Cheias dificultam circulação na região do Cunene e Huíla

Domingos Calucipa | Ondjiva
1 de Abril, 2017

Fotografia: Edições Novembro

As cheias que se verificam nos últimos dias em diferentes pontos da província do Cunene, fruto do aumento do caudal de vários afluentes, causado pelas enxurradas que se fizeram sentir no municípiodo Cuvelai e na zona leste da vizinha província da Huíla,

estão a tirar sossego à população do meio rural, que continua a clamar por meios que facilitem a travessia para outras zonas.
Pelos  riscos que os populares correm, dada a correnteza das águas e os bichos por elas arrastados, o dia-a-dia dos aldeões tem sido um verdadeiro desafio.
No ponto de travessia junto do pequeno mercado informal “Eteya Ohombo”, que traduzido do kwanhama para o português fica “destrói casamento”, no bairro Okapale, arredores de Ondjiva, que permite o acesso à escola do I ciclo de Oifidi e a outras localidades situadas na zona oeste da capital da província, um grupo de alunos e alguns populares, quando passavam alguns minutos do meio dia, preparavam-se para chegar a outra margem.
O percurso do espaço coberto de água é de aproximadamente dois quilómetros e meio e pode consumir uma hora.
Mário Joaquim e Alexandre Jamba, dois jovens alunos da 8ª classe da Escola de Oifidi, e moradores do bairro Okapale, descalçam os ténis e arregaçam as calças para enfrentarem a correnteza das águas.
Os dois contam que nestes dias o caudal já baixou um pouco. “A água atinge a cintura, enquanto há cinco dias a mesma atingia quase o peito”, indica um deles, com a sua altura de aproximadamente 1,70 metro.
Mário e Alexandre ajeitam os objectos pessoais aos ombros e põem-se a atravessar aquilo que mais se parecia com um mar, quando se aproximava a hora 13, a hora de entrada na sala de aulas. Outros alunos da mesma escola e populares seguem em coluna.
Em colectivo, o temor de cada um ser atacado por qualquer bicho arrastado pela corrente esfuma-se.
A travessia é feita de forma lenta e cuidadosa, porque muitas vezes essas águas trazem consigo espécies de natureza perigosa, como cobras e outros répteis. Esse movimento de alunos é feito de segunda a sexta-feira.
A caminhada é feita sobre a picada coberta de água sem se conseguir enxergar onde se põe os pés. O cuidado é maior porque quem perde a rota pode ir parar num poço sorrateiro e afogar-se.  Ospopulares contam que aqueles que se aventuraram a atravessar em lugares inapropriados morreram por afogamento.
Do outro lado da margem, surge um grupo de mulheres com as vestimentas dobradas até acima do joelho a carregarem produtos da lavra, como pepino e lombi de abóbora, assim como bebidas caseiras da época, para os comercializar nos mercados da cidade.
Muitos alunos, os mais pequenos, deixaram de frequentar as aulas devido às águas, ao passo que alguns mais aventurados optaram por utilizar a nova estrada, numa caminhada que leva mais de duas horas de viagem.
Os membros da comunidade pedem que as autoridades provinciais façam um esforço no sentido de destacar naquele local uma canoa para facilitar a travessia e evitar que muitos alunos deixem de assistir as aulas.

Ataque de bichos

Um  relato surgido da aldeia de Okalonga Naulila revela a história de um adolescente de 13 anos que foi gravemente mordido na perna depois de ter pisado um bicho dentro da água, enquanto apascentava o gado. Fernando Ndafaohamba, um ancião daquela aldeia, que contou o sucedido ao Jornal de Angola, disse que o menino seguia o rebanho, que se alimentava de capim submerso, mas a dada altura pisou um objecto no fundo da água que se confundia com barro, que não conseguiu identificar, que o mordeu numa das pernas.
O ancião explicou que se presume que o menino tenha pisado uma serpente, dado o formato da dentada. Disse que a vítima está neste momento a ser tratada na aldeia por um aldeão que, normalmente, cura as pessoas mordidas por cobras e encontra-se fora de perigo.

Acção da Protecção Civil


O comandante provincial do Serviço de Protecção Civil e Bombeiros, Joaquim António Domingos, falou ao Jornal de Angola sobre as grandes dificuldades de travessia que se vive neste momento, sobretudo na comuna do Evale, a 66 quilómetros a norte de Ondjiva, onde não existe qualquer  forma de circular de um lado para o outro devido ao aumento do caudal do rio com o mesmo nome.
Explicou que a Protecção Civil colocou, há dias, à disposição da comunidade local uma canoa a remo que está a ajudar na travessia da população das suas aldeias para a sede da comuna, onde buscam osserviços da administração do Estado, da saúde, escolas, lojas, inclusive para apanhar o transporte para se deslocar à capital da província.
O responsável ressaltou que a única canoa não é suficiente para fazer a travessia da população de um lado para outro, pelo que é necessário reforçar com mais uma pelo menos.Já na comuna de Omukolongondjo, a população está a ser ajudada por um bote a motor, enquanto na localidade de Okaholo, arredores de Ondjiva, está uma outra canoa que tem sido a “salvação” de populares que se deslocam à cidade. Cada pessoa paga 50 kwanzas pela travessia.
Joaquim Domingos disse que já está criada uma comissão multissectorial, coordenada pelo governador provincial, Kundi Paihama, que está a elaborar um plano que visa acudir a população sinistrada, principalmente no que toca à questão das travessias.

Famílias deixam residências

Na cidade de Ondjiva, pelo menos 250 famílias vivem dias difíceis depois de verem as suas casas submersas, em consequência das enxurradas que se abateram ultimamente sobre a urbe, cujas águas não encontram escoamento devido à falta de sistema de drenagem e, nalguns casos, às construções desordenadas.
O levantamento foi feito após uma visita do governador Kundi Paihama aos bairros mais afectados, em que prometeu os apoios necessários às vítimas com casos mais graves. A escola primária 122, no coração da cidade, ficou inundada, o que obrigou à paralisação das aulas há quase um mês.O administrador comunal de Ondjiva, Amadeu Hidisange, disse que a culpa das casas inundadas recai para as famílias, sendo que muitas delas já haviam sido realojadas em locais seguros nos anos anteriores, “mas, por teimosia, regressaram às zonas de risco.”Os diques de protecção construídos à volta da cidade de Ondjiva e de alguns bairros, formando uma espécie de cordilheira, estão a ser uma verdadeira tábua de salvação para os habitantes locais, contra a“fúria” das cheias que se registam nestes dias.
 Construídas em 2010, após as cheias de 2009 que invadiram alguns bairros e parte da cidade, as barreiras, feitas de terra com cerca de três metros de altura, estão a desviar literalmente as águas para o seu caminho natural.

Uma província de catástrofes

A província do Cunene tornou-se nos últimos nove anos um espaço geográfico problemático, devido às sucessivas catástrofes naturais, com consequências trágicas na vida dos habitantes e da populaçãoanimal.A região apresenta-se muito inconstante nos últimos tempos, pois, num ano é seca acentuada e noutro é água por excesso, que chega a cobrir espaços habitados, campos de cultivo e zonas de pasto.
Neste momento, vive-se enchentes que cobrem grandes espaços territoriais dos municípios de Ombadja, Cuanhama, Namacunde e Cuvelai, estando de parte apenas Cahama e Curoca, dada a diferença das suas características.
Acontece que esta mesma água poucos meses depois deixa de existir e dá lugar à seca, porque segue para outros territórios além-fronteira, levando consigo também o peixe que ostenta, tudo por falta de grandes sistemas de retenção, cuja implementação é há muito aconselhada.
 Especialistas são unânimes em afirmar que já era tempo de a província ter sistemas que permitissem reter as águas das cheias para o seu aproveitamento.
As enxurradas abateram-se sobre a urbe e as águas não encontram escoamento devido à falta de sistema de drenagem e, nalguns casos, às construções desordenadas.

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