Reportagem

Barragem de Capanda reforça a rede nacional de energia eléctrica

André dos Anjos

A funcionar em regime experimental há seis meses, a segunda central da barragem hidroeléctrica de Cambambe, que eleva a capacidade de produção do empreendimento de 260 para 960 megawatts (MW) é inaugurada hoje pelo Vice-Presidente da República, Manuel Vicente.

 

 

Construção e reabilitação de barragens é acompanhada da criação de novas subestações
Fotografia: Eduardo Pedro | Edições Novembro

Inserida nos esforços de redução do deficit de energia  que se verifica no país, a nova central de Cambambe começou a ser construída em 2013 e, apesar dos constrangimentos financeiros resultantes da queda do preço do petróleo no mercado internacional, as obras ficaram concluídas em Dezembro de 2016, altura em que entra em funcionamento a última das quatro turbinas, com capacidade de 175 MW cada, que a compõem.
A  cerimónia de hoje marca a passagem formal da obra do empreiteiro (Odebrecht) para o proprietário (Governo angolano). A nova central constitui a segunda e a última etapa da barragem de Cambambe, que começou a ser construída em 1959.
A primeira fase ficou concluída em 1963, com a entrada em funcionamento de uma central com duas turbinas de 45 megawatts cada, elevadas a quatro em 1969. O fim da segunda e última etapa, que inclui o alteamento e o reforço da potência da barragem, chegou a estar previsto para 1975 e, depois, para 1982, mas a situação político-militar que se seguiu à Independência Nacional assim não permitiu.
Entre as décadas 80 e 90, por falta de manutenção, devido igualmente à situação político militar, a barragem chegou perder cerca de metade da capacidade instalada. Em 2007, o Governo procede à primeira intervenção de vulto na barragem, repondo os níveis de produção inicialmente instalados (180 MW).
Dois anos depois, em 2009, o Governo faz a segunda intervenção na barragem, que consiste, entre outros arranjos, na substituição das quatro antigas turbinas de 45 MW  por outras de 65 megawatts cada, o que resultou no aumento da oferta, de 180 para 260 megawatts.
Além da nova central, a segunda fase chamada Cambambe II, incluiu a construção de  três subestações de transformação de energia, uma com capacidade para 400 Kilovolts, destinada ao reforço do circuito Cambambe/Luanda, com ramal para Catete, outra de 220 kv, que vai alimentar as linhas de Cambambe/Ndalatando, no Cuanza Norte, Gabela, no Cuanza Sul, e Benguela.
Outra subestação de 60 kv está reservada ao abastecimento de energia à sede do município do Dondo, e também a Cassoalala e sedes comunais de Zenza do Itombe e Massangano, que recebem energia pela primeira vez.
A atestar o volume e a complexidade das obras concorrem vários pormenores, a começar pelo número de pessoas que deram corpo à empreitada. O Ministério da Energia e Águas fala em cerca dez mil trabalhadores, 93 por cento de nacional angolana e sete por cento oriundos de outros países.
Para além dos desafios técnicos típicos e habituais em obras de alteamento de barragem, tais como a resistência da obra alteada ou a adaptação dos órgãos de descarga de cheias extremas, a empreitada distinguiu-se  pela complexidade da logística, muito condicionada pelas estações do ano e da hidrologia local.

Barragem de Laúca


Erguido também sobre o médio Kwanza, mas na província de Malanje, Laúca é para já a maior barragem já construída em Angola. Quando atingir a capacidade máxima, vai produzir acima do dobro do somatório das duas anteriores grandes barragens que a precederam: a de Cambambe e a de Capanda. Dito de outro modo, o empreendimento surge com potencial para aumentar substancialmente a oferta de energia no país.
Trata-se de um gigante de betão ainda sem paralelo na história da engenharia civil do país. Os números que entram na sua descrição técnica seriam exagerados senão fossem reais. Em termos de argamassa, os cálculos andam à volta de 600 mil metros cúbicos de betão. As escavações a céu aberto atingiram os seis milhões de metros cúbico, enquanto as escavações subterrâneas atingiam 1,6 milhões de metros cúbicos.
Referindo-se recentemente ao empreendimento, o ministro da Energia e Águas, Trata-se de um gigante de betão ainda sem paralelo na história da engenharia civil do país. Os números que entram na sua descrição técnica seriam exagerados senão fossem reais. Em termos de argamassa, os cálculos andam à volta de 600 mil metros cúbicos de betão. As escavações a céu aberto atingiram os seis milhões de metros cúbico, enquanto as escavações subterrâneas atingiam 1,6 milhões de metros cúbicos.
João Baptista Borges, vaticina que, quando estiver em pleno funcionamento, em 2018, a barragem de Laúca vai ajudar o país a ultrapassar o deficit de energia.
A albufeira de Laúca começou a ser enchida a 11 de Março, numa cerimónia orientada pelo Presidente da República, José Eduardo dos Santos. A última etapa do processo  fica concluída Bem 2018.
Orçadas em 4,5 mil milhões de dólares, as obras de construção da barragem tiveram início em 2012.

  Modernização da barragem traz benefícios económicos e sociais

Concluída que está a segunda estação de Cambambe, a barragem, por si só, responde pela satisfação das necessidades de energia de oito milhões habitantes e de importantes projectos industriais que cruzam o itinerário por onde passa a sua rede de distribuição.
No fundo, o primeiro grande benefício do aumento da capacidade de Cambambe é ajudar a corrigir o défice de energia em Luanda, calculado em  cerca de 400 megawatts. Uma cidade em crescimento e com numerosos projectos industriais, precisa cada vez mais de energia, sendo que os 700 megawatts que a nova central acrescenta à barragem, embora repartidos por Benguela e Cuanza Sul, ajudam a minimizar o problema.
Outro grande benefício do investimento na expansão da central hidroeléctrica de Cambambe é a redução de custos da energia “limpa”, uma vez que Luanda, Benguela e Cuanza Sul são abastecidos também por centrais térmicas, e o reforço da energia hidroeléctrica ajuda a  reduzir a factura com o diesel e libertar recursos para outras necessidades.
A produção de Cambambe, com o reforço de Laúca, vai ser importante na perspectiva de estender a rede eléctrica para todo o território, principalmente para toda a região sul. E é neste sentido que foi aprovado, recentemente, um projecto de construção de uma linha de transporte de energia para a província do Huambo.
Não fossem os agora considerados “factores históricos”, que durante décadas paralisaram importantes sectores da economia nacional, Angola há muito teria alcançado a auto-suficiência em energia eléctrica, com excedentes para exportação e, a essa altura, com certeza, os esforços no sector estariam todos virados para o aumento das exportações.
Aliás, um estudo recente do Banco Mundial confirma que o país tem potencialidades hídricas, que lhe permitem construir, no mínimo, 150 barragens, sem contar com as mini ou micro hidroeléctricas.
O deficit de energia no país vem do tempo colonial e tem implicações na economia nacional, na medida em que encarece os custos de produção. Não admira, por isso, que o sector esteja hoje entre os maiores destinatários de investimentos públicos.
Por altura da independência, a capacidade de geração de energia instalada não passava de 1.400 MW e, no final da guerra, em 2002, cerca 35 desta capacidade estava inoperacional. Os grandes investimentos no sector começaram, exactamente, com a reabilitação da barragem de Cambambe, com o advento da paz.
Desde então, assiste-se a um esforço no sentido da reabilitação das infra-estruturas básicas do sector, com destaque para o sistema de produção, transporte e distribuição de energia eléctrica, com vista a fazer face às necessidades das famílias e do crescimento económico do país.

Caculo Cabaça

Para acautelar as necessidades do futuro e tendo em conta as tendências do crescimento demográfico e económico do país, o Executivo, através do Ministério de Energia e Águas, mandou elaborar em 2014,  um projecto para a construção da barragem de Caculo Cabaça, também no Rio Cuanza.
O Aproveitamento Hidroeléctrico de Caculo Cabaça é constituído fundamentalmente por uma barragem de betão com 103 metros de altura máxima e 553 metros de desenvolvimento de coroamento, permitindo armazenar um volume total de cerca de 440 milhões de metros cúbicos de água.
O lançamento da primeira pedra para construção desta barragem, com capacidade para dois mil e cem megawatts, acontece no próximo mês, também na província do Cuanza Norte.

Plano estratégico

Para facilitar
a tarefa,  o Governo começou com um programa de médio prazo, assente na exploração dos recursos energéticos primários endógenos, com uma forte componente hídrica, privilegiando os grandes aproveitamentos e a criação de um sistema nacional de transporte, mas igualmente fomentando a criação de pequenos sistemas isolados, atendidos por mini e micro centrais hídricas e sistemas foto voltaicos.
Recentemente, foi aprovada a Estratégia e Política Energética Nacional, que estabelece os grandes eixos de desenvolvimento das capacidades de produção, transporte e distribuição de energia eléctrica, bem como da reforma do sector eléctrico, destacando-se o programa Nacional de Electrificação Rural.
O Programa de Governo para médio e longo prazos tem como grande meta satisfazer os requisitos de energia do desenvolvimento nacional, com sustentabilidade, favorecendo a universalização do acesso à electricidade pelas famílias e à oferta de energia necessária à expansão dos sectores produtivos do país.

 

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