Reportagem

Centenas de crianças nascem livres do VIH

Yara Simão

Mais de 250 crianças nasceram livres do VIH/Sida, no Hospital dos Cajueiros, no Cazenga, em Luanda, durante o primeiro trimestre deste ano, no âmbito do Projecto de Corte de Transmissão Vertical. A campanha, uma iniciativa da União Africana, liderada pela Primeira-Dama, Ana Dias Lourenço, foi lançada no Luena, Moxico, em Dezembro de 2018.

No primeiro trimestre pouco mais de 250 gestantes seropositivas trouxeram ao mundo bebés “livres para brilhar”
Fotografia: Agostinho Narcíso

Angola pretende reduzir, até 2021, a taxa de transmissão do VIH de mãe para o filho, de 26 para 14 por cento.O Plano Operacional da campanha prevê ainda a redução em 46 por cento das novas infecções e aumentar a utilização do preservativo, entre os jovens do sexo masculino de 42 para 70 por cento

Há 15 anos que as gestantes seropositivas que acorrem ao Hospital dos Cajueiros, localizado no município do Cazenga, são acompanhadas pela equipa médica em serviço, até que a criança faça 18 meses de idade. Inseridas no Projecto de Corte de Transmissão Vertical do VIH/SIDA, no primeiro trimestre de 2019, a instituição hospitalar registou mais de 200 recém-nascidos livres da doença

Apesar dos avanços científicos para impedir a transmissão do VIH, de uma gestante para o bebé, o medo ainda é comum entre as mulheres seropositivas, e a infecção é descrita como algo penoso e também encarada como fac-tor ameaçador, que no futuro pode vitimizar o recém-nascido. Além do estigma e sofrimento individual, entre as gestantes predomina ainda o medo da rejeição e abandono da família, amigos, assim como o preconceito da sociedade. 

Foi, no fundo, esse conjunto de pensamentos que dominou Dulcelina (nome fictício), quando, há seis anos, descobriu que estava infectada pelo vírus da SIDA. Porém, o Projecto de Corte de Transmissão Vertical do VIH/SIDA devolveu-lhe a esperança.
Dados do Hospital dos Cajueiros indicam que, no primeiro trimestre de 2019, pouco mais de 250 gestantes seropositivas trouxeram ao mundo bebés “livres para brilhar”.
Exemplo de que a terapia preventiva vem obtendo sucesso, pode ser encontrado na filha de Dulcelina, que, aos 6 anos, é uma criança saudável.“Não acreditava que pudesse ter uma bebé livre desta doença. Foram dias e longas horas de aconselhamento. Por fim, aceitei que submetessem a minha filha ao último teste que determinaria se ela era seropositiva ou não. Depois de 20 minutos, recebi a notícia de que a minha filha estava livre do vírus”, contou aliviada.
Dulcelina explicou que soube que era seropositiva no quarto mês de gestação, no decorrer de uma consulta pré-natal.
“Foi um tiro que levei no coração. Não consigo expli-car o que se passou comigo naquele dia, naquele momento e naquele lugar. Senti que o meu mundo acabara, não queria mais viver, nem ter o be-bé”, recordou, antes de mergulhar em lágrimas.
Diante de várias interrogações sobre a origem da in-fecção pelo VIH, na mente de Dulcelina pairava a desconfiança do antigo marido, falecido meses antes de tuberculose, no Hospital Sanatório de Luanda, ou a partilha de objectos cortantes com pessoas próximas. Sem resposta concreta, decidiu esconder o drama da família.
Os meses foram passando e pouco ou nada lhe restou senão aceitar a nova realidade.“Vinha sendo acompanhada pelos médicos, mas nunca aceitava fazer a medicação. No Hospital dos Cajueiros, encontrei uma equipa que se comprometeu a cuidar de mim e fazer com que a minha filha nascesse saudável. Aceitei e iniciei o tratamento”, disse.
Com Marta (nome fictício) foi tudo bem mais fácil. Há um ano, grávida de dois meses, e consciente de que tinha de estar bem para que o filho nascesse saudável, não hesitou quando teve conhecimento do seu estado seropositivo.
“Foi difícil, mas cuidei sempre muito bem de mim, mesmo vivendo com medo e dúvida. Foi assim até ao dia do parto. Graças à Deus, o meu filho é um menino lindo e livre do vírus da SIDA.
A experiência de Dulce-lina e Marta foi vivida por vá-rias mulheres. Cada uma com a sua história para contar. Po-rém, todas são unânimes em reconhecer que o Projecto de Corte de Transmissão Vertical do VIH/SIDA transformou as suas vidas. Para elas, aceitar o tratamento, antes e de-pois da gestação, foi a melhor opção.

Corte de transmissão vertical

A criação e execução do Projecto de Corte à Transmissão Vertical do VIH/SIDA, através da testagem voluntária e administração de anti-retrovirais, teve início em 2004.
Tido como importante conquista do Ministério da Saúde, e parceiros, na luta contra a pandemia, além do Hospital dos Cajueiros, o projecto incluiu os hospitais do Kilamba Kiaxi e Augusto Ngangula.
O “Luanda, Jornal Metropolitano”, apurou que o corte vertical visa evitar, por meio da administração de anti-retrovirais Zidovidina, o nascimento de crianças seropositivas, cujas mães estejam infectadas por VIH/SIDA.
Para garantir a eficácia, e segurança do plano, foi cria-do um vínculo com a Cooperação brasileira, no âmbito da luta contra o VIH/SIDA e as grandes endemias, tendo sido formada uma equipa composta por técnicos, mé-dicos e enfermeiros que prestam serviço nas três unidades hospitalares.

“Feminização” da doença

Conceição Afonso, técnica de saúde afecta ao Projecto de Corte de Transmissão Vertical do Vírus da SIDA, no Hospital dos Cajueiros, explicou que a “feminização” da doença vem justificar a importância da implementação de um projecto que surgiu para renovar a esperan-ça das mães infectadas e evi-tar o nascimento de crianças seropositivas.
“O sucesso só foi alcançado devido à competência e esforço do pessoal engajado no projecto que soube transmitir, durante as consultas pré-natal, informações precisas sobre a necessidade e importância da realização do teste do VIH e a possibilidade de tratamento”, disse.
A técnica de saúde sublinhou que a maior parte das crianças seropositivas são ví-timas da transmissão do vírus, de mãe para filhos, durante a gravidez, no parto ou na amamentação.
“Para evitar isso, é preciso, primeiramente, que a futura mãe saiba do seu estado serológico. Ou seja, que ela faça o teste do VIH disponível, gratuitamente, nas unidades de saúde. A instrução do Ministério da Saúde orienta que o teste deve ser pedido pelo mé-dico na primeira consulta da gestante. E, repetido no início do terceiro trimestre de gestação”, afirmou.
Além de referir que a gestante seropositiva necessita de um acompanhamento pré-natal com profilaxia específica e de cuidados especiais durante o parto e aleitamento da criança, Conceição Afonso explicou que relativamente ao esquema profilático para o corte de transmissão vertical do VIH, adoptou-se o uso do Zidovidina ou Nevirapina, e que, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), são comprovadamente úteis e eficazes, descartando assim as dúvidas em relação à qualidade dos medicamentos.
“O trabalho não termina com o parto. Durante as seis primeiras semanas de vida, a criança é medicada e ape-nas testada com 18 meses para comprovar que não contraiu o vírus”, esclareceu.

Abandono do tratamento

O abandono do tratamento por parte das gestantes tem dificultado o trabalho dos profissionais comprometidos com o projecto.
Conceição Teixeira lamentou o comportamento das pa-cientes que, depois de diagnosticadas com o VIH, abandonam as consultas e o tratamento, optando por realizar o parto em casa.
“Uma gestante seroposi-tiva não se deve sentir me-nosprezada pela sociedade, mas lutar para que o filho nas-ça saudável e livre do SIDA”, afirmou.
Conceição Teixeira disse que os activistas afectos ao projecto, no Hospital dos Cajueiros, realizam uma vez por semana palestras sobre formas de transmissão e prevenção da infecção. Na mesma senda, aconselham as pacientes sobre a mudança de atitude e de comportamento.
Para inverter o quadro, a técnica de saúde apelou às instituições e parceiros do Ministério da Saúde a intensificarem as acções de sensibilização nas igrejas, mercados municipais, escolares, e noutras áreas de concentração populacional.
“Apesar dos avanços alcançados com as medidas profiláticas reduzirem consideravelmente a taxa de transmissão materno-infantil, as mulheres seropositivas devem ser estimuladas a aceitarem a essas recomendações e terem acesso a uma assistência de qualidade”, disse.

Plano operacional de prevenção

Composto por quatro eixos, nomeadamente, a prevenção primária do VIH, transmissão do vírus de mãe para filho, tratamento pediátrico e áreas transversais, o Plano Operacional de Prevenção de Transmissão do VIH de mãe para o filho 2019-2021 prevê reduzir em 46 por cento as novas infecções e aumentar a utilização do preservativo, entre os jovens do sexo masculino, de 42 para 70 por cento.
A redução da taxa de transmissão do VIH de mãe para o filho, de 26 para 14 por cento, em dois anos, consta do documento.
O plano pretende, igualmente, permitir o tratamento de crianças seropositivas, através do diagnóstico precoce infantil e da aplicação de aconselhamento e testagem.
A reportagem deste jornal apurou que a capital do país faz parte dos grupos prioritários. A par das grávidas, on-de se inclui adolescentes e jovens, na lista das mulheres mais vulneráveis fazem ainda parte as trabalhadoras de sexo e as prisioneiras.
Em resumo, a visão do projecto é ter, em 2030, uma Angola livre da SIDA pediátrica, graças ao acesso gratuito a serviços de qualidade de prevenção de transmissão de mãe para filho, de prevenção, cuidados e tratamento do VIH, com base no respeito dos direitos humanos, género e equidade.

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