Reportagem

Bravura das Mulheres nas fileiras das FAA

Domingos Mucuta| Lubango

A boina verde quase lhe cobre o olho direito. Lenço amarrado ao pescoço, cinturão branco bem apertado, luvas brancas. Segura firme o mastro do estandarte da Região Militar Sul.

Fotografia: Eduardo Pedro | Edições Novembro

Glória Van-Dúnem marcha à frente de cinco pelotões que se apresentam à tribuna, onde estão os oficiais superiores no comando da região. A unidade fica a 14 quilómetros do Lubango e alberga a cerimónia de abertura do ano de instrução combativa e preparativa do Comando da Região Militar Sul.
Nas Forças Armadas Angolanas (FAA) há quatro anos, a subsargento demonstra firmeza. Refere que as tarefas desempenhadas durante a cerimónia fazem parte das amplas responsabilidades da tropa.
A militar sublinha que as missões incumbidas pelos superiores devem ser cumpridasà risca. A ela cabe, no momento, proteger o estandarte da Região Militar.“Esta foi uma missão difícil, mas de muita honra. As mulheres desempenham um papel fundamental nas Forças Armadas Angolanas. Estamos para o que der e vier”, diz.

Na escola da vida

Os ensinamentos obtidos nas FAA vão muito além do manuseio de armas de fogo. A subsargento considera o serviço militar uma “verdadeira escola da vida”, na qual os militares aprendem valores patrióticos, o respeito pela diferença e o amor ao próximo.
Glória Van-Dúnem afirma que encontrou uma nova família e o encorajamento dos colegas incentivam-na a manter a postura.
“Muitas vezes, bate uma saudade da família, mas, como estamos aqui pela pátria, conseguimos superar esse vazio na companhia dos colegas e a dor é ultrapassada”, diz. Refere que as FAA não podem ser encaradas apenas como uma oportunidade de emprego para os jovens, mas sim como órgão de defesa muito importante para o país.
A decisão de servir nas FAA deve ser motivada pelo espírito patriótico e de sacrifício, ousadia, e coragem para o cumprimento da missão de garantir a estabilidade e a integridade territorial.“Aqui não há distinção de sexos. Estou aqui porque gosto de ser militar”, afirma a subsargento, que se considera “em prontidão permanente para defender a pátria”.

Estandarte nacional

O comandante das tropas em parada anuncia em voz alta a integração do estandarte nacional. Entre os 30 elementos do pelotão, está apenas um homem.
A subsargento Emília Faria segue em marcha com o estandarte até integrar o pelotão em parada, enquanto oficiais, praças, sargentos, subalternos, trabalhadores civis e convidados mostram respeito pela bandeira da República.
Nada pode interromper o momento. A responsabilidade dos elementos do triângulo do estandarte é maior por ser o grupo dianteiro do pelotão que transporta o símbolo nacional. Emília Faria e colegas avançam a passo e o pelotão, comandado pela tenente Maria Pedro, cumpre a missão e marcha em retirada.“Sinto-me honrada por cumprir a missão na cerimónia, que exige de nós grande responsabilidade. Servimos de exemplo para muitas mulheres que nos têm como modelo e pretendem ingressar nas fileiras das FAA”, afirma.
Emília Faria diz que, com empenho e sacrifício, consegue conciliar as tarefas militares com os afazeres diários para com a família.
A comandante do pelotão, tenente Maria Pedro, diz que as tarefas militares se revelam difíceis nos primeiros momentos. Para ela, em primeiro lugar está o cumprimento dasmissões e depois as de domínio familiar. “A pátria, aos seus filhos não pede, ordena”, lembra.
A oficial diz que, antes, a presença de mulheres nas FAA causava alguma surpresa, a opção de vida era tomada como sinal de atrevimento. Agora, a situação é diferente porque os homens e a sociedade, em geral, já aceitam o facto com naturalidade.Esta missão pode ser desempenhada tanto por homens como por mulheres, afirma.
A subsargento Emília Faria refere que as mulheres devem correr atrás dos seus sonhos, seja em que área for.“É necessário conhecer e ter certeza do que se quer. Se aspiram ser militares, devem manter o foco e preparar-se para o efeito. Tudo é possível e as mulheres também podem desempenhar tarefas consideradas difíceis. Todas devem estar prontas para superar as barreiras”, encoraja.
O chefe da Repartição de Preparação Combativa da Região Militar Sul, coronel Carlos de Oliveira, sublinha que, nos últimos cinco anos, as FAA tiveram um grande aumento do número de mulheres. Refere que muitas estão inseridas em áreas sociais, como saúde e educação, mas existe uma grande presença em áreas operativas.
“O número de mulheres tem aumentado nos últimos tempos. Elas estão dispostas ao cumprimento das diferentes missões”, afirma.

Inimigos das tropas

Doenças como a malária, tuberculose e o HIV-Sida e o consumo de bebidas alcoólicas são os novos inimigos do efectivo das FAA na Região Sul.A tenente Maria Pedro é também oficial do programa de combate à tuberculose. Como ­responsável pelo tratamento da doença, afirma que existe muito trabalho a fazer para sensibilizar o efectivo a adoptar um comportamento preventivo e os afectados a aderirem ao tratamento.
Enfermeira de formação, a tenente frisa que o tratamento da tuberculose é longo e requer muita paciência. Uma das principais tarefas da repartição é sensibilizar a tropa para cumprir as orientações médicas.
Composta por nove enfermeiras, a repartição tem como principal objectivo a redução dos índices da doença nas FAA. A tenente afirma que a tuberculose no Comando da
Região Militar Sul está controlada e não constitui perigo para o efectivo.

Companheiras de trincheira

O segundo comandante da Região Militar Sul, tenente-general Nicolau Puna, refere que a mulher angolana esteve presente em todos os momentos importantes da História de Angola.
O oficial general frisa que a mulher é mãe, esposa, filha, irmã e companheira de todos os momentos, inclusive colega de trincheira e tem-se revelado um elemento fundamental para o desenvolvimento social.
“A sociedade reconhece e orgulha-se do contributo da mulher angolana ao longo dos anos para a construção de uma nação mais justa, em todos os sectores da vida nacional”, sublinha. Nicolau Puna lembrou que a mulher é a maior vítima da violência doméstica, física, psicológica ou sexual. “Esperamos que haja mudanças de atitude entre as partes, respeito mútuo, amor verdadeiro, para que a harmonia seja permanente nas famílias, vivendo cada um para o bem do outro dentro da cultura de paz”, augurou.
No ano de instrução agora aberto, o Comando da Região Militar Sul pretende elevar a capacidade de todas as unidades e aumentar os níveis de preparação operativa, combativa, educativa e patriótica do efectivo. As militares participam em força.
O tenente-general defende o cumprimento rigoroso das tarefas emanadas pelo comando superior, tendo atenção à formação do pessoal, seja homens seja mulheres. “Só assim, estarão lançadas as bases para a modernização e reedificação das unidades, deixando-as prontas para os desafios do presente e do futuro. É sabido que as FAA são o principal garante da integridade territorial, da Independência Nacional e das instituições democráticas”, afirma.

Preparação combativa

Para cumprir esta missão, é necessário que cada combatente, enquadrado numa das diversas unidades e subunidades, seja bem preparado do ponto de vista técnico, militar, físico e psicológico, capaz de corresponder às exigências do momento, tanto no plano interno como no externo.
O segundo comandante exorta o efectivo da Região Militar Sul a manter a vigilância no cumprimento dos planos operativos e programas e recorda o ensinamento de que “o suor vertido durante a preparação combativa é o sangue poupado no campo de batalha.”
Nicolau Puna convida os militares a participarem como cidadãos comuns e espírito patriótico nas tarefas relativas às eleições gerais de Agosto próximo.
O tenente-general Nicolau Puna quer os comandantes e chefes de unidades empenhados na solução dos problemas apresentados no dia-a-dia pelo efectivo.
Cada comandante ou chefe, esteja onde estiver, deve mobilizar o efectivo para a criação de fazendas agropecuárias, aproveitando as potencialidades da região da área de permanência de cada unidade para melhorar a dieta alimentar do efectivo, adianta o tenente-general.

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