Reportagem

Aumenta produção de colchões

Natacha Roberto

As limitações de cambiais estão na ordem do dia, de mãos dadas com as dificuldades de acesso a bens e serviços no mercado externo. O actual contexto tem sido um autêntico tira-teimas para a indústria nacional que apesar disso continua a revelar casos de sucesso, muito por culpa da perspicácia e em alguns casos da persistência dos gestores.

Produtos fabricados na Zona Económica Especial Luanda-Bengo conquistam o mercado

É o caso da Ninhoflex, uma fábrica de colchões e almofadas situada na Zona Económica Especial Luanda-Bengo. Quase sem dar por ela, hoje em muitos lares e em unidades hoteleiras encontramos facilmente os produtos Ninhoflex.
Especializada no fabrico de colchões e almofadas, a Ninhoflex tem em carteira um investimento de um milhão e 500 mil dólares destinado a duplicar a sua já considerável capacidade de produção anual, calculada actualmente em 198 mil unidades.  
Ao mesmo tempo que procura duplicar a produção, a firma trabalha numa estratégia de expansão dos seus negócios. "Actualmente, os nossos produtos chegam às diversas províncias de maneira informal, situação que queremos ver alterada”, diz o director da Ninhoflex. A criação de pontos de revenda em todo o país é apontada por Luvualo Ndembo, como um dos estratagemas para inversão do quadro.
A aposta na figura do revendedor, de acordo com o gestor, vai permitir a uniformização dos preços dos produtos a nível do país, salvaguardadas as ligeiras diferenças resultantes dos custos de transporte e logística.
Potencial fornecedora dos ministérios da Defesa e do Interior, a Ninhoflex quer continuar a corresponder com as expectativas dos seus clientes, incluindo as grandes superfícies comerciais. O investimento de 1,5 milhões de dólares que a empresa tem em vista prevê a aquisição de novos equipamentos que vão acelerar o modo de produção.
Os novos equipamentos, assegura Luvualo Ndembo, vão fazer com que as linhas de produção funcionem com maior celeridade na composição da matéria-prima utilizada na feitura de colchões e almofadas. A concepção dos colchões depende, em grande parte, da substância poliol, matéria-prima extraída nas refinarias.
O poliol é um álcool importante no fabrico da espuma que dá origem ao colchão. Mas a concepção dos produtos vai além do poliol, porque precisa ainda do Tolueno Disocianato, silicone, amina, estanio e água. Armazenados em tambores, os componentes são transferidos para um tanque maior através de um sistema de sucção. 
A mistura desses componentes num tanque programado a temperatura ambiente, transforma as substâncias líquidas em espuma sólida em apenas cinco minutos, tempo considerado suficiente para conceber a espuma que sai em forma bloco num formato vertical e horizontal, através de máquinas inteligentes. A matéria-prima criada fica em repouso 24 horas, para ganhar resistência, antes de ser levada a secção de transformação.
A espuma sólida começa a ganhar formato de colchão na máquina com estrutura de carrossel. A máquina faz a separação do bloco, em metades, retirando as imprecisões que ficam nas extremidades. 
O processo segue em linha de máquinas que contam com o maneio dos operadores. Depois do corte feito com precisão programada, a esponja maleável é separada em tamanho único na máquina de laminação, onde sai com base na encomenda solicitada. 
As dimensões variam de um a dois metros. Terminado o processo de corte da esponja num formato padrão, o colchão segue para secção de colagem. Nesta área de acabamento, a máquina faz a junção do colchão à mola de arame.
A fábrica possui seis áreas em actividade e mais de uma dezena de máquinas, que funcionam  oito horas por dia. Em todas as fases do processo de concepção do colchão, a qualidade da matéria é testada de forma contínua. Quando o colchão é mal concebido ou apresenta defeitos de fabrico, o material é transferido para a área de reciclagem.
Nesta área de grande importância, os colchões mal concebidos são transformados em matéria-prima através de um processo de flocagem (trituração). Depois de triturados são adicionados outros componentes químicos para criação de placas para colchão ortopédico.
Para satisfazer o cliente, a unidade fabril cria bases de madeira para os colchões. O colchão sai da fábrica com as bases e cabeceira de cama. A unidade produz 13.200 bases por ano.
 
Duas fábricas numa só
 
Dentro do parque fabril existe uma subunidade com três linhas de produção, que transforma arames em molas, em dimensões que variam entre  1.3 a quatro milímetros de diâmetro. Uma máquina denominada tecedeira une as molas de forma circular na dimensão de 12 metros de largura e 22 de comprimento, que são aplicadas no colchão, antes de ser forrado. O tecido utilizado na forragem ganha um designer diferente na área de bordado. Com máquinas de costura, as mulheres tecem bordados de diversos modelos. A fábrica tem ainda uma linha de produção que realiza a união do colchão ao tecido em simultâneo. 
Isabel Lopes é responsável desta área. Aos 55 anos foi admitida na fábrica para prestar formação contínua aos operadores de costura. Hoje, aos 60 anos, dedica-se com afinco na orientação dos novos operadores da área. Natural de Malange, foi professora do ensino primário nos anos 70, profissão que abandonou por motivos de saúde para se dedicar  à costura. 
Costureira de profissão, Isabel Lopes acumula 30 anos de experiência. “Trabalho desde os 13 anos de idade e penso terminar a minha carreira na fábrica com sentimento de missão cumprida”, diz, visivelmente contente. Às suas “ordens” trabalham 13 operadores, na sua maioria mulheres. Mãe de três filhos e avó de igual número de netos, a costureira concebe tecidos para colchão com rara mestria. 
A firma emprega 68 trabalhadores. As mulheres estão presentes em quase todas as áreas, mas é nas secções de corte do tecido, bordado e fechamento do colchão onde predominam.
Teresa Paulo funciona com uma grande máquina de bordar que em simultâneo une colchão e tecido. Antiga trabalhadora de um supermercado, Teresa Paulo diz  gostar do que faz. “Entrei na fábrica em 2012 e trabalhei na área de costura e só depois de uma formação de seis meses fui transferida para operar na máquina bordadeira”, conta.
Delfina de Carvalho, outra trabalhadora da Ninhoflex que beneficiou de uma formação para adaptar-se ao manuseio de máquinas. Conseguiu o seu primeiro emprego na fábrica. Diz que demorou dois meses adaptar-se. Mãe de três filhos, esperou um ano e meio para ser chamada pelo Ministério da Administração Pública Trabalho e Segurança Social (MAPTSS) e ser enquadrada na fábrica. “Tenho orgulho do que faço”, afirma.
 
Parque industrial

O sector da Indústria em Angola conheceu avanços significativos desde 2002, fruto não só das medidas económicas introduzidas pelo Governo ao nível da política económica, mas também pelo aumento do investimento privado no período de 2009 a 2013.
Criada em 2009, a Zona Económica Especial Luanda-Bengo (ZEELB) veio impulsionar o processo de desenvolvimento industrial na capital do país.
 Localizada a 30 quilómetros do centro de Luanda, a ZEELB, um projecto financiado com fundos públicos, compreende sete reservas industriais, seis reservas agrícolas e oito reservas mineiras, numa área total de 8.300 hectares entre os municípios de Viana, Cacuaco, Icolo e Bengo (Luanda), Dande e Ambriz (Bengo).
Hoje, a Zona Económica Especial congrega dezenas de fábricas, com as mais diversas vocações, contribuindo, cada uma na sua esfera, para o aumento da produção interna e a consequente redução das importações. A despeito da crise financeira, nos terrenos infra-estruturados e equipados da ZEELB continuam a instalar-se várias empresas, ao abrigo, até agora, de contratos com o Estado, nomeadamente fábricas de cabos eléctricos, acessórios de plásticos, ferragens, panificação, vidro, embalagens metálicas, alumínio, cobre, carpintaria e até de bolachas e confeitaria, entre outras.
A ministra da Indústria, Bernarda Martins, reconheceu recentemente que o processo de expansão do parque industrial está a ser afectado pela crise financeira que o país atravessa. “Enfrentamos dificuldades no acesso a divisas para aquisição de matéria-prima, quando a nossa indústria ainda é muito dependente das importações”, disse a governante.

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