Reportagem

Cabinda é mais do que petróleo

Leonel Kassana | Cabinda

Uma das principais zonas petrolíferas do país, Cabinda faz uma aposta “forte” na agricultura. Se até anos mais recentes, esta era essencialmente de carácter familiar e, por isso, mais virada para a auto-suficiência alimentar, o cenário hoje é completamente diferente.

Area reservada para cuiltura e criaçao de gados estao a ser envadidas pela população
Fotografia: António Soares|Edições Novembro|Cabinda

São visíveis sinais claros de um sector empresarial cada vez mais activo, fruto de uma série de incentivos do sector público e também da banca, como acesso a crédito e disponibilização de equipamentos. As famílias com alguma tradição na prática da agricultura são o principal alvo.
Com a produção da cultura de mandioca e da banana a dominarem em quase 90 por cento a agricultura em Cabinda, nos dias que correm, a situação privilegiada da província, nomeadamente abundantes recursos hídricos e extensas terras férteis em todos os municípios permite reverter definitivamente a situação, com a produção em larga escala de bens alimentares. Em Cabinda, a agricultura ocupa hoje um lugar de relevo no quadro do programa de diversificação económica e de combate à fome e à pobreza.
Até ao final deste ano, a província espera aumentar em 50 por cento a produção de bens agrícolas de primeira necessidade. Na prática, tal representa 445.845 toneladas de raízes e tubérculos - mandioca e batata doce, sobretudo -, mais de 1.753 toneladas de cereais e 2.573,55 toneladas de leguminosas e oleaginosas. Um crescimento é esperado igualmente na produção de hortícolas e café com a 276.359,1 e 19, 8 toneladas, respectivamente.
Os números sobre as colheitas registam progressivamente um crescimento desde o ano de 2013. Há mesmo casos, como o da mandioca, em que houve o dobro da produção. Um indicador da aposta crescente na agricultura está no aumento, desde 2013, do número de famílias, agricultores e empresários, a quem o Governo concede todas as facilidades para que executem, sem grandes constrangimentos, os seus projectos. Só o número de famílias camponeses associados passou de 30.688 em 2013 para 42.842 este ano. Em paralelo, as áreas destinadas à produção agrícola também conhecem um crescimento exponencial. No sector da agricultura familiar, por exemplo, de 30.689 hectares no início do quinquénio, a área de cultivo passou para 34.920 em 2016.
As metas previstas para a agricultura em Cabinda são alcançáveis, diz o secretário provincial da Agricultura e Pescas, Tati Luemba, optimista com o desempenho das famílias camponesas e agricultores espalhados pelas diferentes comunidades dos municípios de Cabinda, Belize, Buco Zau e Cacongo.
Para manter Cabinda na rota da produção agrícola, as autoridades apostam no aprovisionamento de factores de produção como catanas, enxadas, pás, pulverizadores, regadores, motobombas e sementes de milho, hortícolas e feijão, banana, mandioca,batata rena, amendoim, para citar apenas alguns.
O Governo sabe que só uma aposta “forte” na mecanização permite atingir uma agricultura sustentada e competitiva. Por isso, além da aquisição dos imputes agrícolas, prioriza a aquisição de tractores com respectivas alfaias agrícolas, diversas máquinas e outras equipamentos técnicos para viabilizar e acelerar a preparação das terras para o cultivo em todas as comunidades dos quatro municípios de Cabinda, além de outras acções para apoio às campanhas agrícolas.

Vale do Yabi

O município sede de Cabinda sobressai, sobretudo, pela produção de hortícolas, nomeadamente no Vale do Yabi, a Sul da cidade. É daqui
que saem o tomate, couves, beringela, pepino e outros hortícolas que alimentam a cidade de Cabinda.
Pelo menos 30 agricultores, 260 camponeses e 52 famílias de ex-militares trabalham em cerca de 200 hectares nesse vale, que está para Cabinda como Cavaco está para Benguela. Um imenso perímetro agrícola da região.
O perímetro agrícola do Yabi tem as condições ideais para tornar-se num verdadeiro pólo agro-pecuário e industrial da província. Alguns agricultores, como Frederico Tumba, investem na criação de gado bovino. Frederico Tumba desenvolve um projecto que lhe permitiu atingir mais de 100 animais, algo significativo, numa região com tão pouca tradição nesse domínio.
A organização e a dedicação ao projecto parecem ser os principais pontos fortes deste agricultor, que espera um dia tornar-se um grande empresário do agronegócio. Frederico Tumba dedica-se ainda à produção de hortícolas em estufa. A ideia, dele e de mais de centena e meia de agricultores no Vale do Yabi, é fazer com que o mercado de Cabinda não acuse tanto a falta desse tipo de produtos em períodos considerados “críticos”.
No Vale do Yabi existem igualmente vastas extensões de palmar, cultura que garante a sobrevivência de milhares de famílias de Cabinda. São às centenas os jovens que se dedicam à produção artesanal de óleo de palma, mas há garantia da montagem de uma unidade industrial para o respectivo processamento. O mesmo pode acontecer no Buco Zau, outro município com forte tradição na produção de palmar.
No Tando Zinze, uma comuna do município de Cabinda, é desenvolvida com notável sucesso a cultura do feijão, café, ginguba, mandioca, milho e banana.
 No Cacongo, outro dos quatro municípios, está a maior concentração da produção de banana na província de Cabinda, algo que pode estimular a sua exportação, sobretudo para os mercados de países vizinhos, como a República Democrática do Congo.
No município do Belize, cerca de metade da população está envolvida directamente na produção agrícola, especialmente mandioca, batata rena, banana, ginguba e feijão.

Aposta na pecuária

Província de pouca tradição pecuária e com um registo de apenas 81pecuaristas, Cabinda ensaia uma estratégia para desenvolver um efectivo ganadeiro em quantidade e qualidade capaz de acabar de forma drástica com a importação de carne.
 O período de restrições cambiais em decorrência da crise provocada pela queda do preço do petróleo no mercado internacional, torna ainda mais premente a necessidade de acelerar este projecto.
A criação de animais de pequeno porte e aves está a ser incentivada pelas autoridades locais. Este ano, o Governo da Província de Cabinda entregou 100 cabeças de gado bovino a criadores locais na esteira do fomento pecuário, um programa que começou em 1996 para incentivar a criação de animais e diminuir a importação de carne.
A diminuição do défice de abastecimento de carne de origem nacional no mercado de Cabinda é vista como uma prioridade, com a própria governadora provincial, Aldina Catembo, a garantir a continuidade do programa de fomento pecuário, em que o Governo já investiu, desde 1996, mais de dois milhões de dólares para a aquisição de 735 cabeças de gado bovino.
Estudos do Ministério da Agricultura apontam que Cabinda tem condições para ser uma potência na criação de gado, com um clima que facilita a adaptação dos animais. O Governo adquiriu 635 das mil cabeças de gado na República Democrática do Congo, no âmbito do reforço do potencial ganadeiro da região.
As autoridades de Cabinda preconizam para este ano a diminuição em 15 por cento da importação de carne, substituindo-a com a produção local, segundo dados da secretaria provincial da Agricultura e Pescas fornecidos ao Jornal de Angola.
Em 2013, o mercado de Cabinda recebeu 3.593 toneladas de carne bovina, cifra que subiu para 3.779 no ano seguinte. No ano passado, essa cifra caiu para 2.651, podendo fixar-se nas 4.132 toneladas até ao final do ano, segundo previsões da secretaria da Agricultura e Pescas da província de Cabinda, a que tivemos acesso.

Mas como não só de carne bovina vive Cabinda, espera-se que este ano o
mercado local receba 22.653 toneladas de carne caprina, 14.949 de
ovinos e 55.185 de suínos de produção local. São bons indicadores no caminho da auto-suficiência alimentar no domínio da carne.

Para o efeito, o Governo conta com o envolvimento dos empresários, a quem concede fortes incentivos para a instalação, por exemplo, de aviários, matadouros, unidades de rações e centros de assistência técnica, entre outros.

Esses apoios permitem a passagem de uma cultura rudimentar para uma produção mais sustentável e capaz de atender ao elevado consumo de carne de aves e ovos e que ainda é satisfeita com recurso à importação.

A produção de carne de aves em Cabinda deve alcançar 196.894 toneladas no final do ano, contra 157.515 em 2013. O Governo tem como meta a redução de 25 por cento da importação de carne de aves e ovos. Um dado a reter nessa aposta na pecuária: o número de criadores de animais e aves passou de 28 em 2013 para 81 em 2017.

A diminuição drástica, a breve trecho, das importações de frango e
ovos é assumida pelo Governo como uma das prioridades, contando com
um crescente apoio financeiro das instituições bancárias.

  Regresso à produção de cacau para a comercialização
No passado, diversos fazendeiros de Cabinda exportaram para a Europa e os Estados Unidos da América (EUA) cerca de 500 toneladas de cacau comercial, uma actividade que o Governo pretende ver incrementada,  na esteira da diversificação económica.
No Buco Zau, município com condições climáticas favoráveis, foi criado um viveiro onde estão disponíveis 300 mil mudas de cacau capazes de cobrir mais de 272 hectares pertencentes aos camponeses.
O programa de relançamento da cultura do cacau engloba alguns empresários nacionais e estrangeiros dispostos a investir neste segmento, para o qual existem 400 hectares nos municípios de Cabinda, Cacongo, Belize e Buco-Zau. Uma parte das sementes é adquirida localmente e outra em São Tomé e Príncipe.

Distribuição de plantas

Numa primeira fase, serão distribuídas 91 mil plantas de cacau a 316 agricultores organizados em cooperativas de diferentes comunidades dos quatro municípios.
O Plano de Desenvolvimento de Cabinda para o quinquénio 2013/2017 inscreve o relançamento das culturas de café, cacau e palmar, alinhado com o programa de diversificação económica. A governadora Aldina Catembo realça a disponibilidade de 300 famílias camponesas para a reactivação dessas culturas na província. “Estão identificados os empresários que, além de apostarem na produção, vão garantir a sua transformação”, sublinha a governadora, destacando os inúmeros empregos que a cultura do café, cacau e palmar podem proporcionar, sobretudo para os jovens.

Recursos marinhos

As metas estabelecidas para o sector pesqueiro em Cabinda permitem  antever um crescimento acentuado no final deste quinquénio. O Jornal de Angola sabe que está previsto o aumento em 40 por cento do aproveitamento das capturas, com forte acréscimo no investimento nas estruturas de frio para a conservação do pescado. Peritos das pescas em Cabinda fixam em 30 por cento o aumento do aproveitamento das capturas por transformação, enquanto a quota de pescado proveniente da aquicultura deve alcançar os 15 por cento.
Nas águas marítimas de Cabinda operam actualmente 228 embarcações e1.824 pescadores, cifras que podem crescer mais 30 por cento até ao final deste ano, segundo previsões do sector das pescas.

Aquicultura ganha terreno

O mercado deve receber até ao início do próximo ano 6.000 toneladas de produtos da pesca artesanal marítima, 1.000 da pesca semi-industrial e 400 da pesca continental. A aquicultura deve contribuir com cinco toneladas.
Estes são números animadores, garantidos por quatro empresários, 1.443 pescadores artesanais marítimos, 122 pescadores artesanais continentais e 64 piscicultores.
A relevância atribuída pelo Governo da Província de Cabinda à pesca decorre não só da disponibilidade para fornecer alimentos à população, mas também do seu elevado potencial de emprego, numa região onde os níveis de desemprego ainda são elevados.
A aquisição de redes de pesca, anzóis, motores de pesca e depequenas embarcações do tipo chatas, é apenas parte das acções desenvolvidas pelo Governo para desenvolver o sector das pescas  como um dos principais vectores da economia em Cabinda.

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