Reportagem

Campanha de vacinação bovina começa na província da Huíla

Arão Martins | Chibia

A erradicação das doenças que afectam o gado bovino exige disciplina, rigor, continuidade e abrangência de todos os animais nas campanhas de vacinação, que o Executivo promove todos os anos no país, como afirmou na comuna da Quihita, município da Chibia, província da Huíla, o secretário de Estado para a Agricultura, Amaro Tati.

A campanha Nacional de Vacinação Bovina e Canina decorre em todo o país para acabar com as doenças que afectam o gado bovino
Fotografia: Aritmateia Baptista | Edições Novembro | Chibia

O secretário de Estado para a Agricultura, Amaro Tati, que falava na abertura da Campanha Nacional de Vacinação Bovina e Canina 2017, que decorre em todo o país, disse que, para se acabar com as doenças que afectam o gado bovino no país, é preciso que haja campanhas de vacinação permanentes e abrangência de todos os animais, para evitar que um boi em falta possa contaminar os outros.
A quantidade de vacas leiteiras que o tradicional criador de gado bovino Muhatili Kakuali, 60 anos, ostenta na comuna da Quihita, município da Chibia (45 quilómetros a sul da cidade do Lubango) obriga-o a levar todos os dias, no pasto, um banco de madeira, onjakelwa (cabaça), mbaquele (funil) e holo, para aproveitar o leite,que ordenha de um número considerável de vacas do seu curral.
O idoso disse à reportagem do Jornal de Angola, que ongombe ikola, que em português significa “o boi é sagrado”, por ser a base da economia da população do município da Chibia, província da Huíla, e que requer cuidado no seu tratamento e cumprimento na abrangência nas campanhas de vacinação.
A opinião é corroborada pelo criador de gado bovino de referência, Salomão Agostinho, que vive nos arredores do município da Chibia.Possuidor de centenas de cabeças de gado bovino, Salomão Agostinho afirmou que o carbúnculo hemático e a dermatite nodular foram as causas da morte de um número considerável de gado de sua pertença.
“A vacinação bovina é um acto muito importante para o criador. É o momento ideal para vacinação do gado, o que dá uma satisfação enorme para os criadores de gado. É para nós uma alegria, recebermos o acto de muita importância para a saúde dos nossos animais”, disse.
O soba grande da Huíla, Joaquim Huleipo, disse que a carne de gado bovino e o leite são considerados o peixe da região, que não possui mar. Toda a população precisa de carne e leite, ao tratar os animais com as vacinas, está-se a contribuir positivamente para o programa de combate à fome e à pobreza, no meio rural, como reconheceu a autoridade tradicional.O sector pecuário representa uma posição estratégica do ponto de vista económico nesta região e faz sentido a aposta na saúde animal, porque assim se pode evitar muitas doenças derivadas e que afectam consideravelmente a própria saúde humana. “Cuidar do gado e de outros animais próximos ao homem é de facto muito importante para ocuidado da própria saúde humana.”
O administrador municipal da Chibia, João Tchapinga Tchitocota, por sua vez, realçou que as campanhas massivas são importantes para a prevenção de contágios e o fortalecimento da resiliência das famílias, porque a criação do gado é um dos factores de sustentabilidade económica e mesmo de segurança alimentar para os produtos derivados.
“Há necessidade da regularidade das campanhas, visto que, desde 2013, não há campanhas de vacinação massivas do gado, logo torna-se importante aumentar as doses, porque as 100 mil doses fornecidas, por exemplo para os bovinos, estão aquém das necessidades reais no município da Chibia. Daí, pedirmos o reforço por causa do universo de animais estimados em mais de 160 mil cabeças”, disse o administrador.Outra preocupação manifestada pelo administrador municipal da Chibia tem a ver com a existência de apenas três técnicos veterinários, número insuficiente para atender a procura.
O empreendedorismo agrário, reconheceu, também já é um facto no município da Chibia, destacando a iniciativa de um agricultor que se está a dedicar à produção de adubo composto e simples a partir da composição de estrume de gado bovino, caprino e suíno, cuja incorporação vai ajudar a melhorar a estrutura do solo e aumentar aprodução e a produtividade.

Desenvolvimento sustentável

Adelaide Sapalo pediu aumento do apoio institucional para o fortalecimento técnico e produtivo, bem como a assistência material em meios rolantes para apoio à mobilidade e o aumento do número de técnicos veterinários, fármacos, tendo em conta o crescimento e o desenvolvimento sustentável que o sector agro-pecuário regista.
Adelaide Sapalo fez esta solicitação aquando da leitura da mensagem dos criadores de gado no país, durante o acto de abertura da campanha de vacinação bovina 2017, decorrida no município da Chibia, província da Huíla.
A falta de fármacos, insuficiência de vacinas para combater as doenças, kits técnicos como agulhas e seringas, a construção de mais mangas de vacinação e a reabilitação das outras existentes, segundo Adelaide Sapalo, continuam a preocupar os criadores de gado.
A melhoria das condições sanitárias actuais nos locais de abate e comercialização, fortalecer a fiscalização de produtos de origem animal e seus derivados nos estabelecimentos comerciais, reabilitação das residências técnicas, construção de casas de abate de bovinos, suínos e caprinos, bem como incentivar a recolha de cães vadios anível dos municípios, de modo a diminuir as mordeduras caninas, são outras preocupações manifestadas pelos criadores de gado.

Milhares de animais por vacinar

A responsável anunciou que para a campanha de vacinação bovina 2017 a meta é atingir dois milhões e 300 mil cabeças de gado bovino.
Para o efeito, acrescentou, estão disponíveis cerca de três milhões de doses para combater as doenças que afectam o gado bovino no país.
A directora-geral dos Serviços Veterinários em Angola, Bernardete Santana, que prestou a informação, garantiu que, para assegurar o processo de vacinação, estão mobilizados 530 técnicos.
A campanha de vacinação bovina 2017, precisou, visa o controlo de doenças como a peripneumonia contagiosa, a dermatite nodular contagiosa, o carbúnculo hemático e sintomático e a raiva para os cães que muitas vezes acompanham os animais ao pasto. A responsável esclareceu que a peripneumonia contagiosa dos bovinos é das doenças mais perigosas para o gado bovino, porque é das que têm causado mais prejuízos económicos. O carbúnculo hemático, frisou, é uma zoonose, porque passa de animais para homens e tem causado alguns problemas de morte até aos humanos e outras duas doenças. A dermatite nodular contagiosa de bovinos também é outra doença que causa grandes perdas nos bovinos, daí a importância da sua erradicação.
O Executivo, disse, tem estado a desenvolver acções para o controlo das doenças e o acto de abertura da campanha de vacinação 2017, decorrida no município da Chibia, na província da Huíla, veio mais uma vez vincar o seu compromisso para a criação de melhores condições para os criadores de gado bovino.
O gado bovino na região tem importância porque contribui para a dieta alimentar com os seus produtos (leite e carne). Tem ainda um contributo significativo para a redução das importações destes.
Assim, estão criadas as políticas para que o país reduza ao máximo as importações de carne e leite. Para que isso seja possível, salientou, é necessário controlar-se as doenças e também se prestar atenção para os programas de produção e de reprodução assentes numa política pecuária bem definida.


Objectivo do Executivo

O objectivo principal do Executivo é erradicar as doenças que afectam o gado bovino, garantiu o secretário de Estado para a Agricultura, Amaro Tati.“Temos que ter disciplina e realizar de forma contínua a vacinação.  Esta é a meta. Ainda não foi cumprida, porque ainda temos a peripneumonia contagiosa bovina, também conhecida por PPCB, ou kawenha em todo país e vamos ter que empreender maior esforço para garantir que essa meta seja atingida”, defendeu.
O secretário de Estado da Agricultura disse, ainda, que a peripneumonia contagiosa vai acabar quando se conseguir disciplinar a vacinação, aumentar a abrangência e ser-se infalível nesse sentido.
“É bom para todos nós, porque aquilo que prejudica a nossa pecuária é, de facto, um conjunto de doenças que fazem com que muitos criadores, de repente, tenham mil cabeças e depois tenham zero. Isto é um prejuízo económico forte, que até faz chorar muitos criadores, quer tradicionais que possuem a maioria do gado bovino do país, quer os comerciais”, disse, acrescentando que se perde muito gado por falta de prevenção em tempo oportuno. Amaro Tati garantiu que estão disponíveis doses de vacinas suficientes que são usadas de imediato, em função da disposição das cadeias de frio.
“Temos vacinas suficientes nas províncias para que a vacinação decorra da melhor forma”, disse, afirmando, “é uma pena, porque houve no ano passado eantepassado, alguma falha, quadro este já revertido no ano em curso, porque há vacinas suficientes que vão permitir vacinar gado em todo país.”
Aos actores, que vão participar na campanha de vacinação, pediu dedicação, empenho, patriotismo e que levem à vacinação o tempo que for necessário.
O governante disse que os criadores fizeram referência de que o boi é sagrado. “Estamos de acordo. O boi é sagrado, porque é a base da economia, fundamentalmente na Huíla e na Chibia em particular”, reconheceu.Chibia é um município rico, respeitável, com uma pecuária forte. Logo, Amaro Tati pediu aos criadores para preservarem a tradição e que façam de tudo para que esses animais cresçam com saúde e possam alimentar o mercado nacional, que por vezes tem de recorrer à importação.
Sobre a importância que se dá à vacinação, referiu: “O boi, se não for vacinado, fica doente e pode morrer. Ao acontecer, a perca é um prejuízo económico. Mais grave do que isso é o contágio que algumas doenças podem causar às pessoas. Daí, vale  a pena, pela nossa economia e saúde, vacinarmos de forma séria os nossos bovinos.”
Aos governos provinciais, administrações municipais, comunais, autoridades tradicionais e outras entidades, pediu para fazerem um trabalho pedagógico junto dos criadores a fim de vacinarem o gado para o bem de todos.

Apoio logístico

O aumento da logística, por forma a garantir uma intervenção oportuna aos técnicos veterinários, constitui prioridade do Executivo, através do Ministério da Agricultura.O secretário de Estado para a Agricultura reconheceu haver ainda deficiência neste domínio, mas o Governo continua a trabalhar para que as acções sejam realizadas com sucesso.“Ainda não conseguimos dar apoios logísticos suficientes, a começar pelos meios de transporte, alguns instrumentos do seu trabalho profissional, assim como o próprio subsídio que é devido aos nossos técnicos. Às vezes, faz-se muito bem, mas há falhas que temos que reconhecer”, sublinhou.
O trabalho continua por forma a regularizar essas situações, que podem prejudicar as campanhas de vacinação, e evitar a erradicação da PPCB e de outras doenças, precisou Amaro Tati.“Este é um bom ano. Esperamos que nos anos subsequentes a vacinação continua a acontecer até a erradicação das doenças”, disse.
A maioria dos municípios de Angola tem na agricultura a sua principal economia. A pecuária e a agricultura, referiu, são fontes de riqueza de muitas famílias. “Daí, todo administrador, que quer ver o seu povo feliz, deve dedicar um tempo especial a cuidardas questões da agricultura e da pecuária junto dos criadores”, sugeriu.

Tempo

Multimédia