Reportagem

Chegar ao mundo a partir do chão de barro do Cazenga

Matadi Makola

Num total de pouco mais de vinte grupos no activo, neste momento, o Cazenga congrega cerca de 420 actores, numa demanda que ronda de três a quatro espectáculos em cada final de semana, levados em cena na Mediateca Zé Du, Paróquia Santo António e o Centro Cultural do Cazenga (Anim’Art), considerado a “jóia do município”.

Fotografia: Edições Novembro

“O Cazenga tem uma tradição teatral que vem de longa data, tanto que talvez seja o município que gerou mais grupos na cidade de Luanda. Temos estado a trabalhar para voltar a promover o teatro no município, de forma a ser o que já era nos anos passados”, traça Ana Cardoso, directora da Cultura e Turismo do Cazenga. 

Olhando para o estado financeiro do país, não arrisca aventar uma breve melhoria, embora garanta que tem mantido diálogo com os empresários locais no sentido de estes engajarem-se. Mas, de tudo que o teatro tem feito pelo município, aponta que o Cazenga superou a fama daquele marasmo de “lavra fértil de marginais”.
“Hoje, tem-se uma visão diferente e aos poucos vamos superando isso. O Festeca veio dar uma outra visibilidade ao município”, defende.
Braço da associação socio-cultural Globo Dikulu, as-sente nos interesses lúdicos e pedagógicos da comunidade, o Festeca, Festival Internacional de Teatro do Cazenga, já contou com a participação de países como Portugal, Espanha, Cuba, São Tomé e Príncipe, Brasil, Alemanha, França, África do Sul e Moçambique. Mas, presentemente, pretende “aconchegar-se” ao México e ao Chile. O evento é realizado desde 2006, “ao tempo em que a sensibilidade para a cultura era um puro devaneio, ou seja, um momento impróprio”, recorda Orlando Domingos, que dirigiu o festival desde a sua fundação, tendo, no ano passado, dado vez à jovem Felismina Sebastião.
Por via de um simbólico apoio de uma agência de fundo sueco, a primeira edição do Festeca nasce com uma pequena amostra de 12 grupos do Cazenga, cumprindo tematicamente as exigências do mecenas. “Con- tudo, foi o grande fôlego”, reconhece Orlando Domingos. No ano seguinte, sem apoios, aventuraram-se, reunindo grupos de diversas partes de Luanda.
Coincidindo com a chegada do administrador Tany Narciso, com alguma ânsia de quem estava fresco no cargo, na abertura da terceira edição, este desafia-os a pularem para a internacionalização. Aceite por Orlando Domingos, trabalharam em conjunto durante um ano. Promessa cumprida, com a vinda de um grupo brasileiro, valendo-lhe igualmente o crédito de ter sido o primeiro a reconhecer a independência de Angola.
Mais uma vez, na relação de Semba e Samba, somou o Brasil. Nesse mesmo ano, Orlando Domingos já augurava organizar a candidatura de Angola na ASSITEJ - Associação Internacional de Teatro para a Infância e Juventude, organismo no qual o Brasil já fazia parte. Resolveram-se dois problemas numa só solução: o director do grupo brasileiro que veio inaugurar a internacionalização do Festeca era igualmente vice-director do Centro Brasileiro para a Infância e Juventude.
Pura verdade de que a sorte favorece os audazes. Este homem de teatro brasileiro alcovita a favor de Angola na reunião internacional desta organização, que teve lugar no México. No ano seguinte, haveria o congresso, entre a Dinamarca e a Suécia, oportunidade flagrante para que Angola entrasse como membro. Defendida pelo bloco latino, o país africano foi admitido.
“Ter oportunidade de estar presente na roda internacional de infância e juventude, participar de projectos internacionais, ter formação a nível internacional e também conseguir eventos ligados a esta organização da mais alta roda internacional do teatro”, destaca Orlando Domingos alguns benefícios de membro.
No ano seguinte, 2010, são chamados ao congresso. Porém, a vulnerabilidade de informação e financeira impede-os de irem. A necessitar do apoio de Angola para assumir a presidência da ASSITEJ, a África do Sul, à data tesoureira-geral, faz toda a diligência para que Angola votasse por procuração. Só mais tarde conseguem marcar presença nos congressos de 2013 e 2016, participações que lhes garantiram respirar com algum à vontade nos corredores da alta roda do teatro, onde os anglófonos e os francófonos suplantam.
“O bloco africano não funciona como deveria e um dos grandes empecilhos é mesmo a questão da língua, apesar do grande esforço da África do Sul e contactos bons com os Camarões e a Nigéria. Outro aspecto seria a organização da rede africana interna, mas os custos nos impedem”, analisa Orlando Domingos.
Neste momento, pesa-lhe sobre as mãos a ida, até 12 de Setembro, à Noruega, para poder actualizar as cotas e garantir a participação de Angola no congresso de Tóquio (Japão), a ter lugar no próximo ano. Esperançado, conta articular positivamente com os ministérios da Cultura e da Juventude.

Um albergue para 40 artistas

Seguindo as normas da organização mundial do teatro para infância e juventude, para que assumisse uma sede, era obrigatória a realização do Festival Internacional de Teatro de Infância e Juventude e a construção da infra-estrutura. Por outro lado, a ideia de um dia ser um cabal centro de animação artística levou a que tomassem a peito a empreitada de construir um albergue. Por força do apoio prestado pela Aliança Francesa de Luanda, na pessoa do seu director, Paul Barascut, a honra da simbólica inauguração coube ao embaixador da França em Angola, no passado mês de Julho.
Não possui grandes acabamentos, aliás, ainda não está acabado. Talvez com mais apoio o albergue ostentasse a pompa desejada. O espaço é bastante humilde. “Foi tudo feito aos bocados. Era um saco de cimento hoje, um saco de brita amanhã”, aponta Orlando Domingos. O plano era que fosse inaugurado em 2019. Cumpriu-se. Contudo, falta o tecto falso e outros pequenos detalhes de acabamento, incluindo mobiliário. O albergue possui seis dormitórios, com capacidade para acolher um total de quarenta pessoas
Contudo, a imaginação serviu de grande recurso. As camas foram feitas com palhetas, forradas com tecido. Para já, nesta última edição do Festeca, ninguém acreditava que os grupos estrangeiros fossem ter a “aventura” de aceitar passar as noites aí. A resposta foi positiva e todos quiseram lá estar, talvez mais por solidariedade do que por outra razão, sabendo que o espaço está longe de oferecer as condições de hotéis de cinco estrelas, “valências urbanas” que o Cazenga não possui e dinheiros que o Anim’Art está longe de pagar. Este ano foram recebidos mais de vinte actores estrangeiros e a maior parte deles aceitou passar as noites no Cazenga.
Prevendo uma solução para o bloqueio que a língua impõe a nível internacional, a oportuna ida do embaixador francês ao Cazenga também serviu para inaugurar uma sala de francês, cujo arranque estava previsto para este mês.
“Isso facilitará a nossa relação com a França, porque temos linha de apoio para fazer residências artísticas, mas a questão da língua ainda tem sido o entrave. Instalada a escola, agora temos condições para, daqui a dois anos, mandar regularmente os nossos actores para França, para fazer formação e estágios”, disse Felismina Sebastião à imprensa, no momento da inauguração da sala. Dentre outras, um dos grandes empecilhos eram as carteiras. Comovida com a “luta” destes por uma comunidade alinhada na educação e cultura, a direcção da seguradora Nossa Seguros teve o gesto de oferecer trinta carteiras novas ao Cazenga. Melhor não poderia estar.
Passo a passo, tudo vai se acertando para o grande desafio de 2021, ano em que Angola pretende acolher a Academia Internacional de Tetro para Crianças, um evento de grande dimensão. Angola já teve experiência quando Portugal acolheu, isto em 2013, e foi das mais distintas participações de crianças africanas, razão pela qual se ponderou a vinda do evento a Angola. Já desde 2014 que têm vindo a trabalhar para que “tudo esteja nos conformes”, tanto que motivou a vinda a Angola, em 2018, da presidente da academia, propositadamente para avaliar as condições do espaço e concluir se poderia servir ou não.
Ciente das suas limitações, Orlando vai-se conformando para a possibilidade de, caso não haja oportunamente apoios para alojamento e logística, ter mesmo de recorrer ao albergue do Anim’Art. Mas Orlando também não pretende ficar apenas pelo teatro, dado que almeja que a vinda destas crianças de todo o mundo a Angola sirva também de oportunidade para que se faça um filme em que estas façam apelos à cultura da paz, num slogan que se prevê: “A paz a partir dos olhos de uma criança”. O mesmo já foi realizado quando a academia se deslocou ao Canadá, tendo como foco os índios ameríndios, com quem festejaram o teatro sob o lema “O mundo visto a partir dos olhos de uma criança”.

Manuel, um alemão levou
o Goethe ao Cazenga

Está claro que o crescimento do Anim’Art contou com a mão de várias organizações e individualidades, uma lista longa de omissos e declarados. Entre estes, destaca-se o empenho pessoal do alemão Manuel Negwer. A substituir Christiane Schulte, foi no consulado de Manuel, à frente do Goethe Institut Angola, que este renomado centro mundial ultrapassa a criticada “síndrome” da cidade.
Na música, Manuel esgueirou-se pelas artérias do coração do Sambizanga, conheceu Cacuaco e outros pontos. Contudo, depois de ler uma notícia neste diário, na qual o articulista frisava o facto de o festival internacional mais regular do país ser acolhido na 6ª Avenida do Cazenga, provocou-lhe algumas suspeitas. Ao tomar contacto com o Cazenga, foi simpatia imediata, apaixonando-se pela organização e dando ares de ali se sentir “um peixe na água”.
Convicto do que queria, Manuel abriu conversa, garantindo apoio total para que duas pessoas do Anim’Art fossem assistir ao Festival de Infância e Juventude da Alemanha, acolhido em Berlin. Postos na Alemanha, Manuel facilitou a interacção com os grupos, nascendo acordos que visassem a formação. A prestigiada actriz alemã Ana Klat foi uma das pessoas que aceitou o desafio, tendo vindo a Angola para ministrar formação e montar um espectáculo com os meninos do Anim’Art. Desta relação nasceu também a peça conjunta entre actores angolanos e alemães, que teve primeiramente estreia em Berlin e depois em Luanda. Nessa altura, Manuel já estava de saída. Foi substituído pela senhora Gabriele Stiller-Kern, que tem dado continuidade a este “sonho” com igual calor humano.
Ainda sem asfalto, hoje, a 6ª Avenida do Cazenga é considerada ponto obrigatório na passagem dos vários grupos de teatro que chegam ao país, dentro ou fora da agenda do Festival Internacional de Teatro do Cazenga. Já se perdeu a conta de quantas “estrelas” ou países passaram pelo Cazenga.
“Sempre foi nossa intenção trabalhar com a comunidade. Já la vão cerca de trinta anos, quando quisemos transformar este espaço que era uma lavra, para dar aulas de desenho e teatro, associadas às escolas adjacentes. Por exemplo, o anfiteatro, desde os finais dos anos noventa, ainda não está terminado. Mas o teatro é a grande ferramenta. Hoje, por mérito, pela nossa intervenção e força anímica, fazemos parte do coração de Luanda”, segreda-nos Orlando Domingos.

A voz dos grupos que se seguem

São vários os grupos que despontam no Cazenga. A nossa reportagem foi atrás de alguns deles, tendo conversado com três directores envolvidos no projecto Fale Teatro Cazenga, um debate aberto, que acontece à última quinta-feira de cada mês, na sala Santo António. O director do grupo de teatro Conjuctura D’artes, Cláudio Luís, mais do que apontar a falta de espaços no Cazenga, generaliza: “não temos no país um espaço público que satisfaça os fazedores de teatro”.
Forjado pela mão de Flávio Ferrão, por quem passou enquanto actor da consagrada companhia Henrique Artes, hoje conta com 19 anos de teatro. Este director refere que o que lhes tem sustentado são a sala da igreja Santo António e a Mediateca, as “bóias de salvação”, sem as quais seriam quase nulas as alternativas para sobreviver no próprio município. “De contrário, veríamos tanto tempo de teatro a converter-se em frustração”, desabafa.
Quem espera por uma acção acutilante relativamente à informação, nos órgãos de comunicação social, que acusam de “pautar por uma diferenciação negativa entre grupos da elite e grupos dos bairros”, é António Kapangu, director do grupo de teatro Jovens da Mulemba.
Capacitado por Adelino Caracol, este jovem director actua numa comunidade que está no corno do Cazenga, na extremidade entre Cacuaco e Sambizanga. “Somos resilientes. Porque sentimos que, até pelo tratamento da imprensa, se percebe como as pessoas têm uma imagem estereotipada da periferia”, reclama.
O grupo foi criado com a intenção de apoiar a comunidade, que tinha dificuldades de deslocar-se para o outro lado do Cazenga, para Cacuaco ou para Mutamba e, simplesmente, ver teatro num horário que pouco favorecia. Decidem, com apoio da Universidade Hip–Hop e o movimento Lev´art, criar o Jovens da Mulemba. Sonhavam ser pelo menos semi-profissionais a partir de 2017. Vai acontecendo, por força de contratos pontuais que fazem, como são os casos com o Instituto Kangonjo, Politécnico de Cacuaco, Sonangol e, mais recentemente, com o Banco Nacional de Angola, por via do projecto “Educação Financeira”, onde são chamados para exibirem peças nos mercados.
Naturalmente, o propósito é viverem da bilheteria de uma sala. Adaptaram o ginásio de um colégio ali mesmo no bairro, tanto que o palco foi montado com caixas vazias de cerveja. Porém, o espaço torna-se intransitável no tempo de chuva, diminuindo mais ainda as chances de serem vistos na sua “zona de conforto. Quem sabe por via da comunicação social as nossas preces chegariam aos ouvidos certos”, observa.
Nelson Gonçalves “Nylon” faz parte da primeira safra de licenciados do Instituto Superior de Arte, tendo antes passado pelo Anim’Art, onde se entregou abnegadamente e assim chega a ter experiências, por via de formação e intercâmbio, em países da Europa. Aliás, numa ida a Portugal, é elogiado numa reportagem do jornal O Público, onde é destacado nestes termos: “Nelson Gonçalves, um angolano de 22 anos vestido de branco, dá indicações em voz alta às 36 crianças francesas, belgas, portuguesas e angolanas que rodopiam no ginásio. Parece um professor de dança, muito direito, muito elegante. Mas é de teatro que se trata. E o teatro, que se faz com o coração e com o corpo, precisa de música, de dança, de desinibição. Os exercícios de Nelson servem precisamente para isso”.
Voz autorizada no quesito formação, criou recentemente a produtora teatral Xabada-Wiza. “Não adianta apenas chorar pela falta de infra-estruturas. Temos de pensar em pesquisa, adaptação e criação de cenários ajustáveis às nossas condições”, defende.
O Cazenga continua a ter grande representação, tendo nesta edição do Circuito Internacional de Teatro cinco representantes. Variavelmente, Nylon assegura que o preço do bilhete, no sentido de ser acessível a todos, varia entre trezentos, quinhentos e mil kwanzas.

Projectos para beneficiar comunidades

Dias antes da nossa reportagem ao Cazenga, a lida diária conduziu-nos ao gabinete de Eunice de Carvalho, directora-geral adjunta para assuntos corporativos da operadora Unitel. Já na abertura de conversa, Eunice de Carvalho fez questão de pontuar que “a questão da cultura sempre foi chave dentro da Unitel, tanto que é um dos pilares da sua estratégia de responsabilidade social, visando promover o desenvolvimento de novos talentos, nomeadamente, na música, pintura, teatro, dança”.
Em linhas gerais, frisou que as intervenções da sua empresa não só pautam pelo patrocínio de actividades profissionais, mas também por projectos cujos beneficiários sejam as comunidades.
“Queremos desenvolver iniciativas do género nas províncias, pelo que estamos abertos a receber propostas. E o foco é lidar com pessoas que estejam inseridas na comunidade e lidam com ela diariamente, porque a logística é facilitada e evitamos custos de deslocação”, exortou, acrescendo que dará primazia a projectos contínuos. Dá como exemplo o que têm feito com a associação Sol de Cacimbo, nos Mulenvos, cujos resultados aplaude, por contribuírem directamente para a melhoria da comunidade em que é desenvolvido.
Porém, entre os vários assuntos em agenda, o teatro foi um deles, embora aflorado de forma sucinta. Foi segura ao avançar que a Unitel tem patrocinado o teatro, mas que, neste momento, o que estão a fazer é olhar para as artes e priorizar projectos que tenham efeitos na comunidade, não só na sua acção lúdica, mas também organizações inseridas na comunidade e que projectam o seu crescimento na sua área de realização.
“É uma das coisas sobre as quais olhamos com maior cuidado, visto que almejamos o desenvolvimento sustentável. Não queremos ficar apenas, por exemplo, pelo patrocínio de uma peça de teatro, mas seguir além daquilo que se fez tradicional”, balizou.
Eunice de Carvalho explicou que é do seu conhecimento que parte das limitações das artes cénicas tem a ver com a falta de estruturas. Contudo, adverte que esta desculpa por si só não colhe, dado que em outras realidades até ao ar livre se faz teatro.
“Então, não achamos justo usar a queixa da falta de espaços. O teatro deve existir e é algo que a Unitel está aberta a apoiar”, asseverou.
Relativamente a um olhar para lá da capital, Eunice de Carvalho revelou que, na verdade, o grande foco da Unitel é desenvolver a arte fora de Luanda, adiantando que estão particularmente interessados em ouvir, de grupos já estruturados, os anseios em trabalhar nas províncias e assim avaliar os possíveis patrocínios a quem remeter candidaturas de projectos sustentáveis.
“A Unitel está atenta às produções de cariz angolano, rejeitando a cópia do que vem de fora. Queremos aquilo que é nosso, as nossas estórias e o que podemos vender ao mundo, assentes na nossa estratégia do binómio cultura e tecnologia”, orientou.

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