Reportagem

Cabinda cria pólo industrial

Leonel Kassana | Cabinda

Na província de Cabinda, a industrialização ganha a cada dia que passa mais força, na esteira da diversificação da economia. O secretário do sector na província, Geraldo Ndubo Paulo, fala em sinais de crescimento, nos últimos cinco anos. Em 2012, Cabinda contava com 161 unidades industriais, entre carpintarias, serralharias, padarias fábricas de produtos de higiene, tanques de água, confecções, estufarias e bebidas. Em 2015, o número subiu para 223.

Governo proibiu a exportação de madeira em toro e o sector industrial ganhou um novo fólego com o surgimento de novas fábricas
Fotografia: António Soares| Cabinda | Edições Novembro

Os dados da Secretaria da Indústria de Cabinda, que revelam um crescimento exponencial da indústria em diversos domínios na província de Cabinda, uma empreitada inteiramente atribuída ao Executivo.
O secretário da Indústria e Geologia e Minas de Cabinda confirmou ao Jornal de Angola o ascendente industrial da província no primeiro semestre deste ano. “No primeiro semestre de 2017, as infra-estruturas industriais conheceram um crescimento notável, sobretudo na fileira da madeira,  diz Ndubo Paulo, afirmando que estão licenciadas na província de Cabinda 61 unidades, entre carpintarias e serralharias, que chamam a si a transformação da madeira.
Contudo, apenas oito destas unidades asseguram, na plenitude, a serragem da madeira, suportando basicamente aquilo que são as orientações do Executivo sobre a proibição da exportação da madeira em toro e acrescentar mais valências para permitir a arrecadação e a entrada de mais cambiais no país, sobretudo nesta fase de sérios “apertos.”
O responsável da Indústria e Geologia e Minas de Cabinda confirma o crescimento das serrações nos próximos tempos, como garantia, para a indústria, sobretudo de mobiliário. Com uma floresta como a do  Maiombe, onde abundam espécies de madeira, como numbi, takula, banzala, wamba, vuku, limba, kungulo, pau-rosa, tolas branca, chinfuta, lifuma, kali, kâmbala, ndola, livuite, pau-preto e outras, matéria-prima é o que não falta para a indústria madeireira em Cabinda.
“O número de carpintarias não pára de crescer em Cabinda e passou de 61 em 2015 para cerca de 70 no primeiro semestre deste ano”, sublinha Ndubo Paulo, acrescentando que estas estão agrupadas em cooperativas e associações de produtores.
A fileira da madeira é, na verdade, uma das principais “bandeiras” da indústria em Cabinda. Pretende-se capitalizar, ao máximo, esse segmento, partindo da exploração, serragem, transformação e o aproveitamento dos refugos da madeira, num momento em que já há empresas a produzir carvão ecológico para o mercado nacional e externo.
A proibição, pelo Governo, da exportação de madeira em toro foi acolhida com um entusiasmo notável no sector industrial em Cabinda.  “Essa medida do Executivo vem colmatar alguns prejuízos que os madeireiros vinham tendo, pois  levavam a madeira em toro para os mercados dos países vizinhos, fundamentalmente para  Ponta Negra, República do Congo, onde o produto acabava por ser subavaliado”, diz Ndubo Paulo. As empresas que exploram a madeira saem, assim, a ganhar ao exportá-la já transformada, acrescenta.
Quanto à eficácia da implementação desse diploma, o secretário da Indústria e Geologia e Minas de Cabinda é categórico: “não será fácil ludibriar as autoridades, pois a madeira tem que passar pelos postos fronteiriços e aduaneiros, o que exige meios de transporte potentes. Enfim, a situação está controlada”, adianta.
Algumas das unidades de transformação da madeira implantadas no mercado de Cabinda exibem, hoje, um “know-how” e experiência que as colocam em condições de competir em qualquer mercado nacional e externo.
“Existem já algumas unidades com experiência comprovada e “know-how” e que produzem mobiliário, sobretudo escolar, de alta qualidade, para aquilo que nós consideramos como “bens provenientes da madeira”, diz o secretário da Indústria e Geologia e Minas de Cabinda, destacando o programa de refrescamento dos operários da fileira da madeira, entretanto paralisado devido à crise económico-financeira.
A boa notícia é que três empresas de madeira de Cabinda foram contratadas pelo Ministério da Indústria para o fornecimento de mobiliário escolar a vários estabelecimentos de ensino na província e outras regiões do país.
Ndubo Paulo  explica  que cada uma dessas unidades prevê o fornecimento de 10 mil carteiras, o que pode minimizar substancialmente a carência que se regista nos diferentes estabelecimentos de ensino.
Ndubo Paulo  a utilização, pelas empresas que operam no mercado de Cabinda, de produtos locais, que diz, têm qualidade e não ficam nada a dever a muitos que são de origem externa. “Temos madeira que, bem trabalhada, pode conferir valências ao produto acabado, sobretudo mobílias que podem durar entre 20 e 30 anos”, afirma.

Pólo de Fútila


A resiliência no sector da Indústria está, também, muito ligada a todo o trabalho que está a ser desenvolvido para a instalação, célere, de unidades fabris no Pólo Industrial de Fútila, arredores da cidade de Cabinda.
Fútila espera a conclusão, nos próximos 15 meses, da sua primeira fase, cujo contrato de gestão para o fim das obras de construção foi adjudicado a uma nova empresa, a Benfim, ao abrigo de um contrato com o Ministério da Indústria. Esta mudança de entidade que tem o condão de acelerar as obras de construção e, em consequência, a industrialização de Cabinda resulta de um decreto presidencial.
Trata-se, pois, de um diploma visto em Cabinda como uma espécie de “tábua de salvação” do Pólo Industrial de Fútila, cujo início de obras data de 2013, com notável atraso na sua execução. O decreto presidencial prevê, entre outros aspectos, um novo modelo de gestão.
Em Fútila, vão ser instaladas unidades ligadas aos mais variados serviços de apoio à indústria petrolífera em Cabinda, capitalizando, assim, a proximidade com o campo de Malongo e o porto de águas profundas em construção na zona do Caio.

  Empresários apostam no carvão ecológico para a diversificação económica


Quando
se fala de carvão ecológico no país, Cabinda surge no lugar cimeiro, com uma unidade industrial devidamente preparada para produzir 204 mil quilogramas por ano. Esse é mais um dos vários desafios do programa de diversificação económica, a luz do Plano Nacional de Desenvolvimento 2013/2017.
A única fábrica de carvão ecológico no país ocupa 2.500 metros quadrados na zona industrial do Caio, no município do Buco-Zau, 180 quilómetros a norte da cidade de Cabinda. Mensalmente, coloca no mercado, pelo menos, 17 mil toneladas de carvão por mês. Possui uma linha de serragem e corte dos desperdícios de madeira em forma de cubo e uma segunda para a sua transformação em carvão ecológico bruto e de briquetes.
A indústria farmacêutica e de cosméticos também sai beneficiada com a nova unidade industrial, já que está preparada para transformar os desperdícios de madeira para a produção de resina.
Particularmente significativa no processo de transformação da madeira em carvão ecológico está a preocupação com a protecção do meio ambiente, já que, segundo o Instituto de Desenvolvimento Florestal, (IDF), todos os desperdícios de madeira em toro são aproveitados para evitar enormes quantidades de fumo.
Ambientalistas em Cabinda dizem que o produto não vai causar danos ambientais durante o processo de fabrico, já que o carvão ecológico é extraído de uma resina que possui células cancerígenas que evitam doenças na fase do consumo do carvão.
“Em termos ambientais, está tudo salvaguardado, porque, durante o processo de produção do carvão ecológico, extrai-se uma resina em células cancerígenas ricas em protecção para saúde humana, o que torna o carvão activado”, explica.
Mas há outras valências: o carvão é exportável, uma vez que resulta do aproveitamento de desperdícios da exploração de madeira, evitando problemas ambientais, pragas e outras enfermidades durante a decomposição.
A fábrica possui o que há de melhor em tecnologia no mercado para o processamento de transformação de desperdícios da madeira em carvão ecológico. Aqui estão, pois, disponíveis modernas máquinas de serragem, machados eléctricos e linhas de processamento.
Humberto Amorim é o presidente executivo da fábrica de carvão ecológico. Ele não cita o valor do investimento empregado na montagem dessa unidade fabril, ficando-se pelos milhões de dólares, mas garante que pode gerar receitas que cobrem quer as despesas com a produção, quer de manutenção dos equipamentos.
Humberto Amorim adianta que, numa primeira fase, o carvão ecológico serve o mercado nacional e, depois, para a exportação.
Humberto Amorim  os postos de trabalho que a montagem desta unidade industrial criou, sobretudo para jovens do município do Buco-Zau, num total de 20, número que poderá chegar aos 30 nos próximos tempos. O empresário refere que a aposta no carvão ecológico é uma das estratégias fundamentais nesta fase de sérias carências cambiais para o funcionamento das unidades industriais.

Unidades industriais

Em Cabinda
  fala-se de unidades industriais para a produção de material de construção, como fábricas de tijolo, betão armado, blocos de cimento, telhas, mobiliário diverso, asfalto, aço e outros equipamentos pesados, numa província onde não faltam oportunidades de negócio em quase todos os domínios.
O Pólo Industrial de Fútila possui um total de 2.344 hectares, sendo que os 112 podem ser concluídos até Outubro de 2018. Estão reservadas extensas áreas para grandes armazenamento de madeira, contraplacados, serrações, carpintarias, uma diversidade de lojas, estaleiros, bens de consumo e infra-estruturas sociais e administrativas.
Quem não tem dúvidas sobre a implementação efectiva do Pólo de Fútila é o director da Indústria em Cabinda. “Os trabalhos do projecto de conclusão das infra-estruturas do pólo industrial estão a decorrer normalmente e temos plena confiança que vai cumprir as metas”, diz Ndubo Paulo, notando que, antes mesmo da entrega das infra-estruturas, as empresas foram orientadas a adquirirem lotes de terreno para a implantação das unidades industriais.
O responsável da Indústria em Cabinda confirma a deslocalização de algumas empresas do campo petrolífero de Malongo para o Pólo Industrial de Fútila.
“Para além de Fútila, onde teremos inicialmente a implantação de 56 diferentes empresas, temos outras que vêm do campo petrolífero do Malongo para o pólo ainda este ano”, acrescenta Ndubo Paulo, para quem esse universo de infra-estruturas permite catapultar a província para o seu desenvolvimento industrial.
Para já, há garantias de a energia e água não faltarem  no Pólo Industrial de Fútila, a avaliar pelos projectos que estão a ser desenvolvidos pelo sector, como apurámos em Cabinda.

Tempo

Multimédia