apenas meras quedas de água. A combinação natureza, sol, quedas e telecomunicações operacionais revelam-se num ingrediente para o turismo, hoje chamada a indústria da paz e com grande papel no desenvolvimento económico e social, o que pode estimular o comércio de produtos locais, venda de artesanato e até uma maior exposição dos traços culturais do município.
Entretanto, o investimento está em falta para que tudo isso ocorra. Faltam equipamentos e infra-estruturas de apoio, faltam estradas, mas também segurança, saneamento e protecção do ecossistema. Ao longo do rio Cuemba e ao redor das quedas do Cuemba, o ecossistema está bem conservado, mas é a falta de infra-estrutura de apoio que torna aquela dádiva da natureza menos conhecida, pelo menos, em termos de visitas. Beleza por si só, é insuficiente quando faltam medidas de segurança e condições para um pleno desfrute.

Produção de néctar e mel

O Cuemba é dos municípios com uma das maiores colónias de abelhas. Por isso, nessa época, a produção de mel está em alta. Segundo Azevedo Pires, responsável da Estação de Desenvolvimento Agrário (EDA), a instituição está num processo de organização dos apicultores em associações com o apoio da cooperativa Coapa para que melhorem os níveis de produção, tornando-o semi-industrial.
A produção de mel no Cuemba é já uma tradição. Vem de há muito tempo, passando de geração em geração.
Entretanto, a produção de mel do Cuemba não supera a do Munhango, cujos níveis se elevaram bastante nos últimos anos.
A média anual de produção é variável, existindo anos em que a produção não passa das 8 mil toneladas e outros em que atinge as 15 mil toneladas.
Azevedo Pires explica que a variação na produção do mel para níveis baixos ou altos tem a ver com o néctar. “Há anos em que há mais néctar, havendo outros em que isso não ocorre. Isso depende também da chuva. Se as chuvas se prolongarem até finais de Abril, haverá pouca produção, mas quando cessam mais cedo a produção de néctar é maior, o que influencia a produção de mais mel”, esclareceu.
O Cuemba situa-se no quilómetro 681 do Caminho-de-Ferro de Benguela (CFB) a 164 quilómetros do Cuito, com uma superfície de 13.250 quilómetros quadrados e cerca de 62.735 habitantes. Com dois centros administrativos, 18 embalas e 212 aldeias, o município está limitado a norte pelos municípios de Quirima e Cacolo, a este pelo município do Moxico, a sul pelo município de Camacupa, e a oeste pelos municípios de Camacupa e Luquembo.
Até 1964, era reconhecido como Posto Administrativo, com sede no Posto Administrativo de Neves Ferreira. O Cuemba é apenas um dos locais com lugares com potencial turístico ao lado do Centro da Chicava e o Jardim da Pouca Vergonha, as águas termais do Essonda e as grutas paleolíticas do Dombe, no Andulo, o Centro Geodésico de Angola, em Camacupa, a nascente do rio Cuanza, na localidade do Mumbué, no município do Chitembo, assim como as quedas do rio Luando, no Cuemba.

Ponte sobre o rio Cuemba aguarda por reabilitação


Sobre os escombros da ponte do rio Cuemba, arredores da sede municipal, duas senhoras lavam a roupa da família descontraidamente. Próximo, a visão encantadora do rio chamou a atenção devido às maravilhosas quedas de água.
Rita Fernanda lava a roupa com mais uma amiga e os dois filhos ao lado. Contam que se tornou hábito lavar no rio, pois realiza essa tarefa desde a infância. “Em casa, temos água permanentemente durante as 24 horas, mas preferimos lavar a roupa aqui todas as quintas-feiras e sábado”, afirmou.
Residente na sede do município há 19 anos, a jovem esposa, mãe de dois filhos, disse que a roupa fica totalmente limpa e, para facilitar, usam o sabão. “Tornou-se obrigatório para nós virmos sempre ao rio. Já é parte do nosso dia-a-dia”, revelou Rita Fernanda, de 19 anos.
Enquanto atravessámos, com dificuldade, a ponte destruída, vemos as pessoas, sobretudo senhoras, adolescentes e crianças a tomarem banho. As crianças sorridentes mostram-se felizes.
Do outro lado da ponte, que vai dar aos bairros Caqueque e Catanhinga, algumas vendedoras comercializam o mel ainda por refinar. O bidão de cinco litros de mel custa 3.500 kwanzas.
A velha ponte, destruída durante a guerra de 1992, é de importância capital para a circulação de pessoas e bens, pois liga os bairros periféricos à cidade.
O moto-taxista há três anos, Yessau Lucas, disse ser um perigo circular sobre os destroços da ponte, pois algumas pessoas já caíram no rio. “Nós, motociclista, não podemos circular aqui. Para irmos aos bairros Trumo e Camamhinga temos de dar uma volta grande”, lamentou o jovem, de 26 anos, e pai de dois filhos.
Localizada no bairro Sacunhinga, a velha ponte ainda não entrou nos planos de reabilitação do governo local, apesar dos apelos da população. Aliás, uma vez recuperada vai facilitar o acesso às quedas do Cuemba.
O ancião Afonso Chitumba, que se sentou num dos destroços da ponte para nos ver a trabalhar, contou que a reposição da ponte deve ser urgente, “porque somos obrigados a percorrer mais distância do que o necessário para chegarmos à sede da cidade”.

Mini-hídrica paralisada

Sobre as quedas do Cuemba está o local onde poderá vir a funcionar uma mini-hídrica para abastecer a sede municipal com energia limpa. Ainda este ano, em Março, o local foi visitado pelo ministro da Energia e Águas, João Baptista Borges, em companhia do governador Pereira Alfredo.
Na ocasião, o ministro afirmou que o projecto de distribuição de água iria beneficiar 34 mil pessoas. Segundo o ministro, os investimentos feitos no Cuemba têm a capacidade de suprir as necessidades actuais e futuras, até 2030.
Enquanto o arranque da mini-hídrica espera pela execução, uma obra de subordinação central, a energia na sede municipal é garantida por dois geradores que funcionam a gasóleo.
Normalmente, a energia pública é distribuída das 18h às 21h. Muitas vezes a energia é ligada das 18h às 20h.
A energia no município do Cuemba é fornecida por 15 grupos geradores espalhados pelas comunas do Cuemba, Munhango, Sachinemuna e Luando. O administrador João Baptista Mário garantiu que as ligações estão a ser feitas para levar energia a residências de todos os munícipes.
“Assim como temos a água 24h sobre 24h para mais de 2.787 moradores, queremos fazer o mesmo com a energia”, garantiu. Mas o desafio é grande, sobretudo devido às puxadas clandestinas de cidadãos que não têm contrato com a ENDE. Na noite de quarta-feira, uma sobrecarga deixou parcialmente a sede municipal às escuras.

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