Reportagem

Aumentam os casos de cancro no colo do útero

Manuela Mateus |

Angola tem o registo oficial de 230 novos casos de cancro do colo do útero em 2016, soube o Jornal de Angola junto do Instituto de Controlo da doença, em Luanda.

Instituto de Controlo do Câncer anteriormente chamado de Centro Nacional de Oncologia atende e trata diariamente vários casos de pacientes com doenças cancerígenas entre elas o da mama e dos ovários
Fotografia: Edições Novembro

A cada dia, a unidade de referência no diagnóstico e tratamento de doenças cancerígenas no país confirma três novas pacientes.
O cancro do colo do útero ocupa o segundo lugar entre as doenças cancerígenas no país, disse ao Jornal de Angola a responsável do serviço de prevenção, Albertina Manaça. O número de casos registados no ano passado foi maior do que o de 2015, em que foram conhecidas 198 situações.
O cancro do colo do útero é um tumor de crescimento lento, antecedido de alteração celular chamada displasia. A doença é transmitida pelo Papiloma Vírus Humano, mais conhecido por HPV.
A infecção está relacionada com a alteração das células do colo do útero, que pode vir a traduzir-se em cancro ou outras complicações. Estas células encontram-se na superfície da pele e em locais húmidos, tais como a vagina, ânus, colo uterino, vulva, cabeça do pénis, boca, garganta, traqueia, brônquios e pulmões.
Através do teste de Papanicolau, Isabel Sebastião conheceu a razão das fortes dores de bexiga. Por ter o período menstrual regular, a mulher, agora com 38 anos, dava pouca importância às contracções que sentia.
Em 2016, as dores tornaram-se intensas e foi encaminhada a um ginecologista, que de imediato recomendou uma biópsia, procedimento cirúrgico que permite determinar a natureza e o grau da lesão.
Diagnosticada com a doença, Isabel Sebastião procurou tratamento. Depois de obter os resultados do diagnóstico efectuado pelo Instituto Angolano de Controlo do Câncer, deslocou-se à Namíbia, onde é acompanhada por especialistas. “Não é fácil, mas vale a pena submeter-se ao tratamento”, disse Isabel Sebastião.
Nos primeiros meses, o processo foi angustiante. “Nunca passei por uma pressão psicológica tão forte como esta, que não desejo a qualquer mulher”, realçou. Durante as sessões de quimioterapia sente mal-estar, enjoos e perda de apetite.
Mãe de dois filhos, disse que a recuperação resulta também do apoio da família. Esta “é tudo na vida. Mesmo que estejamos sós, o que não é o meu caso, que ainda tenho filhos e marido, a minha família tem ajudado muito”, sublinhou.

Factores de risco

Além do HPV, de transmissão sexual, existem outros factores de risco, como o excesso de gestações, a relação com vários parceiros ­sexuais, ­infecções sexualmente transmissíveis mal tratadas ou não tratadas, uso excessivo do tabaco, bem como o inicio precoce da actividade sexual.   
Albertina Manaça referiu que as mulheres podem prevenir-se contra o HPV através de vacina, uso de preservativo e terem um único parceiro sexual.
“Embora sejam doenças curáveis, é importante prevenir, até porque muitas mulheres acabam descobrindo a doença tardiamente e acabam por perder a vida”, lamentou a responsável.
O Ministério da Saúde, através da Maternidade Lucrécia Paim, lançou em 2012 a vacinação gratuita contra o HPV. A vacina é administrada em três doses a raparigas dos 10 aos 14 anos, com uma eficácia de 98 por cento.
O então Ministro da Saúde, José Van-Dúnem, apelou às jovens angolanas que tomassem a vacina Servarix, que, além de ajudar a aumentar a esperança média de vida, previne doenças não transmissíveis.
A Maternidade Lucrécia Paim registou no primeiro semestre do ano passado 86 mulheres com cancro do útero em estado terminal.
De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), todos os anos surgem mais de 500.000 casos de cancro do útero, que vitimam cerca de 260.000 mulheres, sobretudo, em países em desenvolvimento.
A vacina está disponível na Maternidade Lucrécia Paim e também pode ser encontrada em algumas clínicas particulares. O Ministério da Saúde aventa a possibilidade de incluí-la no calendário de vacinais.

Doença silenciosa


No início, o cancro do colo do útero é silencioso e não apresenta sintomas, mas existem alguns sinais de que a mulher pode desconfiar.  “Quando a mulher não está no ciclo menstrual e ainda assim sangra, no acto sexual sente muitas dores e tem corrimento vaginal anormal, isso já é um sinal de alerta. E de acordo com a evolução da doença, a mulher pode apresentar outros sintomas, como anemia, dores nos membros inferiores, emagrecimento e perda de peso”, explicou Albertina Manaça.
Uma vez diagnosticado o tumor, a paciente faz uma série de exames para avaliar a etapa da doença e iniciar o tratamento. “Temos a cirurgia, a quimioterapia, a radioterapia e a braquiterapia. A cirurgia é o tratamento que se faz no início da doença e, nesses casos, existe a probabilidade de curar a paciente”, referiu a doutora.
Quando o estágio da doença é avançado, os tratamentos são feitos com quimioterapia, radioterapia e branquiterapia. Neste caso, os resultados são também benéficos. Após o tratamento, a doente continua a fazer consultas médicas. Numa primeira fase, uma vez por semana durante um mês, depois, de três em três meses. Passado um ano, é acompanhada a cada quatro meses, em seguida, de seis em seis e, posteriormente, uma vez por ano.
No período de tratamento, a paciente apresenta algumas dificuldades para desenvolver as actividades laborais. “Pode ocorrer sangramento vaginal que a leva a ter anemia, fraqueza, vómitos, perda de peso e emagrecimento”, explicou Albertina Manaça.
Os efeitos secundários do tratamento de quimioterapia e radioterapia são vários. Neste caso, a maior parte das pacientes apresenta feridas na área onde é intervencionada, sobretudo, a região genital. Ao caminharem e quando urinam, sentem dor. Na quimioterapia, os efeitos colaterais mais frequentes são vómitos, enjoos, falta de apetite e mal-estar geral.

Exames regulares

A responsável do Serviço de Prevenção do Instituto Angolano do Controlo do Câncer, Albertina Manaça, disse que, para prevenir a doença, todas as mulheres em idade fértil e sexualmente activas devem fazer o exame de Papanicolau uma vez por ano. Este teste serve para saber se a mulher tem ou não o cancro do colo do útero.
O exame pode ser feito nas maternidades de Luanda ou em clínicas privadas. “Se a mulher fizer este exame três vezes consecutivas e não acusar nada, está isenta de o fazer no quarto ou no quinto ano. A melhor forma de prevenir é procurar o ginecologista para ver como está a funcionar o seu órgão sexual”, aconselhou Albertina Manaça.

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