Reportagem

Cemitérios clandestinos encerrados em Menongue

Carlos Paulino

A Administração Municipal de Menongue, província do Cuando Cubango, encerrou os  cemitérios clandestinos em toda a extensão do município, devido ao aumento de funerais nestes locais sem condições e que colocam em perigo a saúde da população. 

Cemitério municipal está preparado para funerais condignos
Fotografia: Edições Novembro

Esta decisão foi tomada devido à existência  de muitos campos santos que emergiram sem o conhecimento do Governo Provincial, em quase todos os bairros da cidade de Menongue, em detrimento do cemitério municipal completamente modernizado,  garantiu Fernando Cassanga, administrador municipal do município.  
Entre os cemitérios ilegais identificados constam os dos bairros Sakampoko, Mupambala, São José, São Paulo, Tucuve, Missão Católica, Castilho e Lumeta, nos arredores da cidade de Menongue, onde a população de forma persistente sepulta  os seus entes queridos.
O cemitério do bairro Sakampoko, a 12 quilómetros do centro da cidade, vai mudar de lugar, em virtude de o rio Cambumbe, onde a população realiza todas as suas actividades domésticas (banhar, lavar e acarretar água para beber)   se encontrar mais abaixo do campo santo, o que tem sido motivo de preocupação dos sobas.
Por este facto não há razões que motivem a população a procurar locais impróprios para enterrar os seus familiares, porque o Governo Provincial construiu em 2014 um cemitério municipal moderno onde qualquer cidadão, incluindo os de baixo rendimento, está em condições de fazer o enterro do seus entes querido, uma vez que para sepultar o corpo de uma criança paga-se apenas mil kwanzas e o de adulto dois mil kwanzas.
 Esta infra-estrutura, cujas obras custaram aos cofres do Estado 452 milhões de kwanzas, de acordo com Fernando Cassanga, tem capacidade para 7.820 campas e conta com uma capela para a realização de missas de corpo presente, três salas para velórios, área para serviços gerais e uma loja para venda de flores. 
Os funerais em locais impróprios, para além serem uma falta de amor e de respeito aos nossos entes queridos, constituem um crime porque muitos destes lugares são reservas fundiárias, onde a Administração Municipal pretende construir  infra-estruturas sociais, com realce para escolas, unidades sanitárias e habitações.    
A realização de enterros em cemitérios clandestinos ou em locais impróprios constitui igualmente um  atentado à saúde pública e  pode provocar doenças, com destaque para as doenças respiratórias e diarreicas agudas.
A Administração Municipal de Menongue está já a trabalhar com as autoridades tradicionais e policiais para sensibilizar as pessoas a não fazerem enterros em locais impróprios. “Se a população assim agir vai dificultar a acção das autoridades no controlo da taxa de mortalidade. Depois de um trabalho de sensibilização, caso surjam mais cemitérios clandestinos, há necessidade de tomar medidas duras para penalizar  as pessoas que forem apanhadas a sepultar um ente querido em local não autorizado”, avisou Fernando Cassanga.
 
Regedor preocupado

O regedor do bairro Sakampoko, Paulo Ndala Mabaia, manifestou-se  preocupado com esta situação, pois a sua área de jurisdição, que dista 12 quilómetros da cidade de Menongue, é o local que mais funerais recebe incluindo corpos de cidadãos estrangeiros, sem qualquer autorização, seja das autoridades tradicionais ou da Administração Municipal.
Entre os Nganguela cada família tinha um local para sepultar o seu ente querido próximo da sua residência, mas hoje não se entende o porquê de as pessoas que morrem na cidade serem sepultadas no seu bairro, quando existe um cemitério municipal.
“Não queremos a partir de agora que as pessoas saiam  da cidade e venham aqui enterrar os seus familiares, porque este cemitério do Sakampoko, que existe há mais de 40 anos, é um local que escolhemos para sepultar quem vive neste bairro, devido à distância até ao cemitério municipal pois não temos viaturas para o efeito”, disse Paulo Ndala Mabaia.
Outra situação que preocupa o regedor Paulo Ndala Mabaia, é o facto de haver uma grande falta de respeito das pessoas que saem da cidade e vandalizam os cemitérios atirando garrafas e latas de bebidas alcoólicas nas campas. />“Hoje as pessoas, sobretudo os jovens que vivem nas cidades, já não têm sequer respeito pelos mortos, uma vez que pisam e bebem por cima das campas nos cemitérios como se estivessem numa festa”, lamentou o regedor.

Água contaminada 
 Fernando Cassanga  esclareceu que a notícia veiculada pelos órgãos  de Comunicação Social, segundo a qual a população do bairro Sakampoko está a consumir água contaminada com os restos mortais humanos, não corresponde à verdade.
 O cemitério do bairro Sakampoko, apesar de estar numa elevação,  a cerca de um quilómetro do rio Cambumbe, onde a população tira a água para beber e toma banho e “por isso, não é possível que as águas das chuvas possam arrastar os cadavéres até ao rio”.

  Suspeita de contaminação da água

Uma equipa multissectorial constatou  no local que não existe qualquer campa aberta que dê a entender que as águas das chuvas estão a arrastar alguns restos de cadáveres enterrados no cemitério até ao rio.
Apesar desta situação,  Fernando Cassanga  disse que os técnicos da Direcção Provincial de Saúde e da Energia e Águas colheram algumas amostras de água do rio Cambumbe para testar em laboratório.
A olho nu a água do rio Cambumbe não apresenta qualquer suspeita de estar contaminada com os restos de cadáveres, mas  pode ter algumas impurezas de insectos ou excrementos de animais que são arrastados pelas águas das chuvas.
“Mesmo se as águas das chuvas arrastassem  objectos cadavéricos do cemitério não podiam chegar até o rio, tendo em vista que se encontra a uma distância de aproximadamente  um quilómetro e  neste percurso existe muita areia, capim e árvores que filtram o lixo ou resíduos sólidos da água”, disse Fernando Cassanga, para acrescentar que não se pode afirmar categoricamente que a água do rio Cambumbe esteja contaminada com os restos de cadáveres. Para responder à preocupação da população do bairro Sakampoko, o cemitério está encerrado  para ser  requalificado e controlado pela Administração Municipal.
“Estamos a ver neste momento que há funerais anárquicos e as campas estão a chegar quase à berma  da Estrada Nacional 280 que dá acesso ao município do Cuito Cuanavale, e que vai criar problemas, um dia, caso o Governo Provincial do Cuando Cubango pretender alargar o  troço rodoviário”, disse, para acrescentar que é necessário haver enterros de forma ordenada no interior do cemitério e não cá fora conforme  se verifica  no Sakampoko com as campas a cerca de cinco metros da estrada.
    
 Abertura de furos de água
O administrador municipal de Menongue anunciou que a instituição que dirige tem em carteira a construção nos próximos dias de alguns furos de água no bairro Sakampoko para que a população possa consumir o  líquido sem qualquer suspeita de contaminação.
“O nosso lema é melhorar o que está bem e corrigir o que está mal. Por este facto, vamos trabalhar no sentido de melhorarmos o mais rápido possível o abastecimento de água potável às populações residentes no bairro Sakampoko e noutras localidades do município”, disse.
Enquanto não forem construídos  os furos de água, Fernando Cassanga aconselhou a população a ferver ou a desinfectar sempre a água antes de a consumir, com vista a  evitar-se doenças como as diarreicas agudas e infecções na pele.
Constitui também    prioridade  a reabilitação de chafarizes para fornecer água potável às populações e estancar as águas residuais que vertem na via pública e que muitas  vezes são as fontes onde as pessoas retiram a água para o consumo.

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