Reportagem

Cazenga vira polo de empreendedorismo

Natacha Roberto|

O ruído de máquinas a funcionar chama logo atenção à entrada de um centro de inovação instalado na antiga Fábrica de Sabão no município do Cazenga.

Em todas as áreas de produção na fábrica, o material usado é transformado em mobiliário, vestuário e outros utensílios para decoração
Fotografia: Dombele Bernardo|Edições Novembro

 O espaço de 33 mil metros quadrados que no passado servia para produzir sabão nacional, hoje serve para tornar realidade sonhos dos jovens da comunidade. Manuela Ganga, directora da fábrica adianta que o espaço foi construído para garantir aos jovens condições para realizar os seus sonhos.
Pelo interior da fábrica, onde o ruído de máquinas dá lugar ao silêncio, a inovação constitui palavra de ordem para todas as áreas de produção artística e de material para o sector mobiliário. Frases inspiradoras patentes pelos corredores da fábrica ganham força na mente dos jovens. “A inovação é o que distingue um líder, de um seguidor”, a frase, estampada em uma das paredes de entrada da fábrica ilustra à partida o objectivo do centro. A directora garante que através de uma frase, a vida de um ser pode mudar em apenas um instante. “Decidimos estampar dezenas de frases sobre empreededorismo para motivar os jovens a empreender”, disse.
O projecto promove a inclusão sócio-económica e o crescimento em todos os níveis da sociedade. O espaço compreende inúmeras unidades contentorizadas transformadas em escritórios equipados, espaços de trabalho, salas de reunião, empresas e “startups”.
A Quantum Global é uma empresa instalada num contentor equupado para desenvolver um estudo sobre o número existente de empresas na comunidade do Cazenga.
O supervisor de pesquisas, João Dala, informou que o estudo incide num inquérito a 300 famílias para saber o número existente de investidores que actuam no mercado informal e formal no município. Com o apoio do centro de inovação, a pequena empresa de pesquisa quer garantir ao município melhor integração dos investidores na classe empresarial conhecida no mercado angolano e torná-los empreendedores bem esclarecidos sobre a Lei de Investimento Privado. “Queremos com a pesquisa avaliar o grau de insuficiência de conhecimento sobre o empreendedorismo e apoiar com formação profissional aqui no centro”, acrescentou.
Empresa Angolana de desenvolvimento de Projectos é também uma micro-empresa que reúne muitos jovens num pequeno espaço contentorizado nas instalações da fábrica. No espaço criado para criar dispositivos electrónicos, os jovens desenvolvem um sistema magnético para abrir e fechar a porta de forma automática. Com apenas um acessório fixado as chaves, quando exibido a um dispositivo fixado a porta ela abre de forma automática. A técnica de electrónica, Sebastiana Miguel desenvolve em conjunto com os colegas, um sistema para apagar as lâmpadas com apenas um telemóvel. “Temos vários projectos em cursos dos quais a criação de uma série de animação que conta a história de Angola”, adiantou.
A micro empresa desenvolve ainda páginas de internet para empresas interessadas. A fábrica de Sabão é um espaço de trabalho compartilhado, considerado um MakerSpace que promove o intercâmbio cultural, com atracções de artistas, exposições e programas de visitas para os estudantes e visitantes.
Em breve, vai abrir uma estação comunitária denominada “rádio sabão”onde os jovens munícipes vão adquirir na prática as técnicas do jornalismo radiofónico. Idealizada por Jean-Claude de Morais Bastos, a fábrica de sabão é fruto de uma parceria público-privada. O Ministério  da Indústria, a empresa Kijinga e o Fundo Soberano garantiram a criação do centro de inovação, com o intuito de apoiar a comunidade do Cazenga.

Crédito apoia


Há clara intenção de apoiar os jovens empreendedores com linhas de crédito que visam elevar a classe empresarial. O Executivo tem garantido linhas de créditos para financiar projectos aos jovens empreendedores. Existe um Projecto de Decreto Presidencial que aprova o Regulamento da Linha de Crédito de Apoio ao Empreendedor Jovem (Projovem), que será assegurado pelo Banco de Desenvolvimento Angola (BDA). BDA indicar o banco operador em que os mesmos (projectos) serão canalizados para sua execução. O programa visa cumprir com algumas das solicitações feitas pela juventude durante o Fórum Nacional de Auscultação dos Jovens, realizado em 2013, no quadro do Plano Nacional de Desenvolvimento.
A intenção visa também criar um mecanismo para que os jovens possam dedicar-se ao empreendedorismo, no âmbito de um novo processo de educação da juventude, com vista a pôr em marcha o espírito criativo. Todos os investimentos do FACRA (Fundo Activo de Capital de Risco Angolano) seguem um conjunto de directrizes, que asseguram que o capital do Estado está a ser aplicado de forma correcta para estimular o crescimento da economia nacional. No espaço de inovação, o FACRA atende aos pedidos dos empreendedores com garantias de financiamento há um ano. O técnico do Fundo, Anderson dos Santos, informou que as candidaturas têm sido orientadas pela organização para que os projectos sejam viáveis e tenham acesso ao crédito de imediato. 
Outras directrizes incluem o investimento em negócios que ajudem a diversificar a economia fora do sector dos recursos minerais, que gerem empregos e promovam a substituição de importações e a qualidade dos produtos e serviços oferecidos pelas empresas nacionais.
O princípio orientador do fundo consiste em investir em micro, pequenas e médias empresas (MPMEs) que tenham potencial para retornos financeiros altos, a longo prazo, e que possam desempenhar um papel essencial no crescimento do sector das MPMEs nacionais. O FACRA se associa a Fábrica de Sabão por terem objectivos comuns. A organização busca oportunidades de investimento com empreendedores e parceiros de negócios com ideias inovadores.
“Apoiar a inovação é central para os objectivos do FACRA, e como tal, existe uma clara intenção de trabalhar com pequenas e médias empresas capazes de apoiar novas tecnologias, produtos ou serviços inovadores”, disse o técnico.

Mosaicos de plásticos


No Cazenga existem várias fábricas abandonadas, daí o surgimento do centro de inovação que em pouco menos de um ano de actividade retirou centenas de jovens da delinquência. O centro apoia de forma incondicional jovens da comunidade a superar as suas capacidades, criando artigos com a reutilização de vários tipos de material.
Pereira Gunza reside no bairro do Cazenga na zona junto a fábrica da cerveja Nocal. Foi integrado no centro para criar mosaicos com a reciclagem de garrafas de plástico. O jovem na faixa dos 20 anos começou como pedreiro. Hoje, lidera uma equipa formada por quatro pessoas, na pequena unidade fabril de criação de mosaicos com a reciclagem do saco plástico. Com dedicação o jovem responsável pela área realiza de forma periódica a recolha de garrafas de plástico para transformá-las em mosaico. Os plásticos quando chegam no espaço são logo triturados e depois transferidos para um forno onde derrete durante trinta minutos. Depois do processo realizado, o plástico deitado sobre uma mesa, em temperatura ambiente ganha forma e cor com o uso de um material para medições de mosaico. O centro que garante vários espaços para empreender possui ainda um bar de sumos, onde homens e mulheres aprendem a confeccionar sumos a base de fruta natural. Está previsto para os próximos meses a construção de áreas desportivas, parque infantil e residências. A responsável do centro garante ser satisfatório o facto de o centro de inovação e empreendedorismo surgir num período de dificuldades da economia angolana. “Apesar das dificuldades acreditamos que o empreendedor só precisa apostar na criatividade”, disse, acrescentando estarem focados em gerar oportunidades iguais para empreendedores do mercado formal e informal, com a promoção de cultura de empresas inovadoras.
Localizado na comuna do Hoji ya Henda, município do Cazenga, o projecto foi idealizado porJean-Claude de Morais Bastos, fruto de uma parceria  público-privada entre o  Ministério  da Indústria, a empresa Kijinga e o Fundo soberano.

Reciclar transforma


A fábrica criou o conceito de “ajuda mútua”. Os jovens da comunidade com alguma carência financeira frequentam aos cursos promovidos e participam das actividades desportivas, contribuindo com a entrega periódica de um saquinho com 10 a 15 latas de plástico ou de metal, que serve como material para reciclar e transformar em objectos de uso. O material reciclável pode vir do lixo, como madeiras, pneumáticos, garrafas de plástico e latas em alumínio. Em contentores transformados em salas de aulas, os jovens da comunidade do Cazenga adquirem noções básicas de contabilidade, legislação do comércio e assuntos que ajudam o empreendedor a ser mais confiante na sua actividade. Muitas famílias com algum recurso financeiro pagam uma taxa de 500 e 1.000 kwanzas por actividade.
Em todas as áreas de produção na fábrica, o material usado é transformado em mobiliário (mesas e cadeiras), vestuário e outros utensílios para decoração do lar e conjunto de louça em barro. Reciclar é base fundamental para a produção no espaço de inovação. O objectivo é criar uma cultura colaborativa onde as ideias e os conhecimentos se transformem em oportunidades de negócios sustentáveis. Actividades culturais, visitas guiadas são realizadas todos os dias da semana. Está em construção, segundo a directora, o campo desportivo e parque infantil.
 
Artistas emergentes


A fábrica valoriza novos artistas da comunidade. Manuela Ganga informou que artistas angolanos emergentes, tem a oportunidade de apresentar os seus trabalhados em concertos realizados na fábrica. A direcção tem promovido maior interacção entre novos e antigos artistas num palco montado no centro da fábrica.    
Aos sábados dão realizados concertos e apresentações teatrais pela comunidade. Um auditório tem servido para as exibições de documentários e filmes. A fábrica gerou 45 empregos fixos nas áreas de apoio a limpeza, segurança, secretariado, assistência, entre outros.

Feiras dão emprego

As feiras do auto-emprego que têm sido promovidas por organizações de apoio ao empreendedorismo tem observado uma adesão de milhares de jovens, o que demonstra um claro interesse que a juventude tem em constituir novas empresas e agarrar as oportunidades de negócios que surgem cada vez mais em todo o país.
O Instituto Nacional de Apoio às Micro, Pequenas e Médias Empresas (INAPEM) tem participado em todas as feiras do empreendedor para apoiar projectos dos jovens, desde que delineados e definidos o sector de actuação. O INAPEM presta apoio ao empresariado nacional na vertente da formação, certificação, consultoria e suporte ao empreededorismo. Em entrevista ao Jornal de Angola, o administrador do Instituto Nacional de Apoio às Micro, Pequenas e Médias Empresas (Inapem), Samora Kitumba, afirmou que os jovens querem ser empreendedores mas tem dificuldades em realizar um estudo de viabilidade dos seus projectos. “Não basta pensar na vertente financeira sem passar por uma formação sólida sobre como iniciar e administrar o seu negócio”, esclareceu.
O administrador defende ser necessário certificar as empresas para terem acesso aos incentivos financeiros que o Estado coloca à disposição do empresariado nacional.

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