Reportagem

Cabinda na rota do crescimento

Bernardo Capita | Cabinda

A então vila Amélia, hoje “Cidade de Cabinda”, que a 28 de Maio, do  longínquo ano de 1956, por portaria exarada pela antiga administração colonial portuguesa, ascendeu à categoria de cidade, se comparada, de ponto de vista do seu crescimento so-cial, de lá para cá, evoluiu substancialmente, a julgar pela rede de infra-estruturas, quer imobiliárias, quer rodoviárias que hoje já ostenta, proporcionando uma melhor qualidade de vida e um digno lugar para se continuar a viver com dignidade.

Fotografia: António Soares| Edições Novembro | Cabinda |

A cidade de Cabinda, também conhecida por “Tchioa”, que no dia 28 deste mês completa 62 anos de existência, apesar de tudo quanto hoje ostenta, o que há 62 anos não possuía, constituindo deste modo o motivo de grande orgulho e de alegria dos seus habitantes. Tem vias rodoviárias devidamente estruturadas, rede escolar e sanitária dotadas de infra-estruturas modernas construídas, incluindo portuárias e aeroportuárias, faculdades públicas e privadas e a maior indústria petrolífera do país, que constitui a sua maior “relíquia”, a Cabinda Gulf Oil Company, onde por via da multinacional Chevron são garantidos os principais serviços administrativos, operacionais bem como o aprovisionamento técnico e material das plataformas e de navios petroleiros  do crude (petróleo bruto). O petróleo é explorado nos blocos zero e 14, cuja produção média diária  é estimada em cerca de 620 mil barris dia. A cidade precisa ainda de muitos investimentos, quer de iniciativa pública quer privada, para que seja vista e tida como sendo a capital da província maior  contribuinte do Orçamento Geral do Estado em mais de 50 por cento.
Tal como refere um adágio popular “não só do pão vive o homem”, os munícipes de Cabinda reconhecem a  “tímida” evolução social que a cidade conheceu nos últimos 62 anos e acreditam por dias melhores, mas ainda assim, lamentam, e com muita frequência, os crónicos problemas sociais com que ainda se deparam no seu dia-a-dia, desde a falta de energia eléctrica,  abastecimento irregular  de água, saneamento básico, assistência médica e medicamentosa e, como se não bastasse, das vias de acesso no interior de quase todos os bairros que clamam por uma intervenção de fundo.  
O Governo Provincial de Cabinda direcciona avultados investimentos no sector da energia, que permitiram já a substituição total da rede de distribuição eléctrica de baixa e alta tensão (transportação), a partir da Central Térmica do Malembo até à cidade. Adquiriu três imponentes turbinas eléctricas, sendo duas movidas a gás e uma a gasóleo, com capacidade global de 95 megawatts,  como as do Chibodo de 15 e de Santa Catarina de 10 megawatts. Investiu no financiamento das obras de construção de uma nova subestação eléctrica,  no matadouro no bairro 1º de Maio. A Empresa Nacional de Distribuição Eléctrica (ENDE) não consegue garantir aos consumidores da cidade capital da província um abastecimento regular e ininterrupto de energia eléctrica. Os inexplicáveis apagões, a falta de iluminação pública e a de-mora em superar as avarias, que se registam na rede públi-ca, por parte dos técnicos da ENDE, são dentre outras as dificuldades que mais afligem os citadinos.
No domínio de saneamento básico, apesar de se registar melhorias na recolha regular do lixo, o que mais preocupa os munícipes é o lixo acumulado em muitas valas de drenagem de águas pluviais a céu aberto e dos resíduos líquidos produzidos em muitas residências, que escorrem em plena via pública, sob o olhar impávido dos agentes de fiscalização da administração municipal.
No tocante ao sector da Saú-de, diga-se em abono da verdade, a cidade de Cabinda ganhou até à data presente muitas infra-estruturas hospitalares, desde postos, centros e hospitais de referência. Contudo, a preocupação dos munícipes está relacionada com a falta de serviços especializados, de atendimento célere e humanizado e de medicamentos para assistência de pacientes, não só internados, como também os em regime ambulatório.
A maior parte dos bairros da periferia da cidade de Cabinda estão intransitáveis e as vias de acesso há muito que clamam por uma reabilitação. O município de Cabinda é potencialmente rico em inertes, com realce para o burgau, principal matéria-prima utilizada na  construção de estradas. Em função disso, os munícipes são de opinião que a administração municipal  deveria aproveitar esses recursos naturais, em abundância no subsolo, para reabilitar as vias secundárias e terciárias, ao invés de  colocar somente terra vermelha, o que causa sérios transtornos aos automobilistas, devido às enormes quantidades de lama que se produz quando chove.

A palavra do administrador 
O administrador municipal de Cabinda, Arnaldo Puati Tomás, afirmou, sem receios,  que a cidade de Cabinda, adstrita ao município sede com o mesmo nome, “está de facto a desenvolver-se”. Dá como exemplos visíveis os empreendimentos de impacto so-cioeconómicos e o crescimento demográfico, cujos últimos dados do censo da população de 2014 indicam 624 mil 646 habitantes, contra os anteriores  menos de 150 mil cidadãos de há seis ou menos décadas.
Para justificar o que disse, o administrador começou por comparar as várias etapas que a cidade de Cabinda registou desde vila, ascensão à cidade, até à data presente, recordando que no período em que  foi elevada à categoria de cidade apenas possuía uma única estrada principal, bairros sem qualquer ordenamento urbanístico, ruelas, pequenos es-tabelecimentos comerciais de colonos portugueses e cantinas de angolanos, um pequenino aeroporto que, na altu-ra, servia para aterragem de aviões de pequeno porte, como por exemplo o famoso barriga de ginguba ou simplesmente Dakota, de resto. Recordou ainda  com nostalgia que: “a cidade era todo capim, ou seja um autêntico matagal.”
O plano “Calabube”, continuou o administrador Arnal-do Tomás Puati, foi idealizado pela administração colonial portuguesa, isto é, em finais da década de 60, com o propósito de aferir à cidade de Cabinda e às vilas de Lândana, Buco-Zau e Belize um outro paradigma arquitectónico com pequenas infra-estruturas sociais básicas. Foi a partir desse período que começaram a ser edificados, na cidade de Cabinda, postos médicos, escolas primárias e deu-se início ao projecto de urbanização de novas zonas habitacionais, surgindo o en-tão bairro Mendonça Frazão, hoje 1º de Maio, onde os in-teressados adquiriam lotes de terreno para auto construção dirigida.

Angola independente
Para o administrador Arnaldo Puati Tomás, o verdadeiro “boom social” que a cidade de Cabinda já registou desde a sua existência, foi a partir de 1975 logo após  a proclamação da independência. O  Governo soberano de Angola começou a implementar no município de Cabinda, vários projectos de impacto socioeconómico, como a construção da zona residencial Uneca, no bairro 1º de Maio, com casas sociais para funcionários pú-blicos e não só. Anos depois, surgiram os condomínios do Cabassango, Aldeia Olímpi-ca, Vila Esperança, além de escolas primárias, secundárias, de ensino médio e superior, centros médicos e hospitais de referência para não falar da urbanização 4 de Abril que ostenta edifícios em esti-lo vertical com mais de mil apartamentos.
Com exemplos práticos da evolução da cidade de Cabinda, o responsável do município, disse ainda que, fruto dos investimentos que o Executivo tem vindo a efectuar na sua área de jurisdição, a cidade já possui, hoje, um aeroporto mais confortável e de maior dimensão, apesar de estar ainda a receber obras de ampliação, e uma ponte cais mais desenvolvida, contrariamente àquela herdada do colono português. Em construção, estão as obras do quebra mar, terminal marítimo de passageiros e o porto de águas profundas. “Portanto, só não vê que Cabinda está a crescer quem realmente não tem olhos para ver”, remata o administrador do município mais populoso da província.                       

Plano director
Os vários problemas sociais com que ainda afligem os munícipes de Cabinda vão ser ultrapassados gradualmente, com a implementação de vários projectos previstos no “plano director” da cidade, garantiu o administrador Arnaldo Puati Tomás.
 O plano director, a que se refere o administrador, espelha um conjunto de acções sociais a serem executadas a curto, médio e longo prazos, que vão incidir na melhoria da qualidade de vida de todos os habitantes. Apontou como exemplo as obras de construção de  três mil moradias no Zongolo para o realojamento de famílias já cadastradas que vivem em zonas de risco e daquelas que também residem no perímetro adjacente às obras do novo aeroporto Maria Mambo Café.
Na localidade de São Vi-cente, destaca o administrador, estão já devidamente loteados cerca de três mil e du-zentos espaços de terreno onde alguns cidadãos interessados já receberam espaços, onde implementam a auto construção dirigida. A administração municipal apoiou com algum material de construção, nomeadamente barrotes, chapas, pregos, terra e água para a produção de adobes.
A  requalificação do bairro comandante Gika é outro exemplo apontado pelo administrador do município, pela incidência particular que tem na vida dos moradores. Além da melhoria das vias de acesso, estão a ser implantados outros serviços sociais com objectivo de conferir bem-estar à população e também melhorar a sua imagem. Neste particular, destaque para as obras de construção do novo mercado, que vai albergar sobretudo pessoas que vendem nas bermas da via.
O mercado tem capacidade para mil vendedores e está a ser construído numa área de 14 mil metros quadrados e está estruturado em três pisos. No rés-do-chão, vão ser construídas 180 bancadas para a venda de produtos não perecíveis, mais 20 em forma de frigorífico para os produtos perecíveis, cinco armazéns para condicionamento dos produtos e outras valências. No primeiro andar, vão ser instaladas 124 lojas e no segundo, os serviços de restauração, incluindo salões de beleza.
 
Mãos à obra
O administrador do município de Cabinda é de opinião que o desenvolvimento sustentável e a tranquilidade so-cial no município passam, necessariamente, por uma governação participativa, em que a população é “chamada a contribuir com ideias e su-gestões, não só para facilitar a concessão de vários projectos sociais, mas também, e acima de tudo, para ajudar a combater os fenómenos ne-gativos que ocorrem na urbe, como os crimes violentos (roubos à mão armada, violência sexual, assassinatos, tráfico de menores, proliferação de seitas religiosas e imigração ilegal, esta última com níveis insustentáveis).
“Todos nós temos a responsabilidade de ajudar os órgãos de soberania no combate desses crimes violentos”, alertou o administrador, para quem a imigração ilegal, constitui a principal causa do aumento da onda de criminalidade, principalmente na cidade de Cabinda, onde está concentrado o maior número de cidadãos estrangeiros ilegais que praticam esses actos.
O administrador  faz uma particular advertência às autoridades tradicionais, che-fes de zonas, regedores  e coordenadores de bairros para denunciarem os delinquentes que promovem a criminalidade na cidade e nos bairros periféricos, bem como aos cidadãos  estrangeiros ilegais que se acomodam nessas localidades, promovendo todo o tipo de acções indecorosas. “Se cada um fizer a denúncia, ou seja dar a informação aos órgãos de soberania da existência de criminosos ou de cidadãos estrangeiros ilegais na sua área de jurisdição, vai permitir à Polícia fazer um trabalho preventivo e evita-se, assim, que os mesmos concretizem os seus intentos “macabros”, acrescentou.

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