Carnaval já movimenta grupos

Adriano de Melo |
17 de Fevereiro, 2017

Fotografia: Edmundo Eucilio|Edições Novembro|Bengo

Da kazukuta à cabecinha, com passagem pelo semba, estilo predominante na classe B, a disputa por um lugar ao sol na próxima edição do Carnaval de Luanda já começou e promete ser acirrada, com ensaios todos os dias.

A criar muito com o pouco que têm,os grupos da classe B, que, desde finais de Janeiro e princípios de Fevereiro, ensaiam de forma regular, prometem levar surpresas à Marginal da Praia do Bispo, no dia 26.
O horário dos ensaios varia, mas é ao final da tarde que a maioria dos dançarinos se começa a juntar para aperfeiçoar as coreografias. O trabalho e a escola são a razão da escolha desse período. Em geral, é aos finais de semana que há maior concentração de membros e os coreógrafos aproveitam para fazer os últimos acertos.
Um dos problemas da maioria dos fazedores da “festa” do Carnaval é o espaço. Dos grupos visitados, contam-se os que têm sede própria ou recinto adequado para os ensaios. Em geral, os campos de futebol e zonas baldias são os locais escolhidos para os ensaios. Porém, a areia, poeira ou o barulho da assistência atrapalham, às vezes muito, a concentração dos bailarinos.
Apesar das dificuldades, os preparativos para a “festa do povo” continuam por toda a capital. Entre as surpresas deste ano na classe B está o Unidos do Zango, que estreia na pista da Marginal da Praia do Bispo.

Os estreantes

Todos os dias, em especial aos finais de semana, o Unidos do Zango“afina” a coreografia para surpreender o júri e o público.
Com o pouco que tem conseguido, o grupo preparou-se para surpreender a todos e acabar entre os seis primeiros classificados. O semba é o estilo do grupo, que leva à pista da Marginal dançarinos e bessanganas. As homenagens são muitas e incluem uma às lavadeiras e outra ao dominó, estilo de dança antigo que já foi referência do Carnaval de Luanda, disse Maria Cristina ou “Mãe Mãe”, a responsável do grupo.
A ideia é mostrar a riqueza e a diversidade de estilos que existiam antes no Carnaval de Luanda e hoje tendem a desaparecer, caso nada se faça nada para a sua preservação e maior divulgação.
“Já temos as roupas do dominó quase prontas. Os dançarinos têm ensaiado com muita frequência. Queremos que os cotas, aqueles com raízes assentes no Carnaval, recordem esta antiga dança, assim como o ‘Homem do Bacalhau’, sobre quem também prestamos uma homenagem”, refere. Apesar desta pequena inovação, o semba é o estilo do grupo a ser exibido no desfile competitivo.
Outra surpresa é o Bloco dos Estudantes do Zango, com estudantes de diversas escolas da circunscrição. “O Carnaval é também uma forma de ajudar os jovens. Antes, o bairro era ameaçado pelo crescente índice de delinquência. Por isso, juntámo-los, criámos um grupo de aconselhamento e hoje muitos estão a ser exemplo para os mais novos.” O grupo já recebeu o apoio financeiro da Associação Provincial do Carnaval de Luanda (Aprocal), mas é insuficiente para suprir todas as necessidades. A quantidade de tecido entregue pela associação para fazer as indumentárias também é muito pequena na opinião da responsável. “Sei que estamos em fase de crise, mas essas limitações retiram um pouco da beleza e da qualidade que queremos dar à festa.”
A visita, ontem, da ministra da Cultura, Carolina Cerqueira, foi, para “Mãe Mãe”, um incentivo, assim como uma forma de esta conhecer um pouco da realidade dos fazedores do Carnaval. Para ela, é o amor à arte que os faz persistir e continuar a dançar, mas todo o apoio moral é de mais-valia.
“Fizemos de tudo para dançar. Os jovens estão dispostos a mostrarem o seu valor no desfile, mas se já temos dificuldades financeiras, então, o incentivo deve estar entre as prioridades. Embora estejamos prontos, ainda não sabemos como levar a maioria dos dançarinos, visto que a Cultura só tem disponibilizado um autocarro. Os pedidos que fizemos aos empresários, empresas e outras instituições com sedes ou filais no Zango ainda não tiveram retorno. Estamos a fazer de tudo, mas com muitas incertezas”, lamenta.
O cenário repete-se nos demais grupos do Carnaval. A falta de apoio cria imensas dificuldades.

Kazukuta em Viana

Quem também vive este drama é o Juventude do Kapalanga, um dos poucos grupos executantes da kazukuta. Com raízes vindas do grupo Kazukuta do Sambizanga, o Juventude do Kapalanga aposta na reeducação dos jovens, como tema para convencer o júri e a assistência.
Os ensaios acontecem agora todos os dias, diz Francisco Filipe, segundo comandante do grupo e coreógrafo. Apesar da reduzida adesão, devido aos outros compromissos dos integrantes, o grupo acredita na vitória ou na conquista de um dos lugares cimeiros pelo comprometimento dos dançarinos ao executar o estilo de dança.
“A kazukuta é um legado que o Juventude do Kapalanga tem procurado preservar e divulgar, através da escola Joaquim Desliza, formada pelo responsável do grupo, tio Jeny, que aposta na formação dos jovens nos domínios da dança, música e teatro”, acrescenta.
Para a festa do dia 26, o grupo pretende levar 350 dançarinos. “Esse número pode ser ainda maior, em particular na falange de apoio, porque os ensaios têm, quase sempre, a participação de moradores do Luanda Sul, Quilómetro 38 e Catete”, refere. Embora o apoio financeiro da Aprocal esteja aquém das necessidades do grupo, as oficinas internas têm ajudado a suprir os problemas com a vestimenta, a bandeira ou a alegoria.
“Criámos um projecto inovador para os jovens do município, onde as artes representam a prioridade. Mesmo não tendo sede própria, usamos o que temos para ensinar diversos ofícios. Além destes programas, temos ainda uma meta que é levar a kazukuta a todo o país”, disse.
Francisco Filipe refere que o foco deste ano do grupo é a importância da educação para os jovens, com mensagens a incentivá-los a irem à escola, para terem uma base sólida com vista à construção do futuro país.

Kilamba Kiaxi

A “festa” segue em todos os municípios, com os grupos a ensaiarem com mais afinco. No Kilamba Kiaxi, o amor pelo Carnaval leva às ruas dançarinos e apreciadores. Mesmo com poucas condições, os ensaios prosseguem.
Todos localizados no bairro Golfe, Angola Independente, Unidos do Kilamba Kiaxi e Café de Angola criam condições para voltarem à classe A no próximo ano.
Com nomes já conhecidos da “festa”, como o Angola Independente, que já conquistou três edições do Carnaval, os três grupos levam o semba à pista da Marginal da Praia do Bispo e esperam, com a diversidade e beleza das suas coreografias, conseguir o troféu máximo e entrar para a galeria dos campeões.

 

 

Foliões capricham nos detalhes para cativar júri

 

Manuel Albano

A conquista do primeiro lugar na Classe B da 38.ª edição do Carnaval de Luanda, a 26 do corrente na Marginal da Praia do Bispo, é o objectivo do grupo União Domant, fundado há oito anos.
Regressar ao escalão máximo, onde esteve em 2015, é um desafio que tira o  sono  e envolve todos os integrantes da agremiação. O grupo que vai ainda na primeira geração espera ultrapassar o número de integrantes da edição anterior, disse ao Jornal de Angola a vocalista e responsável  do Domant, Nuna Paím.
A vocalista realçou que a criação de uma nova dinâmica artística, participativa e inclusiva entre a nova geração e a passada, sobretudo, na tentativa de resgatar e preservar os valores culturais e cívicos mais representativos da municipalidade é a grande aposta do União Domant.
Durante os anos de participação no Carnaval, desde que o projecto foi concebido a 26 de Março de 2009, o grupo entra para a competição na perspectiva de continuar a contribuir para a preservação, valorização e divulgação da cultura local.
Sem ser uma das grandes referências do Carnaval  da capital, como o União 54, Mundo da Ilha, Kazukuta do Sambizanga, o Domant pretende levar à Nova Marginal mais pessoas do que na edição passada, para dançar o Carnaval ao ritmo do Semba, que tem sido a marca do grupo.
O Domant propõe com o seu tema uma reflexão sobre a história de conquistas dos povos africanos, em geral, e em particular a realidade angolana. Com a canção “Contratado”, o grupo musicou o poema “Partida para o contrato”, do primeiro Presidente de Angola, Agostinho Neto, escrito em 1945. Pretende-se homenagear figuras históricas do país pelos seus feitos no quadro da resistência do povo angolano à ocupação colonial, referiu Nuna Paím.

Empresariado envolvido

A falta de um movimento cultural que congregue um maior número de pessoas em Cacuaco foi a principal motivação para o surgimento do União Domant, afirmou Nuna Paím, na altura a maior dinamizadora e organizadora de espectáculos para a juventude.
Foi durante a festa das Mamãs Quitandeiras, de edição anual, que ela apresentou a ideia às mulheres presentes. A ideia foi aceite e veio a consumar-se depois, num óbito em casa do empresário Domingo António “Domant”.
Embora a direcção e os patrocinadores perspectivem tornar o grupo numa das maiores referências da capital, Nuna Paím reconhece haver ainda um longo percurso pela frente. Apesar de todos os grupos viverem problemas financeiros, o Domant sobrevive com o apoio do empresário Domingos António e da Administração Municipal de Cacuaco e administrador Carlos Alberto Kavukila  também vai desfilar na Marginal.
O grupo  ensaia duas vezes por dia das 14h00 às 16h00 e das 19h00 às 21h00.
O Carnaval mexe com os foliões de Cacuaco, duas semanas antes do desfile dos grupos da Classe B (adultos), na Nova Marginal,  Nem mesmo as dificuldades vão impedir o Domant de aparecer no máximo da força para dançar e brincar ao Carnaval, garantiu Nuna Paím.
À medida que se aproxima o Entrudo, os ensaios intensificam-se, com os principais grupos a darem as afinações aos dançarinos. Segundo classificado da classe B alcançado na edição de 2012, quarto  na edição passada e Melhor Canção em 2014, subir para a “primeira  divisão" é o objectivo do União Domant.

Festa do povo

A vontade de inscrever o nome na galeria dos grupos titulados da Classe B de adultos motiva os integrantes do grupo União Imbondeiro do Cazenga, afirmou o comandante do grupo, Augusto Justino dos Santos.
Atento aos ensaios, Augusto Justino dos Santos insiste na disciplina para que nenhum pormenor escape. “Temos de dignificar o nosso município, por isso, é importante chamar sempre a atenção dos bailarinos, em particular das crianças, para maior concentração.”
Fundado a 14 de Maio de 2016, o grupo aborda no tema “O Lixo”um dos maiores problemas da municipalidade e de toda a capital.
Em coordenação com a Administração Municipal do Cazenga, o grupo esforça-se para conquistar um dos cinco melhores lugares do Entrudo. Um dos grandes desafios está em combinar dança e música.
Quem passa pelo Marco Histórico do Cazenga nas primeiras horas de sábado   apercebe-se da mascote do grupo, uma menina de dez anos  mascarada, que se move ao ritmo do Semba, sempre ao lado da corte.
Motivados pelo primeiro lugar da liguilha no ano passado, o que lhes permitiu desfilar no escalão B do Carnaval nesta edição, o União Imbondeiro do Cazenga  está confiante em fazer uma boa apresentação e conquistar o primeiro lugar do Carnaval de Luanda, que acontece no dia 26, na Marginal da Praia do Bispo.

 

Grupos da classe B de olho na subida

 

Mário Cohen |

Canção, indumentária, coreografia e alegoria são os verdadeiros instrumentos que os grupos carnavalescos preparam para disputar o desfile competitivo da classe B, dos adultos, na edição do Carnaval de Luanda de 2017. Os ensaios para a festa de Entrudo, a relizar-se na Nova Marginal da Praia do Bispo, estão já na recta final.
O grupo União Kwanza, do município de Belas, faz os últimos acertos antes de entrar na avenida para dançar o Carnaval, no estilo cabecinha, afirma o responsável da agremiação, Manuel Joaquim “Tio Adão”.
“Angola no Coração” é o título da canção escolhida para esta edição e a coreografia está esquematizada para apresentar ao júri e obter uma boa classificação para ascender à classe A. No domingo, o União Kwanza recebe o carro alegórico que deve ficar na sede até ao dia do desfile.
Adão Manuel é o comandante do grupo fundado a 30 de Novembro de 1969.  Ramiro Afonso é o rei e Paulina Cardoso a rainha. O União Kwanza esteve na classe A nas edições de 2000, 2002 e 2003, em que se classificou em quarto, terceiro e sexto lugares nos anos em que desfilou ao lado dos crónicos candidatos à vitória em Luanda, como o União Mundo da Ilha, o mais titulado da festa, com 12 conquistas, o União Kiela e o União 10 de Dezembro, do distrito da Maianga.
José Fernandes Machado, responsável do União Jovens do Mukwaxi, do distrito urbano da Maianga, diz que o grupo vai fazer o Carnaval mais difícil de sempre. “A nossa alegoria ainda não está feita por custar quatro milhões de kwanzas”, afirma. Garante que tudo se vai fazer para que até, no dia do desfile, esteja concluída.
Apesar das dificuldades, afirma haver uma luz que pode minimizar os problemas de financeiros. Revela que o administrador da Maianga reuniu no mês passado com empresários locais e exortou-os a prestar mais atenção aos grupos. O responsável recebeu a informação de que os empresários vão apoiar as agremiações para melhor representarem o distrito na presente edição do Entrudo.
O grupo respira de alívio por ter já prontas a corte e a coreografia, assim como a canção, intitulada “Lembrança do Ngola Ritmos”, por muitos considerado o conjunto musical mais importante do século XX, formado em 1947 por Liceu Vieira Dias, Domingos Van-Dúnem, Mário da Silva Araújo, Manuel dos Passos e Nino Ndongo, que, nas décadas de 50 e 60, incluiu nomes de Amadeu Amorim, José Maria, Euclides Fontes Pereira, José Cordeiro dos Santos, Lourdes Van-Dúm e Belita Palma.
Fundado a 2 de Fevereiro 1976, o União Jovens competiu na classe A nas edições de 2011 e 2013, pelo que pretende estar nos cinco melhores classificados da B para poder voltar no próximo ano.
Fundado a 8 de Fevereiro de 2000, o União Nova Geração Mar, do distrito da Samba tem como comandante Marcelino Neto, o rei é Joaquim Salomão e a rainha Ana Francisco. Este ano, o grupo centralizou os seus ensaios na melhoria da canção, coreografia, alegoria e corte para que, no próximo ano, possa dançar o Carnaval na classe A.

 

Amazonas preparado para o desfile

 

Roque Silva

O grupo Amazonas do Prenda tem a máquina   afinada para desfilar, na qualidade de homenageado da presente edição do Carnaval de Luanda.
O grupo do distrito urbano da Maianga prepara ao pormenor a à abertura da competição da classe A, no acto central que se realiza no dia 28, na Marginal da Praia do Bispo.
A agremiação tem muitas das condições criadas, entre as quais a corte, a coreografia, com dança no estilo semba, e a canção, que é da co-autoria de Zeca Bangão e Domingos Mendes “Mboloy”.
A música, com o título “Mu kwa Sanzala” (Nós todos do bairro), cantada em quimbundo por Zeca Bangão, é uma homenagem a trajectória do grupo cujo início foi marcado por dramas.
Os factos vividos nos primeiros anos, dos 30 de envolvimento no Carnaval, durante os quais eram vaiados pelos moradores da circunscrição quando se deslocavam aos desfiles, até àa fase actual, são transportados para a canção.
A ideia é mostrar às pessoas que os objectivos podem ser alcançados “desde que o trabalho seja feito com alma, determinação e persistência”.
As informações foram prestadas na quarta-feira, à ministra da Cultura, pelo secretário-geral do Amazonas do Prenda, na visita à sede da agremiação carnavalesca.
Carolina Cerqueira apelou à persistência   no intuito de o grupo  se manter viva a matriz da maior festa popular, apesar de reconhecer as dificuldades das agremiações carnavalescas.
A titular da pasta da Cultura, que se fez acompanhar da vice-governadora provincial de Luanda para a Área Política e Social, Juvelina Imperial, recebeu informações sobre as condições e o quotidiano do grupo. A caravana onde constavam membros da Comissão, Preparatória Provincial do Carnaval.
Os Cassules do Amazonas do Prenda fizeram uma demonstração do que têm preparado para o desfile.
Domingos Mendes “Mboloy”, secretário-geral do grupo, disse ao Jornal de Angola que a visita da titular da pasta da Cultura serve de incentivo para que o grupo faça o melhor.
A jornada de campo    da ministra Carolina Cerqueira, que teve inicio terça-feira, nos quartéis-generais do União Imbondeiro do Cazenga e União Recreativo Kilamba, do distrito urbano do Rangel, terminou ontem no município de Viana, com visitas aos grupos Unidos do Zango e União Njinga Mbandi, vencedor da última edição.
Criado em 1987, o União Amazonas é o homenageado do Carnaval de Luanda, motivo que o faz desfilar na qualidade de convidado. Dois anos depois foi o primeiro classificado do desfile livre de apuramento, no Largo do Kinaxixe, e no acto central, na Marginal 4 de Fevereiro.  Venceu o Carnaval de 1992 e por sete vezes o prémio da melhor canção, incluindo o das classes A e B.

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