Reportagem

Carvão ecológico em Cabinda

Joaquim Suami | Buco-Zau

A província de Cabinda conta com a primeira fábrica industrial nacional, que vai produzir anualmente 204 mil quilogramas de carvão ecológico bruto e de briquetes, que surge no quadro do Plano Nacional de Desenvolvimento, 2013-2017, enquadrado no programa de diversificação da economia implementado pelo Executivo.

O empreendimento vai garantir vários benefícios à economia angolana
Fotografia: Rafael Tati | Edições Novembro

A fábrica de carvão ecológico, que está localizada numa área de 2.500 metros quadrados, na zona industrial do Caio, no município do Buco-Zau, 180 quilómetros a Norte da cidade de Cabinda, possui duas naves de 700 metros, a de armazém e de produção, que vai produzir diariamente 800 quilogramas de carvão e 17 mil por mês.
A nova indústria, a única no país, possui duas linhas de produção, a primeira é de serragem e corte dos desperdícios da madeira em forma de cubo e a segunda é de transformação dos desperdícios em carvão ecológico bruto e de briquetes.
Além da produção do carvão ecológico, a nova fábrica vai, também, transformar os desperdícios da madeira para produzir a resina que é utilizada na indústria farmacêutica, cosméticos e de beleza.  O empreendimento possui equipamentos de ponta que vão garantir o funcionamento do processamento da transformação dos desperdícios da madeira em carvão ecológico, como máquinas de serragem, machados eléctricos e linhas de processamento.    
O presidente executivo da fábrica de carvão ecológico, Humberto Amorim, que não avançou o valor global do investimento do empreendimento e das possíveis receitas a arrecadar durante o exercício económico, disse que o valor do investimento está avaliado em milhões de dólares e as receitas a arrecadar vão cobrir as despesas de produção e de manutenção dos equipamentos.
“Esta indústria de carvão ecológico, que visa transformar os desperdícios da madeira em carvão ecológico bruto e de briquetes, numa primeira fase, a produção vai ser vendida no mercado local e, no futuro, o carvão será exportado para a captação de divisas”, disse, acrescentando que os benefícios com a construção da fábrica são enormes, principalmente para a juventude do município do Buco-Zau, que numa primeira fase beneficiou de 20 vagas.
“Hoje, estão empregados 20 jovens e vamos aumentar mais 10 para se fazer um total de 30 funcionários. Estamos apostados em ajudar o Executivo na diversificação da economia com o surgimento de mais fábricas no país, com vista a sairmos da crise. Os empresários angolanos devem trabalhar afincadamente para investirem em vários sectores para que o país seja industrializado para o bem-estar social das populações”, disse.  
Situação ambiental salvaguardada O director provincial do Instituto de Desenvolvimento Florestal, António Paulo, disse que a situação ambiental, durante o processo de transformação da madeira em carvão ecológico, está salvaguardada, pelo facto de se aproveitar os desperdícios da madeira em toro, da serrada, da serradura, do capim e da fuba de bombó para se evitar enormes quantidades de fumo.
O ambientalista avançou que o produto não vai causar danos ambientais durante o processo de fabrico, pelo facto de o carvão ecológico ser extraído de uma resina que possui células cancerisnas, que evita doenças na fase do consumo do carvão por parte dos clientes.
“Em termos ambientais, está tudo salvaguardado, porque, durante o processo de produção do carvão ecológico, extrai-se uma resina em células cancerisnas ricas em protecção para saúde humana, o que torna o carvão activado. É uma mais-valia e a sua vantagem é que este produto é exportável, porque vem do aproveitamento dos desperdícios da exploração da madeira e evita problemas ambientais, criação de pragas e enfermidades durante a decomposição e é saudável para o consumo humano”, esclareceu.
  
Crescimento económico
 
A governadora Aldina Matilde Barros da Lomba Catembo, que inaugurou a nova unidade fabril, disse que, o governo provincial está satisfeito com o surgimento da fábrica de produção de carvão ecológico, porque “vem responder o Plano Nacional de Desenvolvimento, 2013-2017, que visa o relançamento da indústria para o desenvolvimento e crescimento da economia do país.”
A governante referiu que, um dos objectivos principais que constam no Plano Nacional de Desenvolvimento é o aproveitamento dos vários recursos que a província de Cabinda possui para o desenvolvimento local e do país, no quadro do programa de diversificação da economia nacional.
“Estamos bastante satisfeitos com a inauguração desta fábrica de produção de carvão ecológico, porque vem responder o Plano Nacional de Desenvolvimento, que tem um dos seus principais programas o aproveitamento da transformação da madeira em outros recursos para o bem da economia nacional. A iniciativa desta fábrica em transformar os desperdícios da madeira em carvão é louvável e encorajamos os empresários a fazerem investimentos no município do Buco-Zau para o desenvolvimento e crescimento local”, disse.
A governadora de Cabinda aconselhou os proprietários da fábrica a expandirem a comercialização do seu produto no mercado nacional, regional e para os países vizinhos.
“Aconselhamos os proprietários desta fábrica a não limitarem a comercializar o seu produto no mercado local, deve publicitar o negócio para o mercado nacional e para os países da região, porque a província de Cabinda, no Plano de Desenvolvimento, está para ser transformada na base logística do Baixo Congo, aproveitando toda a fileira da madeira”, referiu.

Jovens satisfeitos

 
A fábrica de carvão ecológico empregou numa primeira fase da sua produção 20 jovens com idades compreendidas entre os 24 e os 47 anos. O número vai aumentar para 30 até no final do primeiro semestre do ano. Os primeiros jovens que encontraram emprego na fábrica de carvão vão trabalhar nas áreas de cozinha, segurança, armazém, serragem, corte e no processamento das linhas de produção. 
O jovem Manuel Vumbi, 42 anos, colocado na área de segurança, disse, à reportagem do Jornal de Angola, que está satisfeito por ter conseguido o seu primeiro emprego na fábrica de carvão ecológico. Antes de conseguir o emprego, referiu, a vida estava difícil para sustentar a família. Com o novo emprego, vai poder garantir o sustento dos seus familiares.
“Este trabalho vai ajudar a família, porque, acredito, vou conseguir    pagar os estudos dos filhos, garantir a saúde e a dieta alimentar e, quem sabe, pedir crédito”, disse.
Maurício Mataba, 27 anos, estudante, colocado na área de serralharia, disse que conseguiu o emprego devido ao seu esforço pessoal e que tudo vai fazer para agradar os proprietários da fábrica. “Hoje em dia, não é fácil conseguir emprego. Graças a Deus, consegui o primeiro emprego e tudo vou fazer para agradar os responsáveis da empresa. Tenho família e vou trabalhar para sustentar os filhos, a mulher e os meus pais.”
Por sua vez, o jovem Fernando Buduvudu, 25 anos, colocado na área de produção, precisou que vai colocar em prática os conhecimentos adquiridos no que diz respeito à transformação dos desperdícios da madeira em carvão. “Gostei do trabalho, com dificuldades ou sem dificuldades, vamos trabalhar, porque o objectivo é termos emprego para termos dignidade perante a sociedade”, reconheceu.

Benefício à população


O administrador municipal do Buco-Zau, José Macaia, disse, à reportagem do Jornal de Angola, que a nova fábrica de carvão ecológico vai garantir vários benefícios para a economia local e aos munícipes, os principais beneficiários da infra-estrutura produtiva.José Macaia frisou que a fábrica, além de transformar os desperdícios da madeira em carvão, vai produzir igualmente feijão, arroz e batata, numa parceria com empresas chineses, o que vai  garantir mais postos de trabalho, no seio da juventude do município do Buco-Zau.
 “Esta fábrica vai trazer vários benefícios para o município e a província, em geral, como a diminuição do desemprego no seio da juventude. Temos vindo a apelar os empresários nacionais e estrangeiros para investirem na região. Além do surgimento desta fábrica, temos no município do Buco-Zau várias localidades turísticas que precisam de ser exploradas, porque o turismo traz riqueza para o país”, precisou.
No sector económico, apontou, existem no município do Buco-Zau várias empresas que exploram a madeira e os minerais, o que impulsiona o desenvolvimento económico e social da região. Afirmou que a exploração da madeira, feita pelas empresas que actuam na floresta do Maiombe, é destinada aos mercados nacional e externo e que as mesmas têm contribuído para a diminuição do desemprego no seio da população, principalmente de jovens.
No que diz respeito ao sector comercial, nota-se um crescimento salutar, em relação ao passado. “Neste sector, temos notado um crescimento salutar. No passado, o município não tinha um sítio para turistas se hospedarem e tomarem uma refeição. Hoje, temos hotéis e pensões condignos que estão em condições para alojar turistas nacionais e estrangeiros, por isso, estamos a crescer paulatinamente”, disse, sublinhando que, no sector social, se nota um crescimento acentuado, em temos infra-estruturas da Saúde e da Educação”, disse.
José Macaia avançou que, no passado, o município do Buco-Zau tinha 12 escolas, hoje, a localidade conta com 64.
“Até 1992, não tínhamos ensino médio e hoje temos escolas a leccionarem o ensino médio e superior no município. No sector da Saúde, o município tinha apenas técnicos básicos, hoje, conta com enfermeiros e médicos nacionais e estrangeiros. Na Educação, o município tinha capacidade para matricular 400 alunos, hoje, com o elevado número de escolas, mais de 11 mil alunos estão matriculados em vários níveis de ensino”, reconheceu. O município que dirige possui excelentes condições para o alojamento dos professores e médicos nas três comunas, nomeadamente Nhunca, Necuto e Buco-Zau. Frisou que a administração está a trabalhar na melhoria de abertura das vias terciárias para melhor circulação de pessoas e bens.

Produção de café na forja


Durante a campanha agrícola de comercialização do café, no período 2015-2016, a Brigada Técnica do Café do município do Buco-Zau registou a cifra de colheita de 40 toneladas dos agricultores locais, que vão ser vendidas numa empresa privada com capacidade de comercialização do produto, em Luanda e em outros pontos do país. O sector do café em Cabinda controla um total de 81 cafeicultores que estão a trabalhar na recuperação dos campos de café para o relançamento da actividade desta cultura na região. Para garantir a comercialização do café, a Brigada Técnica do Café possui uma máquina com a capacidade para descascar 600 quilogramas de café cereja, mabuba e comercial diariamente.
 A maior dificuldade da Brigada Técnica tem a ver com a falta de técnicos, meios de apoios e a falta de crédito para os agricultores do ramo avançarem com a sua actividade sem sobressaltos.
 A par do café, o Governo Provincial de Cabinda e o Ministério da Agricultura estão a trabalhar num projecto de relançamento da produção do cacau, cujo objectivo é recolocar esta região do país como centro de exportação do cacau.
Para incentivar o relançamento da prática do cultivo do cacau no seio dos agricultores locais, o departamento provincial do Café criou viveiros de cacau no município do Buco-Zau, com capacidade de 300 mil plantações, que vão ser entregues na próxima abertura da campanha agrícola que inicia entre Junho e Julho do ano em curso. Cinquenta e quatro mil bolsas em viveiro estão com sementes das quais 28 mil contêm plantas de cacau, pronto para plantação.      
O chefe do departamento provincial do Café, Alector de Araújo, disse que, com a iniciativa do Governo Provincial de relançar as produções de cacau, vários grupos empresariais da província de Cabinda estão interessados em investir nesta cultura numa área de 400 mil hectares. 

Governo promete apoios


Para a governadora de Cabinda, a recuperação da cultura do café, cacau e do palmar é uma das apostas do governo provincial, enquadradas no Plano Nacional de Desenvolvimento 2013-2017.  O governo provincial vai apostar seriamente na recuperação das culturas, que no passado contribuíram para a economia local e nacional.  “Estamos a trabalhar, agora, na recuperação das culturas que já contribuíram na economia da província e do país. Estamos a trabalhar com o Ministério da Agricultura para o desenvolvimento do sector na região com o apoio do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), com o projecto denominado ‘agricultura integrada’, do qual vamos dar prioridade à agricultura familiar. A nossa ideia é o Instituto Nacional do Café, que também responde pelo cacau e palmar, fazer a reprodução de sementes e as mudas para serem fornecidas às famílias camponesas”, disse.
O sector privado, também, é chamado para contribuir para o desenvolvimento do sector agrícola em Cabinda. Ressaltou que, com os incentivos da reabilitação dos créditos do Fundo de Investimento de Cabinda (FICA), do BAI e dos outros bancos, vão encorajar o sector privado a participar no desenvolvimento económico da região.

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