Cercas metálicas de produção local

Natacha Roberto
3 de Abril, 2017

Fotografia: Maria Augusta|Edições Novembro

À medida que se consolidam os projectos industriais que surgem um pouco em todo em todo país, o mercado interno oferece, cada vez mais, soluções baseadas na produção local.

O arame farpado que era integralmente importado, por exemplo, é feito hoje na Zona Económica Especial Luanda-Bengo, em quantidades que cobrem integralmente as necessidades de vedação de grandes obras de engenharia como a subestação de Laúca. 
A reviravolta nesse segmento de mercado foi protagonizada pela Vedatela, empresa especializada no fabrico de cercas metálicas e rolos de arame farpado. A unidade fabril, única do género no país, ocupa uma área de 148 mil metros quadrados e produz 41.976 peças para a criação de arame farpado e cercas metálicas.
Inaugurada há seis anos pelo Presidente da República, José Eduardo dos Santos, a fábrica é hoje a principal fornecedora de cercas metálicas e arame farpado utilizados nos grandes projectos desenvolvidos em curso no país. Através de grandes empreiteiras, a unidade fabril trabalha em regime de turno para cumprir com os prazos de entrega do material que garante alta segurança dos projectos como a Hidroeléctrica de Laúca e a rede de instalação de sistemas de abastecimento de água, executados pelo Ministério da Energia e Águas.
Dividida em várias áreas, a maior parte das máquinas é operada por técnicos angolanos. Na área de produção 70 equipamentos de tecnologia avançada funcionam com objectivo de produzir as cercas metálicas.
As áreas estão divididas em secção de lâmina, arame farpado, secção de tela de arame electrosoldado, secção de tela de chapa de aço, secção de montagem de soldagem, a secção de tratamento de superfície, a secção de manutenção mecânica, depósito de produtos acabados e material de escritório.
A fábrica, pela sua peculiaridade na actividade de produção de vedações em metal, assume um número acima dos 500 clientes, entre empresas e particulares. Erguida num espaço de 148 mil metros quadrados, a unidade destina o material produzido para fins militares, industriais e embelezamento urbano.
A unidade fabril conta com 110 trabalhadores nacionais, incluindo sete mulheres, directamente ligados à produção de arames.  Joana Africano é operadora de arame laminado. Conseguiu o primeiro emprego em 2011. Admitida na unidade, a jovem na altura solteira, beneficiou de formação prestada por especialistas chineses, uma vez que a máquina onde opera é de origem asiática. Hoje, mãe de dois filhos, domina a impressão de arames em formato de lâmina.   
O arame laminado é uma rede constituída por tiras metálicas com as pontas afiadas, cujo objectivo é o de impedir a passagem de pessoas. Este tipo de arame é ligeiramente mais leve e ocupa menos espaço.
As múltiplas pontas afiadas existentes numa cerca de arame laminado são projectadas para infligir cortes profundos a quem tente trepar e ultrapassar a mesma, tendo, portanto um forte efeito dissuasor, explica Joana Africano.  Ultrapassar barreiras de arame laminado sem qualquer ferramenta adequada é uma tarefa bastante difícil e demorada, dando às forças de segurança tempo suficiente para reagir.
Ao ser produzida e armazenada, em forma de rolo, a máquina é programada para operar em função do diâmetro pretendido. Quatro máquinas funcionam para trabalhar igual número de tipo de arame. Cada máquina produz 25 rolos por dia.
A impressão de arame farpado fica a cargo do operador Mendonça Ngombe. Responsável da área, manuseia a máquina com o apoio de uma equipa formada por seis pessoas. O operador demonstra habilidades extraordinárias, fruto de experiência acumulada ao longo de seis anos.
Mendonça Ngombe trabalhou como operador de máquina numa fábrica angolana de refrigerantes. Pai de dois filhos, entrou para a fábrica em 2011. Beneficiou de uma formação de seis meses onde obteve avaliação positiva e, em pouco tempo, foi promovido pela fácil adaptação à produção de arame farpado.
O arame farpado geralmente consiste em dois fios de arame em si envoltos formando um cabo reforçado que possui, de intervalo a intervalo, farpas pontiagudas tipo espinhos (geralmente quatro) que apontam para quatro direcções distintas.
O arame farpado geralmente é vendido em rolos de diferentes tamanhos que pode ser desenrolado à medida que vai sendo afixado em paus fincados no solo. Actualmente, o arame farpado é usado para proteger instalações militares, prisionais ou para estabelecer algumas fronteiras territoriais.

Reconstrução Nacional
 
Muitos operários que trabalham na fábrica foram enquadrados pelo antigo Gabinete de Reconstrução Nacional. Este gabinete tinha por atribuição promover, acompanhar e supervisionar a execução de programas específicos no domínio da recuperação económica e social.
Abel Vasco da Gama é um dos integrantes desta equipa que trabalhou na execução de programas específicos de recuperação económica e social. Hoje, aos 44 anos de idade, trabalha como operador de máquina de metal estendido.
Abel Vasco da Gama e Manuel Bumba são operadores desta área e têm os dois a função peculiar de formar os novos colegas. Manuel Bumba, aos 42 anos de idade, desempenha a função com mestria e ajuda os colegas mais novos. Como responsável da área e de uma equipa de sete homens faz questão de transmitir todos os conhecimentos adquiridos durante seis meses com especialistas chineses.
Os arames ou cercas metálicas são consideradas importantes nas vedações de um determinado espaço para garantir a alta segurança de residências, unidades prisionais, projectos no sector da construção, agricultura, transporte e outros afins. 
Este material possui uma especificidade por ser de pequena e grande densidade com bastante resistência. A empresa angolana Vedatela, ao produzir este tipo de material, tem sido muito solicitada no mercado nacional para atender aos vários projectos de impacto social como Laúca, que envolve uma grande engenharia civil para a produção de energia no país.  A grande subestação de Laúca, prevê gerar 2.070 megawatts (MW) de energia eléctrica com a previsão de arranque da primeira turbina em Julho próximo. O processo de construção da barragem começou em 2012, com o lançamento da primeira pedra.
A energia gerada por Laúca vai permitir a expansão do sistema eléctrico nacional com o desenvolvimento da rede em Luanda, mas também a do Huambo, passando pelo Waco Cungo. Além disso, a expansão abrange Malanje, para fazer crescer a região leste do país.
O enchimento do reservatório de Laúca será concluído até próximo ano. Com uma altura de 156 metros quadrados, a previsão é atingir um nível de 870 metros, numa área de 24 mil hectares.
Com um investimento de 4,5 mil milhões de dólares, o projecto envolve a construção, produção, fornecimento e colocação em serviço do sistema de transporte de energia. Laúca é a terceira barragem em construção no leito do rio Cuanza, depois de Cambambe, com 960 megawats, e Capanda que gera 520.
O projecto conta com 8.458 trabalhadores dos quais 8.035 nacionais, o que representa 95 por cento de toda a força produtiva instalada, na execução da obra. Os 423 são estrangeiros do Brasil, Colômbia, Venezuela, Portugal, Equador e República Dominicana, que representam apenas cinco por cento.
O projecto surge de um estudo de inventário realizado em 1950, a pedido da então empresa pública Sociedade Nacional de Estudo e Financiamento de Empreendimentos Ultramarinos (Sonefe)  à empresa Hydrotechnic Corporation (USA). O referido estudo foi retomado em 2008, com a realização de um projecto de viabilidade solicitado pelo Governo angolano.
As obras para o desvio do rio, iniciadas em 2012, compreenderam a escavação de dois túneis na margem direita do Kwanza, de 14 metros e meio de diâmetro, e duraram 20 meses e a segunda fase do projecto incluiu a construção da obra principal, a central principal e central ecológica e a terceira fase inclui a componente electromecânica e de linhas de transporte.
Através da construtora brasileira Odebrecht, que leva a cabo todo o projecto de execução da obra de grande impacto social e económico, trabalha em parceria com a Vedatela para o fornecimento de centenas de metros de arame e cercas metálicas para a alta segurança do projecto.

Água para todos

A fábrica também apoiou ainda o programa nacional “Água para Todos”, ao qual forneceu cercas metálicas para as vedações dos postos de fornecimento de água potável em todo o país.
A fábrica foi a principal fornecedora de cercas metálicas, neste programa de âmbito nacional, para a segurança e protecção dos postos que foram instalados em áreas rurais. O projecto implicou medidas de reforço do investimento por parte do Executivo para construir 250 pontos de água e 164 pequenos sistemas de abastecimento de água, de que resultou um total de 2.570 pontos de água e 802 pequenos sistemas de abastecimento do precioso líquido.
Segundo dados avançados pelo ministro da Energia e Águas, João Baptista Borges, o programa permitiu servir 213.222 habitantes das zonas rurais, mas a nível do país 5.191.815 foram servidos do precioso líquido.  O programa teve início em 2007. A Comissão Técnica do Programa Água para Todos quer executar este ano um incremento da taxa de cobertura do abastecimento de água no meio rural a 80 por cento da população. Esta medida vai ser tomada de forma progressiva, através de um modelo de gestão sustentável, no quadro do processo de descentralização da prestação de serviços de abastecimento de água.
 De referir que em 2009, o programa atingiu uma cobertura a nível rural de 22 por cento da população e na ordem dos 44 em 2011. No meio urbano, a cobertura passou de 33 por cento para 56 nos anos em referência.

Aposta nas empresas

Em entrevista ao Jornal de Angola, o administrador do Instituto Nacional de Apoio às Micro, Pequenas e Médias Empresas (Inapem), Samora Kitumba, defende a contínua aposta do Estado no apoio às unidades fabris.
Na sua opinião, as micro, pequenas e médias empresas podem dinamizar a economia, por estarem mais próximas dos cidadãos e serem geradoras de emprego. O responsável pelo departamento que acompanha a participação das micro, pequenas e médias empresas (MPME) na contratação pública, entende que o apoio constitui mola impulsionadora das economias modernas. Daí que, no seu entender, a participação das empresas nacionais na contratação pública dá maior robustez às empresas, facilita o desenvolvimento das suas actividades e permite a obtenção de parcerias público-privadas.
“Com a formação do empresariado nacional, facilmente as empresas conseguem obter contratos, formar parcerias, conquistar mercados e continuar com o seu trabalho”, defende.
O gestor público esclareceu que é da responsabilidade do Instituto Nacional de Apoio às Micro, Pequenas e Médias Empresas (Inapem) velar pelas medidas de implementação e de apoio previstas na Lei das MPME, enquanto o Serviço Nacional da Contratação Pública vela pela regulação e supervisão do mercado da contratação pública. Na sua óptica, esse mercado é muito importante, porque, em termos gerais, representa 40 por cento do OGE.
Samora Katumba entende que a participação activa das pequenas e médias empresas nas empreitadas públicas garante maior abertura aos negócios e reduz de forma significativa os custos de transacção, tornando-as mais competitivas. “Na maioria dos países, as pequenas empresas são responsáveis por uma parcela importante do Produto Interno Bruto, geram volumes significativos de emprego, são mais flexíveis que as grandes companhias”, disse.
O responsável acrescenta que as pequenas empresas são ainda mais resistentes aos choques externos e menos exigentes em termos de capital inicial. “Nos concursos de grandes empreitadas de obras públicas está reservada uma parcela de 25 por cento às micro, pequenas e médias empresas, medida consagrada na Lei 30/11, através do decreto conjunto Executivo 157/14, que define os procedimentos para que os apoios institucionais sejam adoptados”, aponta.

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