Reportagem

Canal fluvial impulsiona crescimento do Rivungo

Nicolau Vasco | Menongue

A construção de um canal com 10 quilómetros de extensão, 34 metros de largura e três de profundidade no rio Cuando, termina no primeiro semestre de 2017, garantiu ao Jornal de Angola o ministro dos Transportes, Augusto da Silva Tomás.

O canal localizado entre o município do Rivungo e a localidade zambiana de Shangombo permite o aumento das trocas comerciais acelerando o desenvolvimento económico da região
Fotografia: DR

O canal fluvial, localizado entre a sede do município do Rivungo e a localidade zambiana de Shangombo, vai impulsionar as trocas comerciais entre os dois povos, com dois navios de passageiros, com capacidade para 25 pessoas cada, e outras duas embarcações de carga de 10 toneladas cada.
A falta de estradas entre Cuito Cuanavale e Rivungo, passando por Mavinga, faz com que a população tenha o mercado de Shangombo, na Zâmbia, como a via mais rápida para adquirir bens de primeira necessidade. As trocas comerciais entre Rivungo e Shangombo datam dos primórdios da independência do nosso país. Para lá chegar, os angolanos atravessavam o rio Cuando, incluindo a zona pantanosa de 10 quilómetros, onde chegavam a permanecer por mais de três horas, para chegar à outra margem.
Na travessia em canoas de construção precária, a população expõe-se a ataques de crocodilos, serpentes ou hipopótamos, que provocam dezenas de mortes.
Em linha recta, Rivungo, no leste da província, fica a cerca 750 quilómetros do Menongue, mas, devido às picadas com imensas curvas, essa distância chega aos 1.200 quilómetros. A viagem, num camião carregado, chega hoje aos cinco dias.

Visita do ministro

O ministro dos Transportes visitou o município do Rivungo no último fim-de-semana à frente de uma delegação multi-sectorial. Augusto Tomás avaliou a execução das obras do canal fluvial, baixou orientações e pediu mais dinamismo aos executores.
O ministro esteve acompanhado do governador do Cuando Cubango, Pedro Mutindi, dos secretários de Estado dos Transportes, José Cuvingua, e do Comércio, Jaime Fortunato, de membros da ENANA, do INAVIC e do Instituto Marítimo Portuário de Angola (IMPA), que receberam explicações do empreiteiro sobre o estado da obra.
Com recurso a um projector, o chefe de departamento de Segurança Marítima, Nero Maria, fez uma descrição pormenorizada do projecto, a cargo de uma empresa sul-africana. Os trabalhos começaram em 2014.
A delegação seguiu até Shangombo, a bordo de uma pequena embarcação a motor. Na localidade zambiana, foram construídos, ­pelas autoridades locais, vários armazéns afiançados para dar suporte às trocas comerciais com Angola.
Na sede do Rivungo, a delegação visitou também as obras de construção das 10 vivendas T-2 e T-3, em fase de acabamento, que serão entregues a funcionários das Alfândegas e da Administração Geral Tributária. O projecto contempla também infra-estruturas de apoio à Polícia Fiscal, Bombeiros, Serviço de Migração e Estrangeiros, casas de câmbio e bancos.
Augusto Tomás disse que o projecto, de grande envergadura, resulta da visão estratégica do Presidente da República, José Eduardo dos Santos, que, preocupado com as assimetrias e o sofrimento daquela população, mandou executar a obra. 
O projecto garante uma  maior mobilidade e segurança durante a navegação e fomenta o intercâmbio comercial, político, cultural e social entre os povos dos dois países, disse.
O canal pode ainda se tornar um grande atractivo para o turismo, ao permitir que “muitos turistas provenientes da Zâmbia entrem em Angola através do Rivungo, para poderem apreciar as belezas do projecto turismo transfronteiriço de Okavango-Zambeze e proporcionar mais arrecadação de receitas para o país”, acrescentou.
O canal fluvial vai ainda dar resposta à melhoria das condições ­sociais, com a criação de postos de trabalho, geração de rendimentos pessoais e receitas fiscais, aumentar o comércio e serviços para minimizar os problemas da população que reside ao longo da fronteira. />O projecto inclui a aquisição de equipamentos de sinalização, busca e salvamento, formação de quadros e a construção de pontes-cais nos dois lados para o embarque e desembarque de passageiros e mercadorias.

Construção do aeródromo

Sem adiantar datas, o ministro disse que o Ministério dos Transportes vai também trabalhar no asfaltamento do aeródromo do Rivungo, razão pela qual fez-se acompanhar de especialistas da Empresa Nacional de Exploração de Aeroportos e Navegação Aérea (ENANA) e do Instituto Nacional Aviação Civil (INAVIC), para efectuarem os estudos iniciais.
O governo da província procedeu ao desmatamento e compactação de solos para a construção de uma pista de aviação, referiu. Cabe ao ministério de tutela dar seguimento aos trabalhos e criar infra-estruturas de apoio.
O aeródromo, com 2.300 metros comprimento e 30 de largura, deve receber uma intervenção rápida, para impulsionar o turismo transfronteiriço na região do sudoeste do país, que abrange uma das maiores áreas de conservação do mundo.
A estrada entre o Cuito Cuanavale e o Rivungo, com passagem por Mavinga, vai ser asfaltada no quadro do projecto de construção de quatro mil quilómetros da malha rodoviária do Cuando Cubango, que engloba também os municípios de Calai, Dirico, Nancova e Cuangar.

População satisfeita

Mesmo sem estar ainda concluído, o canal fluvial já proporciona momentos de alegria à população local. O tempo da viagem em pirogas ficou reduzido de três horas para 25 minutos, a 500 kwanzas por passageiro.  
O administrador municipal do Rivungo, Júlio Vidigal, disse que o canal fluvial vai permitir acções sustentáveis para o desenvolvimento da região, mas é necessário que os meios para navegação sejam colocados à disposição da administração o mais cedo possível.
Apesar das dificuldades, com destaque para a distância, e da alta taxa de câmbio, à razão de mil kwanzas por 20 kwachas zambianos, é mais fácil adquirir meios agrícolas, de pastorícia ou de pesca no Rivungo, afirmou o administrador.
Com 29.510 quilómetros quadrados, além da sede, o município possui as comunas de Tchipundo e Luiana (Jamba), bem como a aldeia de Neriquinha. Luiana, a 211 quilómetros da vila do Rivungo, dá mais dores de cabeça em termos de circulação rodoviária. Neriquinha fica a 120 quilómetros e Tchipundo a 60.
O município reclama por um armazém de afiançados ao longo da zona fronteiriça com preços acessíveis, porque comerciantes zambianos vão à vila em busca, sobretudo, de cerveja Cuca, arroz do Rivungo e refrigerantes da Blue, entre outros produtos.
O Rivungo tem mais de 30 mil habitantes. Faz fronteira com a Zâmbia a leste, numa extensão de 281 quilómetros, e a Namíbia a sul, com a qual partilha uma fronteira de 177 quilómetros. O principal rio é o Cuando, que serpenteia pelo município, num percurso de 378 quilómetros até ao chamado “bico” de Angola.

Garantias de comércio

O secretário de Estado do Comércio, Jaime Fortunato, garantiu que a construção de armazéns afiançados ao longo das localidades fronteiriças é uma medida da SADC que visa promover o comércio entre os diferentes países da região.
Por esta razão, disse, vai levar a proposta à consideração superior para que se construam armazéns na sede do Rivungo para aumentar o intercâmbio comercial entre as duas localidades e o volume de negócios.

Tempo

Multimédia