Reportagem

Camela, aldeia dentro de uma cidade

Quando os habitantes fazem o retrato das  transformações em curso na aldeia, a expressão mais ouvida é sempre a mesma: “Tudo isto era uma mata fechada, agora está  a ficar uma cidade!”

Aldeia da Camela
Fotografia: Edições Novembro |

 “Está a ficar ‘igual’, e até melhor, que muitos municípios do Huambo.  A vida está mesmo a mudar.  Já não vamos sair daqui à procura de melhores condições noutras localidades”, descreve José Silva, supervisor de segurança da aldeia. 
 É com este elogio que, pelo trabalho de reforma e requalificação, os aldeões-cicerones apresentam aos visitantes a aldeia Camela Amões. “Quan­do acordámos custa-nos a acreditar. Pensámos, às vezes, que é um sonho. Mas é uma realidade. A Camela está a mudar!”, exclama.
Nesta aldeia do município do Cachiungo, a 86 quilómetros da cidade do Hu­ambo, de  mata densa, de mi-
lhares de hectares, desabrocha, dia e noite, um novo pa­radigma de viver e trabalhar no meio rural, evitando o êxo­do populacional.
“O caminho é este, o da valorização do meio rural, para reter as pessoas nas suas zonas de origem com trabalho e casas condignas. É a forma mais eficiente para a diversificação da economia. É no campo onde se produz quase tudo de que o país precisa. É no meio rural onde está o caminho para a saída da crise”, argumenta Baptista Tchipongue, consultor do projecto de reforma da aldeia Camela Amões.
Se o projecto de reforma impressiona quem, diariamente, acompanha o desenrolar dos trabalhos, indiferen-
tes não ficam os que flanque­iam, pela primeira vez, as duas entradas de acesso à aldeia, terraplenadas e com postos de iluminação pública com sistema solar, cognominadas  avenidas Valentim Amões e Maria Augusta Amões, até  ao "coração" da Camela.
À chegada ao "centro da cidade", o primeiro reparo das pessoas, com alguma perplexidade à mistura, é a  imponência das casas, quer dos técnicos e as sociais que, segundo confessa um visitante, “não são para estar aqui  no mato, mas sim na cidade. Estas chegam a ser melhores do que muitas do Nova Vida e Talatona. Desculpem-me, mas estas casas não são para serem construídas no mato” devido ao alto padrão das mesmas.
De olhar sereno, com uma garrafa de água na mão, António Segunda Amões, o idealizador do projecto, acha que  esta constatação é “egocêntrica”, por considerar que “quem vive no mato não tem direito a uma boa casa. Este pensamento é errado. É uma tese que provoca o não-desenvolvimento do país.”
Se a crise económica e financeira retrai os investimentos e desacelera as apostas em novos projectos, o empresário contrapõe: “Não pensei duas vezes.” Depois de analisar o discurso do então Presidente José Eduardo dos Santos, no Huambo, em 2012, decidiu “lançar o projecto de reformar a aldeia Camela. Podia ter construído um prédio na cidade, mas era apenas mais um prédio. É no campo que vamos contornar a crise.”
A dimensão da reforma e da requalificação da aldeia Camela  Amões impressiona, nas palavras de Segunda Amões, pela sua abrangência, cuja meta  é construir, até 2025, duas mil casas sociais, como forma de garantir a sustentabilidade do valor acrescendo do projecto, como são os casos das indústrias transformadoras e do ecoturismo.
Daí que o empresário,  natural da aldeia Camela Amões, tenha uma explicação – ou fórmula económica – para acreditar que o projecto é exequível: “A primeira preocupação do diagnóstico que fizemos, para que o projecto tenha êxito,  foi a componente habitacional, seguida   da  educação e saúde. A intenção é transformar 40 mil hectares em zonas de produção agrícola, florestal, pecuária, industrial, de ecoturismo e reserva de animais selvagens. Mas para que isso aconteça, é necessária mão-de-obra e se criem as condições para as pessoas virem para cá viver, estudar e trabalhar para garantirem a sustentabilidade  das actividades a serem criadas.”
Se a convicção de êxito do investidor é um facto, no mesmo diapasão alinha Hélder Neto, o encarregado-geral das obras que,  “com muita dor”,  segundo disse, teve de deixar a família em Luanda e abraçar o desafio de “transformar um mato em uma cidade, sem nenhuma infra-estrutura pública,  começando tudo do zero.”  
O encarregado-geral re­corda os primeiros dias de trabalho, em que a palavra desistir lhe veio à memória, porque “a maior parte das pessoas que vieram à procura de emprego não sabiam nada. Foi preciso ensinar tudo. Hoje temos, depois de três anos, grandes mestres-de-obras e operadores de máquinas. Foi duro no início mas valeu a  pena. Agora tudo pode ser transmitido via rádio. Eles dão conta do recado.”
Os 650 trabalhadores, todos contratados na região,  conseguiram, em três anos, de acordo com o encarregado-geral, desmatar mais de cinco mil hectares onde foram erguidas casas  de alto padrão e sociais de tipologia T3 e T4, posto médico, escolas, alfaiataria, loja de conveniência, casa da juventude, jangos e lavandaria comunitária, tanque de água, três tanques para a piscicultura, uma cerca, para os animais selvagens, de mais de 20 quilómetros.
“Há muito trabalho ainda pela frente. Afinal, estamos a falar de uma obra que necessita de 15 mil litros de gasóleo e três mil sacos de cimento por semana, sem contar com o apoio social aos trabalhadores, como a alimentação. Vamos continuar a trabalhar, com fé e dedicação, para o êxito do projecto, que é, no fundo, um projecto de Estado”, contextualiza Segunda Amões.   
 
A fé como guia
A construção de duas igrejas na aldeia Camela Amões, uma católica e outra protestante  salta  à vista pelas suas dimensões, idealizadas para receberem, cada, mais de 400 fiéis sentados.
O Núncio Apostólico, monsenhor Petar Rajic, numa visita que efectuou à aldeia da Camela, disse que a construção das duas igrejas vai ajudar “todos os irmãos a viver na fé e em paz” para que se possa, conforme disse, encarar os problemas da vida e os desafios futuros com tranquilidade “pregando a palavra do Senhor” com as famílias felizes.
Por este caminho da fé pensou Segunda Amões quando decidiu  incluir no projecto as duas igrejas. A sua justificação categórica é a seguin­te: “Quem não tem Deus não tem nada! O único caminho da salvação é ir à Igreja escutar a palavra!”
A reforma e a requalificação da aldeia Camela Amões é, na óptica do representante do Vaticano em Angola, “um projecto lindo, muito grande, de grande perspectiva para o futuro, podia ser um bom exemplo para o país, para o desenvolvimento da própria Angola.”
 
 Reino do Bailundo
A aldeia Camela Amões, localizada no município do Ca­chiungo, é uma circunscrição do Reino do Bailundo e foi fundada a 20 de Fevereiro de 1910 por Prata Camela Amões, neto do rei Ekuikui II. O fundador da aldeia, conforme reza a História, terá caminha­do das zonas do Reino do Bailundo para se fixar na aldeia da Cavava, por volta de 1890.
Prata Camela Amões, filho de Wungulu e de Natchombo, seguiu, 20 anos depois, para outro ponto desta região do planalto, onde acabou por fundar, a 20 de Fevereiro de 1910, a aldeia Camela Amões. 
Os habitantes da aldeia, calculados em 12 mil, têm como actividade principal a produção de batata rena e doce, feijão, milho, mandio­ca, ginguba, carvão e hortíco­las e a criação de gado bovino e caprino.
 
 


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