Reportagem

Baptista Domingos virou protector de infância

Nilza Massango

Antes de ser educador de infância, Baptista Domingos foi protecção física no Centro Infantil das “Bolinhas”, no bairro Nelito Soares, Distrito Urbano do Rangel. A rotina e os cuidados a ter com as crianças no centro, despertaram nele o interesse de fazer carreira como educador infantil.

Baptista Domingos é o único educador de infância do Centro Infantil das “Bolinhas” no bairro Nelito Soares, no Distrito Urbano do Rangel
Fotografia: Contreiras Pipa | Edições Novembro

Determinado a atingir os seus objectivos, fez o curso básico de Educador Social no Instituto de Ciências Religiosas (ICRA) e, nesta altura, é estudante do curso de Educação Infantil, no Instituto Superior de Serviço Social. Apesar da zombaria e das críticas dos amigos, Baptista Domingos sublinha que a educação de infância é uma profissão digna, que pode ser exercida tanto por mulheres como por homens.

Hoje, ele trabalha com uma turma de 45 crianças, com quatro e cinco anos, no Centro Infantil “Bolinhas”. O trabalho do “Tio Baptista”, como é carinhosamente tratado, vai para além do processo de ensino. Ele dança, salta, pinta, grita e faz piruetas com as crianças.
Apesar de ser homem, garante que é fácil ser educador infantil e assegura que as crianças sentem-se à vontade com ele. Baptista Domingos apenas não muda as fraldas das crianças, na medida em que esta tarefa é da inteira responsabilidade das vigilantes do berçário. Ele orienta e acompanha a hora das refeições, do sono e da higiene das crianças.
O trabalho do “Tio Baptista” começa logo pela manhã, com a ginástica matinal, que envolve jogos, a lengalenga (uso repetido de palavras ou rimas) e histórias, que estimulam o lado físico e psico-emocional das crianças, assim como desenvolve as suas capacidades de imaginação e interpretação.
Depois, seguem-se as actividades dirigidas, onde aprendem sobre comunicação linguística, matemática, meio físico e social e educação musical. “Se falamos de um animal, então somos obrigados a cantar sobre esse animal, trabalhar com ilustrações, gestos, ou mostrar o próprio animal, para que as crianças aprendam com mais facilidade”, explicou.
Pai de quatro meninas, “Tio Baptista” reconhece que a experiência adquirida ao longo da formação e como educador tem ajudado a lidar com as filhas em casa. “Lidar ou cuidar de crianças não é difícil. É preciso muita dedicação e paciência”, refere.
Baptista Domingos defende uma aposta séria no ensino pré-escolar e uma melhor remuneração do educador de infância. “Somos mal remunerados”, queixa-se, acrescentando que até os educadores de infância licenciados ainda auferem salários baixos.
A directora do Centro Infantil das “Bolinhas”, Domingas Sete Gomes, afirmou que têm recebido muitos educadores de infância como estagiários, vindo do Centro de Formação Tecnológica do Rangel (Cinfotec), de Cacuaco e do Centro Dom Bosco.

Formação de educadores de infância
A Escola de Formação Básica de Técnicos de Serviço Social formou, em seis meses, 350 técnicos básicos de Educação de Infância, dos quais dez são homens. Depois do estágio, poucos conseguiram um posto de trabalho definitivo.
Feliciano Neto, formador do curso de Educadores Pré-escolares, disse que a escola recebia mais candidatos do sexo masculino para o curso de educador de infância quando existia o sistema de internato. Devido à crise económica e financeira que o país atravessa, a instituição recebe apenas formandos externos. “Este ano, a escola tem oito homens a fazerem o curso de Educador de Infância, com a duração de seis meses”, disse.
Feliciano Neto considera que os homens são melhores educadores de infância que muitas mulheres, mas estas acabam por se destacar devido ao seu carinho e à sua sensibilidade, que acaba por influenciar na hora de admissão para o emprego.
“Mas os homens têm tido as melhores referências no processo de ensino durante os estágios”, referiu.

Mais atenção
Feliciano Neto defende que o Executivo, através do Ministério da Educação, que agora passa a tutelar o Ensino Pré-escolar, deve dar maior atenção a este nível de ensino. “As debilidades nos ensinos subsequentes devem-se à falta de aposta no ensino pré-escolar. Uma criança que passa pelo pré-escolar tem melhor aproveitamento nas classes seguintes”, referiu.
Feliciano Neto apela ao Ministério da Educação que invista cada vez mais em técnicos formados na área. “É bom ser educador”, disse, referindo que os pais não fazem ideia da marca que um educador deixa na vida das crianças.

  Desafios

Os educadores de infância têm como maiores desafios ter uma tabela salarial definida a nível da sua uniformização, e o acesso aos materiais didácticos, uma vez que o curso é novo e há pouco conteúdo no país, bem como a criação de cursos de mestrado e doutoramento, o acesso ao emprego e mais centros infantis públicos e escolas de formação.
Feliciano Neto disse, quanto à sua actividade, que o normal é um educador ter sob seus cuidados entre 20 ae25 crianças por sala. Mas, acrescentou, tal não acontece, principalmente nos centros públicos, devido à demanda.
Segundo referiu, o educador de infância defende maior fiscalização da actividade, principalmente nas instituições privadas, que admitem e despendem os funcionários sem cumprir os requisitos da Lei Geral do Trabalho.

Perfil do educador de infância

Feliciano Neto disse que um educador de infância deve ser sensível, prestativo, criativo, carinhoso, amoroso e, acima de tudo, ter um alto sentido de humanismo, na medida em que não é fácil lidar com crianças.
“A nível de competências, o candidato deve ter um conhecimento vasto sobre sociedade e natureza. Ser responsável, porque vai trabalhar e transmitir valores a uma faixa crucial do desenvolvimento do homem. Tem de ser uma pessoa com boas capacidades intelectuais; mentais. Não pode ser alguém que acarreta problemas emocionais, porque pode afectar a criança”, sublinhou.
Os educadores de infância são preparados para trabalhar com crianças dos 0 aos cinco anos, no Ensino Pré-escolar. Um dos critérios para frequentar o curso de Educador Infantil, na Escola de Formação de Técnicos Básicos de Serviço Social, é ter o curso de Vigilante de Infância e ser técnico médio e para o curso básico de Vigilante é ter até a nona classe.

 

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