Reportagem

Carne bovina é vendida fora dos circuitos normais

Sampaio Júnior | Benguela

Os habituais compradores de carne em matadouros clandestinos pagam menos, nestes locais, do que nos circuitos normais. Porém, desconhecem ou simplesmente não levam em conta o perigo que tal prática representa para a saúde, devido ao uso de diversos utensílios e ferramentas de madeira, no abate do gado e corte da carne.

Fotografia: Dombele Bernardo

Tais artefactos são importantes focos de multiplicação de vários microrganismos causadores de doenças para os humanos, segundo alertaram os serviços veterinários em Benguela.

“Os funcionários dos matadouros clandestinos usam, sobretudo, utensílios de madeira, como tábuas para suporte de corte de carne e martelos de amaciá-la. Pelas suas características, a madeira é um material de difícil higienização, porque é porosa e absorve muitos fluidos que escorrem dos animais mortos. Esta circunstância favorece a multiplicação de microrganismos”, explicou a chefe do Departamento de Veterinária da província, Elisabeth Conde.
Para a responsável, esses objectos tornam-se facilmente focos de contaminação, quando se consome a carne tratada desta forma rudimentar. Por este motivo, sugere que o abate dos animais e o corte da carne sejam feitos exclusivamente com recurso a utensílios de plástico ou de aço inoxidável. Estes instrumentos, garante, “além de serem mais resistentes ao tempo, são de fácil limpeza”.
Elisabeth Conde confirmou, entretanto, que existem na província muitos locais clandestinos, onde se efectua o abate de animais e o corte da carne em condições precárias. Destes matadouros ilegais saem, diariamente, toneladas de peças que são comercializadas no mercado informal. “ Esta prática representa um acentuado risco para a saúde pública e o perigo que advém do consumo de carne imprópria é um facto palpável”, concluiu.
A equipa de reportagem do Jornal de Angola penetrou nos meandros do lucrativo negócio da carne, no mercado paralelo e informal, com várias ramificações em Benguela e nas províncias vizinhas. Começamos por visitar alguns estabelecimentos de abate no bairro Casseque, em Benguela, e na localidade de Loungo, na Catumbela.
A falta de higiene é o principal cartão de apresentação das referidas unidades, num cenário complementado pelo forte mau cheiro, que causa ao visitante, menos avisado, enjoo instantâneo. Moscas e outros insectos transmissores de doenças pousam livremente sobre as peças de carne expostas ao ar livre.
Apesar do aspecto desolador, que deveria demover o comum cidadão de comprar a carne naquele local, verificamos que a falta de higiene não representa obstáculo para muitos compradores, que, na azáfama de regatear os preços, enchem os sacos com o produto exposto em péssimas condições, deixando claro que, em muitas mesas, em residências, restaurantes ou lanchonetes, a carne consumida passa por um processo que atenta contra a saúde dos consumidores.
Os matadouros ilegais do Casseque e do Luongo não são os únicos na província de Benguela. Proliferam outros locais clandestinos de abate e comercialização. "Estamos a trabalhar para detectar e desmantelar esta rede de malfeitores que põe em causa a saúde da população, abatendo animais doentes para a comercialização. Pensamos que é possível a descoberta dos mesmos, se houver um esforço desenvolvido por uma equipa multissecto-rial”, acrescentou a nossa interlocutora.
Para alcançar bons resultados, a responsável diz contar com apoio de todas as forças da sociedade "que possam contribuir, por via da denúncia, na localização dos locais cuja actividade põe em risco milhares vidas. Muita gente consome os nossos pratos tradicionais como o apetecido prato de peito alto com funje, bifes, febras de porco ou carne de cabrito no forno. Estas pessoas precisam de saber os riscos que correm ao comer a carne tratada desta forma”.
A reportagem do Jornal de Angola confirmou que a carne clandestina tem um circuito de comercialização próprio e aparentemente eficaz, que começa nos matadouros bem conhecidos pelos populares. Após abate dos animais, sem cumprimento das mais elementares normas sanitárias, o produto ilegal chega ao mercado onde normalmente a maiorias dos consumidores ignoram ou desvalorizam a sua procedência e adquirem a carne, assumindo todos riscos.
Vendida para consumo humano, nos mercados informais ou ao longo das estradas nacionais, esta carne não possui o mínimo de condições de salubridade exigida e pode provocar danos graves à saúde, segundo asseveram especialistas. O principal risco é o desenvolvimento de infecções gastro - intestinais graves, causadas por bactérias resistentes, que podem provocar a morte a quem consome os alimentos.
Outra preocupação é o facto da maioria dos animais abatidos nestes locais clandestinos, sem o controlo dos serviços veterinários, poderem estar doentes ou simplesmente envelhecidos. Algumas famílias de criadores, no meio rural, não têm cultura de comercialização do gado. Tradicionalmente, só o fazem no âmbito do cumprimento de rituais próprios ou quando o animal apresenta pouca vitalidade. “Quando eles se deparam com o gado envelhecido ou doente recorrem ao abate clandestino e vendem as peças para o consumo humano”, referiu a nossa interlocutora.
O Departamento Provincial de Veterinária tem especialistas distribuídos por todos os estabelecimentos legais de abate de carne. A responsável adiantou que em Benguela não existem matadouros adequados para o abate de animais para alimentação humana, existem sim unidades que facilitam o trabalho, com poucas condições. "Ainda não houve um investimento sério e moderno para a construção de um matadouro moderno e bem equipado”.
À guisa de solução, a médica veterinária refere que “precisamos de unidades apetrechadas com meios adequados que permitam uma gestão eficaz de abate e comercialização de bovinos, caprinos e suínos. É importante que estes locais cumpram as regras de higiene, como a lavagem dos utensílios após o serviço, entre outras”.
A transportação de carne de forma totalmente inadequada é outro problema recorrente. “As toneladas de carne são transportadas em veículos pequenos, para não chamar a atenção dos fiscais. Deste modo, o produto circula sem qualquer tipo de refrigeração. Peças inteiras são trazidas na carroçaria de camionetas. A temperatura ambiente acelera muito o processo da sua deterioração”, revelou Elisabeth Conde, esclarecendo ainda que “as bactérias geralmente presentes em carnes de animais doentes ou em peças de carne já putrefactas podem penetrar no intestino e causar doenças muito graves aos seres humanos. Crianças e idosos são os mais vulneráveis a desenvolver formas graves de infecções causadas pelo consumo de carne estragada”.

Intervenção do Inadec

Segundo apurou o Jornal de Angola, a venda e consumo de carne de origem bovina, suína e caprina constitui uma parte importante da agenda dos serviços de inspecção do Comércio, INADEC e Polícia Nacional. No entanto, torna-se evidente que o assunto deve também merecer a atenção e o envolvimento efectivo de cada cidadão, já que o produto acaba por ir parar à mesa das famílias.
A médica veterinária refutou os comentários de alguns cidadãos que culpabilizam os serviços sob sua tutela por, alegadamente, não trabalhar no terreno. “Isso não é verdade. Muito recentemente apreendemos no município do Cubal grandes quantidades de carne seca, numa acção conjunta com os Serviços de Investigação Criminal. O produto destinava-se à comercialização nos mercados de Benguela e de Luanda. Dessa operação resultou a detenção dos presumíveis autores e a carne foi incinerada. Porém, muitos outros casos têm acontecido e culminam nas barras dos tribunais”, salientou Elisabeth Conde.
De acordo com as normas existentes, todos locais de abate são fiscalizados por veterinários, que verificam o estado de saúde dos animais para evitar que carne contaminada seja vendida aos consumidores. Sem esse controle os riscos para o comprador dos produtos multiplicam-se. Segundo alerta da entidade ligada à saúde animal, os consumidores devem sempre observar se os produtos têm o selo dos serviços veterinários. Além disso, é preciso verificar também as condições de higiene dos estabelecimentos. Quem vende deve apresentar-se com uniforme limpo, de preferência uma bata branca. Para vender produtos de origem animal, o comerciante precisa de ter um selo do Serviço de Inspecção de Veterinária e esse registo passa a ser o atestado de qualidade do produto. “Este carimbo é um mecanismo que permite aferir que o animal está óptimo para o consumo humano” reiterou a responsável do Departamento Provincial de Veterinária.

Vacinas fora de época no Chongoroi

A nossa reportagem deslocou-se igualmente ao município do Chongoroi, que dista cerca de 150 quilómetros da capital da província. Abordado sobre o circuito de comercialização de gado por vias clandestinas, no seu município, o regedor local, Feliciano Kaqueya, revelou que o gado aí existente não é vacinado há dois anos, facto que está na origem da redução considerável do efectivo bovino na circunscrição, pois os animais ficam expostos à várias doenças.
O administrador fez também alusão à relutância dos criadores tradicionais em aceitar a vacinação dos animais, fora da época em que normalmente a mesma se processava no tempo colonial, sob pretexto de que o gado morre após ser vacinado. “Os criadores levam os seus animais para zonas distantes, para evitarem esse tratamento fora de época. A campanha de vacinação começa em Abril, uma data muito diferente da que estávamos habituados na era colonial e o que registamos é que o gado morre depois de medicado”, alertou a autoridade tradicional.
Esta controvérsia sobre a época ideal tornou-se a principal razão pela qual o gado não é vacinado no município. “Temos apenas um técnico veterinário, o que não é suficiente para garantir a vacinação de todos os animais”, acrescentou o regedor, que considera o município do Chongoroi uma verdadeira potência na criação de gado, numa região que se estende até às províncias da Huíla e do Namibe.

Vacinas para a campanha de 2019

Entretanto, a médica veterinária Elisabeth Conde garantiu ao Jornal de Angola que existem vacinas suficientes, em Benguela, para realizar a campanha de 2019, ao contrário do ano anterior. Em 2018, muitos fármacos para a vacinação expiraram o prazo, por razões que a nossa interlocutora não especificou.
Confrontada com as denúncias do regedor do Chongoroi, Elisabeth Conde garantiu que “os Serviços de Veterinária têm o cuidado e a paciência de explicar aos criadores tradicionais que só vacinando os animais estes serão mais saudáveis e poderão reproduzir-se mais”.
Reconheceu, no entanto, que foi por causa do que considerou um “mito” sem valor cientifico, que a campanha de 2018 na província de Benguela foi um fracasso. “Não atingimos os objectivos preconizados. A previsão era de imunizar, pelo menos, metade das 150 mil cabeças de gado bovino existentes em toda a província. Simplesmente as pessoas no interior não levaram os seus animais para os locais estabelecidos para o tratamento”.
A técnica deu a conhecer que, no quadro do programa de vacinação, existe uma pré-campanha de sensibilização aos pequenos e médios criadores de gado, em toda a extensão da província. “Só depois de todas as condições criadas é que colocamos o pessoal técnico no terreno, para dar início a vacinação.
Este programa conta com a colaboração das administrações municipais no intuito de rever os equipamentos que permitirão levar avante a vacinação a 15 de Abril próximo. “Passamos a data da campanha de vacinação para o mês de Abril, porque neste período regista-se o abrandamento das chuvas, o que facilita a deslocação dos meios e técnicos para aldeias previamente identificadas e que servirão de referência. A nossa missão será não deixar nenhum animal fora do tratamento médico e medicamentoso, pois esta responsabilidade é nossa, enquanto especialistas”, salientou.

Roubo de gado na província

Os criadores estão preocupados com a acção criminosa de malfeitores que se dedicam ao roubo e furto de gado. O regedor do Chongoroi, Feliciano Kaqueya, desconfia que alguns dos meliantes são familiares ou gente conhecida dos criadores.
A autoridade tradicional refere que a actividade é estimulada pela abertura de venda de carne fresca, proveniente dos matadouros clandestinos. Na sua opinião, os roubos constantes de gado deixam a sensação de alguma fragilidade das autoridades ligadas ao assunto.
“Perante as repetidas queixas da população em todos os municípios, a Polícia Nacional devia pôr cobro a esta situação e reverter o cenário, porque Benguela não deve estar com indicadores de campeão no roubo de gado?, lamentou o regedor.
O criador do município do Caimbambo Jorge Muquache disse à nossa reportagem que quase todos os dias sofre a acção dos malfeitores e acusa as autoridades policiais e da Veterinária de não estarem a fazer o suficiente para estancar a situação, pois os ladrões transportam tranquilamente a carne em viaturas e passam pelos postos de controlo da Polícia sem qualquer documento.
“O roubo de gado é estimulado pelo mercado informal, porque os ladrões vendem a carne para os talhos sem nenhum documento. Isso é também um risco para a saúde pública, porque alguns animais podem estar doentes, mas como não passam pela fiscalização veterinária chegam ao consumidor a preços baixos, o que nos prejudica bastante”, lamentou.
O criador acrescentou que, nos municípios de Chongoroi, Caimbambo e em várias aldeias, acontecem casos de roubo de gado com muita frequência. Os malfeitores abatem, transportam e vendem tranquilamente a carne em Benguela, além de transportar vários lotes directamente para os mercados de Luanda.

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