Reportagem

Camponeses do Milunga vivem dias difíceis

José Bule

As plantas secam. A produção da mandioca fica cada vez mais comprometida. Há mais de um ano que o vírus da antracnose mosaico destrói as plantações no município do Milunga, província do Uíge.

Fotografia: EdIções Novembro

Os camponeses vivem dias de grande aflição e a população está à beira da penúria alimentar.  Na última época agríco-la, grande parte do alimento arrancado da terra apodreceu, como resultado da acção do perigoso vírus, empobrecendo substancialmente a dieta alimentar dos habitantes do município. Até agora, os técnicos da Estação de Desenvolvimento Agrário (EDA) e da Direcção Municipal da Cultura continuam sem soluções para travar a praga.
“Desde o ano passado que grande parte da plantação de mandioca seca, enquanto outra apodrece na fase de colheita. Estamos muito preocupados com esta situação, porque a mandioca é o principal componente da dieta alimentar da nossa população”, disse, ao Jornal de Angola, o director da Agricultura no Milunga.
Joaquim Chitas explicou que a cultura da mandioca apresenta ampla variabilidade genética e é considerada planta rústica com elevada capacidade de adaptação. “Pode ser cultivada em todas as regiões tropicais, adaptando-se às mais variadas condições de clima e solos”, assegurou.
O também engenheiro agrónomo acrescenta que, independentemente da sua ampla variabilidade genética e da sua interacção com o ambiente, os principais parâmetros ecológicos que favorecem a produção do tubérculo são a temperatura, radiação solar, fotoperíodo, regime hídrico e solos.
Em relação à produção no município, Joaquim Chitas refere que "graves perdas aconteceram devido à acção de bactérias, fungos e vírus fitopatogénicos. Por este motivo, torna-se importante diagnosticar correctamente as doenças e recomendar as medidas de controlo mais adequadas”.
Milunga controla 116 associações e duas cooperativas de camponeses, que integram mais de 4.768 associados, todos empenhados na produção de grandes quantidades de alimentos. Produzem de tudo um pouco, desde a mandioca em grande escala ao feijão, milho, ginguba, café, jindungo, arroz, inhame, previde, abacaxi, café, cana-de-açúcar, banana, batata-doce e hortícolas.
“A terra é extremamente fértil. Não precisa de adubos. Possui um sulfato de amónio que facilita o desenvolvimento de todo o tipo de plantas”, ga-rantiu o responsável.
Além da praga que afecta a cultura da mandioca, os agricultores enfrentam dificuldades que se prendem com a falta de máquinas de lavoura, mo-tobombas e instrumentos de trabalho como enxadas, catanas, limas, botas de borracha, etc. A falta de acesso ao micro-crédito impede os agricultores de suprir estas carências.
Para piorar, devido ao mau estado das vias, os camponeses têm imensas dificuldades para comercializar os produtos. São grandes as quantidades de alimentos que apodrecem nos campos de cultivo. Para a presente época agrícola, foram preparados mais de 100 hectares de terra.
O administrador do Mi-lunga, Abel Benga do Rosário, aponta a mecanização da produção agrícola, criação de parcerias com empresários com capacidade financeira e técnica para investir no sector e a realização de acções de melhoria nas vias de acesso como as soluções que podem garantir o desenvolvimento da localidade.
“Estamos a trabalhar na aquisição de algumas máquinas de lavoura e de vários instrumentos de trabalho, para apoiar os pequenos agricultores e garantir o auto - sustento das famílias”, disse o administrador.

Saúde também em dificuldades

O número insuficiente de médicos e enfermeiros e o mau estado das vias de acesso fazem com que grande parte da população não beneficie de assistência médica e medicamentosa. O impacto maior recai sobre as comunidades residentes nas comunas de Massau e Macolo, que procuram nas casas locais de cura a solução para os problemas de saúde.
“Nestas localidades não existem serviços de saúde, porque as vias de acesso estão muito degradadas. Também não temos técnicos suficientes para fazer funcionar alguns postos nas regedorias e aldeias”, explica José Castigo, director da Saúde no município.
Actualmente, apenas 21 enfermeiros (metade dos quais são contratados) e dois médicos prestam assistência a mais de 58 mil habitantes. O município necessita de mais 10 médicos especializados nas áreas de Clínica Geral, Cirurgia, Obstetrícia, Pediatria, Ginecologia e Ortopedia e pelo menos 200 enfermeiros.
Com os 12 postos e quatro centros de saúde em funcionamento, Milunga necessita de um total de 14 unidades, segundo contas das autoridades locais. Por falta de ambulâncias, a situação no município agrava-se a cada dia que passa. A propósito, o administrador Abel do Rosário reconhece que a rede sanitária é deficiente, mas tranquiliza os habitantes, dizendo que, no próximo ano serão desenvolvidas várias acções, que vão garantir os serviços de assistência médica e medicamentosa nas comunidades.
“Mas primeiro vamos melhorar as vias de acesso, porque a degradação da estrada complica a circulação de veículos e o transporte de materiais de construção e de bens diversos”, disse. Referiu ainda que a prioridade é a conclusão das obras do futuro hospital municipal, paralisadas há mais de três anos.
A malária, doenças diarreicas e respiratórias agudas, febre tifóide e infecções urinárias são as patologias mais frequentes.

Mais de três mil crianças fora do ensino

O município necessita de mais de 500 professores e 240 salas de aula. Por falta de pessoal docente e de escolas, existem mais de três mil crianças fora do sistema normal de ensino. A maioria reside nas aldeias e regedorias das comunas de Massau e Macolo, sobretudo na orla fronteiriça com a República Democrática do Congo.
“A maioria é menor de 10 anos, identificada em mais de 100 aldeias, que atravessa o rio Cuango em direcção à RDC, em busca de conhecimento”, confirma Victor Alberto, chefe da Secção Municipal do Ensino Geral.
Este ano, foram matriculados 34.696 alunos da iniciação à 12ª classe, distribuídos pelas 98 escolas do município, das quais apenas 20 foram construídas de raiz. As restantes estão em salas provisórias e ao relento (de-baixo de árvores). A formação dos alunos é assegurada por 673 professores.

Água e energia eléctrica

A antiga vila de Santa Cruz tem 10.306 moradores e a maioria não beneficia de água potável. Na sede do Milunga, o velho sistema de captação e distribuição, construído na era colonial, é incapaz de atender a de-manda actual. Possui apenas um tanque com capacidade para 15 mil metros cúbicos e sete chafarizes, dois dos quais avariados.
“Temos uma rica bacia hidrográfica. Os rios Cuhu e Ferreira, que ficam a três e sete quilómetros de distância da vila, respectivamente, oferecem um caudal com maior capacidade para fornecer água aos habitantes”, disse o administrador do Milunga.
Abel do Rosário garante que, nos próximos meses, o município ganha um novo sistema de captação e distribuição, com 20 chafarizes e capacidade para pro-
duzir 40 mil metros cúbicos de água. Porém, a falta de energia eléctrica na localidade também preocupa o administrador.
A vila é iluminada por um grupo gerador de 450 KVA, enquanto um outro de 250 KVA abastece a comuna de Macocola. Com o aumento do número de habitantes na sede e o surgimento de novas instituições públi-cas e privadas, o município passa agora a necessitar de dois grupos geradores de 800 KVA cada, para iluminar as ruas e facilitar as ligações domiciliárias.
Localizado a 228 quilómetros da cidade do Uíge, Milunga tem mais de 58 mil habitantes, distribuídos pelas 273 aldeias e três comunas, Macolo, Massau e Macocola.

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