Reportagem

Centro reabilita toxicodependentes de todo o país

Carlos Paulino | Menongue

O Centro de Reabilitação e Acolhimento para Doentes Alcoólicos, situado no bairro Castilho, arredores da cidade de Menongue, província do Cuando Cubango, tem recebido nos últimos dias muitos cidadãos tóxicos dependentes provenientes de várias regiões do país.

O Centro de Acolhimento dos Doentes Alcoólicos recebe diariamente pacientes procedentes de várias regiões do país
Fotografia: Nicolau Vasco | Edições Novembro | Menongue

O centro, construído em 2016 pela Cruz Azul de Ango-la, tem capacidade para 30 pessoas, mas devido ao trabalho de referência regista actualmente o internamento de 56 pacientes das províncias do Cuando-Cubango, Uíge, Bié, Huíla, Benguela, Huambo e Cuanza-Sul, com idades entre os 14 e os 54 anos.
Pacientes com problemas provocados pelo consumo excessivo de bebidas alcoólicas e estupefacientes, ficam internados seis meses. Desde a entrada em funcionamento, em Novembro de 2016, o Centro de Reabilitação e Acolhimento para Doentes Alcoólicos de Menongue já reabilitou 36 do Cuando-Cubango, Bié e Benguela, que tinham problemas resultados pelo consumo desmedido de bebidas alcoólicas, liamba e outras drogas.
F. Luís, 26 anos,  natural do Bié, está internado no Centro há mais de quatro meses. O  estabelecimento foi a sua salvação, porque “anteriormente, além de ser alcoólatra, era um verdadeiro consumidor de cocaína, diazepam e liamba”, confessou e proseguiu. “Quando ingeria, fazia muita confusão com as pessoas e dormia na rua”.
Chegou a desperdiçar, depois de ter feito um concurso público, uma oportunidade de se enquadrar na Polícia Nacional na província do Bié, por causa do consumo excessivo de bebidas alcoólicas e de drogas.
“Os meus pais viram que tudo o que eu fazia, tarde ou cedo, ia acabar muito mal. Por isso, entraram em contacto com os responsáveis deste centro de Menongue e aconselharam-me a vir receber a ajuda que tanto necessitava para mudar a minha vida, que está mesmo a mudar”, reconheceu.
F. Luís aconselhou os jo-vens a fugirem do mundo da droga, porque “é muito in-grato. Não se ganha nada e perde-se tudo, incluindo o bem supremo, que é a vida”.  Depois de quatro meses de rabilitação, F. Luís Luís mostra-se arrependido e vai pedir desculpa a todas as pessoas a quem causou sofrimento, sobretudo aos pais, e procurar um emprego para ajudar a família.
“Nós temos recebido aqui o verdadeiro medicamento que cura todas as doenças que um ser humano possa vir a contrair, que é a palavra de Deus, que é viva e exerce poder, porque é mais afiada do que qualquer espada de dois gumes e penetra a pon-to de fazer a divisão entre o corpo e o espírito, os pensamentos e as intenções do coração”, disse.
O. Salvo, 31 anos, natural da província de Benguela, está no Centro desde Janeiro, porque consumia bebidas alcoólicas como se estivesse a beber água.
“Esta situação fez com que faltasse constantemente ao serviço, brigava por qualquer motivo com os meus familiares e vizinhos”, reconheceu.
Certo dia reflectira sobre a vida e chegou à conclusão que tudo o que fazia era prejudicial e, por isso, necessitava de dar um fim ao consumo de bebidas alcoólicas. Assim como F. Luís e O. Sal-vo, Abel Chinoia, 19 anos, natural de Menongue, também enfrentou momentos difíceis enquanto esteve mergulhado no mundo do álcool e de drogas. Chegou a roubar da família e dos vizinhos ter dinheiro para comprar cerveja, whisky, vinho e liamba.
Devido a este comportamento, abandonou os estu-dos em 2016, quando frequentava a 8ª classe. Hoje, depois de três meses de tera-pia, sente-se um homem novo e não pensa repetir os erros do passado.

Falta de apoio
O director do Centro de Reabilitação e Acolhimento para Doentes Alcoólicos de Menongue, Aires Tchilemo Manuel, lamentou o facto de a instituição que dirige desde a inauguração não recebe apoios financeiros ou de bens alimentares do Governo Provincial do Cuando-Cubango, nem de outra organização, para melhorar as condições de vida dos pacientes internados.
Por falta de apoio, os familiares dos pacientes são obrigados a fazer uma contribuição simbólica de 20 mil kwanzas mensalmente. Este valor serve principalmente para a compra de bens alimentares, as três refeições a que têm direito por dia, bem como para os medicamentos.
A Cruz Azul de Angola é uma organização Não Governamental, apartidária, de solidariedade social ligada à Cruz Azul Internacional, fundada em 21 de Setembro de 1877, na Suíça, e presente em mais de 51 países.
A Cruz Azul de Angola congrega as igrejas IECA, ICA, IERA e IESA, que trabalham para a reabilitação física e espiritual das pessoas que ingerem excessivamente bebidas alcoólicas e outras drogas.
Aires Tchilemo Manuel disse que diariamente recebe muitas solicitações por via telefónica, de muitas regiões do país, para o internamento de familiares, mas, por escassez de espaço, não tem sido possível atender todos os pedidos. Há pessoas, frisou, que trazem directamente em estado crítico. Nessas situações, o Centro não têm como negar, porque a quem diga que “não havendo espaço, podem dormir no chão, porque o que queremos é que recebam tratamento”.
António. João, 31 anos, é um dos 36 pacientes, está reabilitado e já se encontra reintegrado na sociedade. Desde que saiu do Centro, depois de seis meses de tratamento, sente-se “uma pessoa melhor”.
O consumo exagerado de álcool fez com que perdesse a mulher e abandonar os cinco filhos, porque já não conseguia cumprir as suas responsabilidades de chefe de família. Chegou a deixar o domicílio e a dormir na rua.
“Hoje, olhando para o passado, dou graças a Deus e aos responsáveis deste Centro, que abriram este importante estabelecimento que me ajudou a ver a vida no verdadeiro sentido, em relação àquela que levava e não faltava muito para me levar à morte”, reconheceu .

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