Reportagem

Chuvas acentuam sofrimento renovado na mudança do ano

Luísa Rogério

Um grito na madrugada desperta os membros da família. Qual alarme, a voz ecoa na vizinhança. Mulheres e ho-mens adultos, idosos e crianças levantam-se. Estão em prontidão. As pessoas com algum tipo de limitação física vão para um reduto relativamente seguro. A cama deixou de garantir abrigo.

Fotografia: Maria Augusta | Edições Novembro

Desligar a energia eléctrica é ta-refa absolutamente prioritária. Há trabalho abundante. Vassouras, bacias, baldes e até panelas, todos recipientes são escassos para retirar a água de casa. Os movimentos sincronizados não foram ensaiados. O ritmo frenético mantém-se várias horas após o abrandar da chuva. É sempre assim. No Kikolo, na Cuca, Viana, Bairro Popular ou em outras zonas de Luanda. As estórias repetem-se. O sofrimento agudiza-se a cada aguaceiro. Mudam apenas os endereços e as personagens da vida real. É quase inenarrável a realidade agravada nos subúrbios luandenses.
Antes de amanhecer, os transtornos já se fazem sentir. Começam a formar-se os engarrafamentos que se agigantam em poucos minutos. Pessoas que passaram a noite a lutar contra a força das águas correm em busca da vida. É o caso de Madalena. Confrontada com paragens cheias, resigna-se. Caminha pelo próprio pé. No fim da jornada, revive a experiência. Em dias de sorte, consegue lugar no candongueiro. Amiúde, participa em conversas que incidem geralmente sobre o tema do momento: as chuvas em Luanda. Vencida pelo cansaço, adormece na baúca. Desperta. E volta a cerrar os olhos. Finalmente, desembarca na paragem do Comicha, em Viana. Ainda não chegou a casa. Depois de atravessar charcos e valetas, encontra um “rio caudaloso” onde deixara uma rua ao princípio da manhã.
O rio que separa Madalena recebeu o elucidativo nome da "Vala da Morte". A jovem, de 27 anos, dorme em casa de uma amiga. “Estou segura”, telefona para tranquilizar os pais. Na manhã seguinte, refaz o percurso para o serviço, algures na Mutamba. A reportagem do Jornal de Angola abordou-a a um passo de casa. “O chefe dispensou-me mais cedo. Vou arrumar as coisas e, se for possível, descansar um pouquinho”, diz. Tem pressa para aproveitar o “intervalo” dado pela chuva. Ela mora na CAOP C, do outro lado da vala. Ali é Cacuaco. Falamos na CAOP A, que pertence ainda ao município de Viana. “Vieram num dia bom. Terça-feira, isto estava intransitável”. A disposição de Madalena também é melhor no final da manhã ensolarada de quinta-feira, 22 de Fevereiro.
A jovem integra o grupo de centenas, talvez milhares de pessoas, que diariamente cruzam a rua Brasileira que inicia na Avenida Deolinda Rodrigues, em Viana, e termina perto da chamada “Vala Grande”. O primeiro quilómetro está de tal modo inundado, que afasta totalmente a possibilidade de avaliar o tamanho dos buracos.
Seguimos os outros carros. Adiante, percebe-se alguma intervenção no passado. A brita e resíduos de asfalto permitem o escoamento das águas pluviais. Residências opulentas chamam a atenção na estrada asfaltada. Nem parece que choveu há dois dias.
Mais casas bonitas. Enormes terrenos vedados. Vêem-se pomares. A rua Brasileira vai para além dos imbondeiros. Nela misturam-se, em meia dúzia de quilómetros, os piores e alguns dos melhores panoramas das vias luandenses. Donos e inquilinos de vivendas, que transmitem a sensação de terem sido tiradas do contexto, circulam inevitavelmente com as viaturas topo de gama pela rodovia dos três cenários. A alternativa, inviabilizada pela chuva, seria a vala temida por arrastar pessoas e bens.
“É um desastre quando chove”, atira Manuel Mateus, o dono da placa de lotadores. Atribui-se a designação aos trabalhadores informais encarregues de chamar os passageiros até lotar as viaturas. Recebem cem kwanzas por lotação. Os colegas apoiam o lotador. Circundam a viatura do JA para darem informações adicionais. Neste bairro, morreram, aquando da última chuvada, dois irmãos de 4 e 5 anos.
 “A mãe lhes deixou com outras crianças. A água lhes levou”. Manuel Mateus acrescenta que, instantes antes de lá chegarmos, uma senhora caiu com o filho pequeno na vala. Pretendia apanhar o táxi, “mas recuou. Dia dela de sorte”. Admilson António Francisco, condutor da carrinha que faz serviço de táxi, concorda. E resume a gravidade da situação em poucas palavras: “Sério, é muito sofrimento”.
“As pessoas andam longas distâncias. Os carros não conseguem chegar ao bairro”, lamenta o taxista. “Quando chove, não há vaidades. Ninguém passa com sandálias de salto. As meninas daqui aprenderam a levar chinelos nas carteiras”. O lotador avisa que cumpriu a missão. Admilson Francisco deixa o seu recado. “Já morreu muita gente nesta vala. A população sofre. Só chora por uma ponte. Levem essa informação aos mais velhos.” A conversa é interrompida por um senhor com cerca de 60 anos. “Vocês todos dias filmam, ouvem as pessoas, mas não fazem nada. Vivo aqui desde 2010, estou farto de falar. O administrador vem visitar a população e não faz nada”, esbraveja.
Passageiros e lotadores tentam explicar ao agastado sexagenário que somos jornalistas. “Todos iguais”, responde. Visivelmente abor-
recido, vira as costas e sobe na carroçaria do táxi improvisado. Ele continua a abanar a mão em sentido negativo até a viatura fazer a curva, enquanto os presentes encorajam a Maria Augusta a fotografar. Os lotadores aproxi-
mam-se novamente. Esclarecem as razões da fúria do kota. Ele perdeu tudo várias vezes. Vive na casa de chapas no marco imaginário que separa os municípios de Viana e Cacuaco.

Submersos
Imaginemos um rio estreito. Coloquemos nas duas margens filas corridas de casas. Façamos emergir, não se sabe com que tipo de tecnologia, bancadas laterais e frontais destinadas à venda de tipos diferenciados de produtos. Desde pão fresco, carne crua e legumes a caixas de fósforos. Imaginemos inúmeros vendedores, principalmente mulheres, ao lado das quitandas. Detalhe: pernas humanas e cadeiras parcialmente mergulhadas em águas escuras mescladas com lodo e dejectos. A ideia não brota de nenhuma mente putrefacta. A descrição fica longe do retrato fiel da rua principal da Cuca, pertinho da linha férrea. O bairro Adriano Moreira junta-se aos locais em que a vida desvaloriza a ficção.
Aventuramo-nos naquela rua por nossa conta e risco. À medida que avançamos, desfaz-se a ilusão. Apelamos à memória para visualizar a zona. Impossível! Os factos bloqueiam qualquer imagem do passado. As vendedoras olham expectantes para o carro que ousa agitar as águas estagnadas. Sai gente das cantinas. Uma senhora idosa quase tropeçou nos sacos de areia amontoados no portão. Ninguém diz nada. Indiferentes, as crianças com botas vermelhas atraves-sam o lago que absorveu a estrada. Lá do fundo caminham três meninas. Equilibram-se no terreno firme que sobrou do passeio. Alcançam a faixa crítica. Será que vão recuar? Enrolam as batas branquíssimas na cintura e andam. A água está bem acima dos joelhos.
O ruído provocado pelas motobombas tira-nos do mutismo. As máquinas recolhem as águas de quintais e ruelas do Curica. Atiram-nas para o asfalto do Cazenga, onde as obras de requalificação incluíram esgotos. O carro não encalha na lama. A paragem é forçada para que a retroescavadora possa operar com vista a abrir um canal de escoamento. Os habitantes do Adriano Moreira preferem não esperar pela Administração Municipal. Contribuíram para pagar o combustível, mas Carlos Francisco não especifica os valores. Mecânico numa empresa de autocarros, ainda tem ânimo para amenizar a situação. “Tirei férias para trabalhar no bairro. Passei a noite a nadar e a empurrar a água do quintal para fora”.
Carlos Francisco acredita que a areia colocada pelos moradores em frente às residências agudizou o problema. “Entulharam, entulharam e provocaram a separação em dois blocos. As casas ficaram abaixo do nível. Deviam ter nivelado o terreno para evitar as condições lastimáveis em que vivemos”. Adverte que, se a administração mantiver a passividade, o Adriano Moreira jamais será o mesmo. A chegada do carro de lixo pôs ponto final à entrevista. Carlos Francisco, o “Mboté”, figura emblemática da Cuca, continua a orientar o trabalho circunstancial.

Busca de equilíbrios
O som das motobombas acompanha a reportagem. A rua que liga a Filda à Cuca está “inundada” de mangueiras das quais jorra a água que molha o asfalto. Idêntico cenário no Asa Branca, Kwanzas e Kikolo. A maioria dos troços secundários tornou-se inacessível. No São Pedro da Barra, crianças brincam serenamente no foco de lixo nas cercanias de uma área em obras. Como se fosse normal a convivência com fontes de doenças que enchem corredores de hospitais. A combinação resultante das águas residuais, buracos, lodo e construção em terreno impróprio compõe a cena comum ao Bairro dos Ossos, do Uíge, Petrangol e demais aglomerados populacionais de Luanda, onde a administração pública denota ser inexistente.
A rua Suja Pé, que liga a requalificada estrada de Cacuaco ao mercado do Kikolo, faz jus à denominação. Contudo, sujar os pés é a menor das preocupações. As ravinas estreitam a estrada sempre que chove. A passagem simultânea de viaturas pode ser perigosa em determinados pontos. O menor descuido implica o risco de resvalar para as ladeiras. Em ambos os lados das valas fundas foram erguidas habitações. Peças de mobiliário, colchões e roupas saltam à vista. Blocos para construção prendem as chapas por cima das casas de edificação precária.
Cá de cima dá para ver os remendos em coberturas furadas. Adivinha-se facilmente o que acontece quando São Pedro abre as portas. Altamente perturbadoras, as imagens dos miúdos a nadarem em piscinas naturais criadas pelas torrentes. Os pequenos correm atrás das objectivas. “Me filma também”, gritam com mão no ar. Na ruela do mercado, optamos pelo recuo estratégico. Trilho demasiado sinuoso, após o embondeiro das chamadas telefónicas. A foto dos carros enviusados compensa o esforço.
De regresso, a sensação de nos equilibrarmos sobre uma ténue linha. Reencontramos os dois adolescentes de mochilas de marca e batas impecáveis. Tinham entrado nos estreitos becos para buscar um colega. Embora vivam na margem seca, são bem conhecidos nas imediações. Eles percorrem o bairro diariamente para apanhar o amigo e juntos encurtarem distâncias. No meio do imenso vale de tormentas com replicações aqui e acolá, em que Luanda se transforma na época chuvosa, reconforta constatar que os estudantes aprendem as lições do quotidiano. Eles sabem que os atalhos conducentes à outra espécie de vida passam pela escola.

Soluções luandenses

Concebida para quinhentos mil habitantes, Luanda abriga cerca de 7 milhões. A ineficácia da administração pública, sobretudo nos subúrbios, reflecte-se na quantidade de lixo amontoado e na inexistência de serviços básicos. As estradas esburacadas deram lugar a lagoas com cacussos e bagres. Perdemos a conta do número de automóveis a definhar em garagens simplesmente porque os entulhos carregados pela chuva vedaram as entradas. A chuva destapa buracos, deixando expostas as debilidades da cidade disfuncional. Enquanto a acção do poder público não se faz sentir, os luandenses investem na auto-gestão.
A criatividade manifesta-se à velocidade dos contratempos. Descobrimos luandenses atentos a oportunidades de facturar em diferentes esquinas e becos. Ao contrário das águas putrefactas, a vida não pode parar. Botas de borracha azuis, vermelhas e pretas resultam em óptimo investimento para moradores de áreas de risco. Custam em torno de 2 mil kwanzas. Outra variante bastante frequente tem sido alugar as botas para quem faz compras nos mercados, ao custo de cem kwanzas. Para prevenir calotes, os proprietários exigem que os interessados hipotequem algum objecto de valor. Calçados em bom estado, relógios ou telemóveis. Vale tudo, menos levar as botas sem garantia de retorno.
O engenho apurado do faz-tudo luandense inspirou a criação do fio “atravessador”, no qual as pessoas se apoiam para transpor lago que já foi rua. A moda pegou no Cazenga, Rangel ou Viana. Dizem ser originária do Catinton. No bairro famoso por causa do mercado, captamos o significado do termo fitar. Não ter botas deixou de constituir impedimento para prosseguir a marcha. Os “fitadores” protegem os pés com sacos pretos. Depois passam fita-cola ao redor. Transposto o itinerário complicado, o caminhante tem à disposição o serviço expresso de “lava-pés”. Sabão, esponja e escovas manejados por mãos hábeis removem a sujeira. Resta secar os pés, calçar e seguir em frente.
Em certos pontos, é mais prático procurar “atravessadores”, aqueles jovens com força para carregarem adultos nas costas. Aparecem ofertas para mulheres e homens fisicamente avantajados, desde que paguem a dobrar. “Atravessadores”, “fiteiros” e “lava-pés”, esses trabalhadores que tiram rendimentos das arrelias provocadas pela chuva, cobram cem kwanzas. Independentemente da zona. Os sacos pretos que sobressaem no lixo acumulado na rotunda da praça do Kikolo indicam os postos dos profissionais gerados pela época chuvosa em Luanda

Cidadãos descrevem
experiências sombrias

Fundado no final da primeira metade do século passado, o Bairro Popular impôs-se como zona residencial de referência na capital. Tinha condições básicas de habitabilidade. O projecto incluiu escolas, hospitais, praças de autocarros e de táxis, mercados e largos para prática desportiva. Considerado bairro de classe média baixa, reunia infra-estruturas básicas que o tornaram funcional. Nos anos 1960, foi considerado modelo pelas Nações Unidas. Até princípios dos anos 1990, era razoável. A falta de manutenção e de políticas públicas impulsionaram a decadência.
Poucas ruas foram reabilitadas desde então. Com excepção da Machado Saldanha, das chamadas sete ruas e mais cinco, apenas parcialmente, grassa a degradação. Das vias secundárias sobram os contornos. Abundam os espaços inacessíveis na época chuvosa. A lama obstrui os becos. Muitas casas foram abandonadas devido à infiltração de lençóis freáticos. Na parte menos corroída pelo desgaste nem parece que choveu ontem. Os problemas provocados pela chuva são igual-
mente recorrentes no Popula. No fim de cada etapa da luta contra as águas, alguns moradores reiteram o ritual inspirado numa telenovela brasi-
leira. “Levantamos o braço direito com o punho cerrado e a mão esquerda sobre o coração. Gritamos vitória na guerra”, afirma Fatinha.
Ao contrário da produção brasileira, o alvo da celebração triunfal é aliado natural da humanidade, apesar do rasto de destruição que deixa. Prestes a comemorar 47 anos, Fatinha nasceu e viveu sempre no Neves Bendinha, designação oficial do bairro. O corpo ressente-se do cansaço, mas “temos que nos levantar para disputar outras batalhas”. Para Fatinha, o betão que substituiu o asfalto nem de longe transmite a ideia do tormento resultante da chuva. Além da forte correnteza que rapidamente enche as fossas, os canais de escoamento de casa para os colectores que deixaram de ser limpos há vários anos.
A água corre naturalmente para a vala do Palanca. Na rua de Moura de baixo, estranha o facto de as casas possuírem muralhas protectoras, principalmente na parte frontal. Paredões com cerca de metro e meio fecham a entrada das garagens e se confundem com janelas abertas como aquelas que vendem bebidas alcoólicas. As pessoas usam os três degraus altos colocados em direcção ao portão para entrar em casa. À primeira vista, faz lembrar as adaptações para viabilizar a movimentação de pessoas de baixa estatura. Os visitantes precisam de segundos adicionais para perceber a lógica do “bizarro” estilo da rua limpíssima.
Idosos, grávidas e pessoas com deficiência locomotora sofrem particularmente. “Primeiro, empurro uma perna, depois puxo a outra. Os kotas bem kotas precisam de ajuda”, declara Bruce Miranda. De 35 anos, o mecânico apoia-se na perna direita para caminhar. Bruce conversava animadamente com os amigos, quando os interrompemos.
Na verdade, constatamos acontecimentos similares aos narrados por eles através da comunicação social, nos candongueiros, salões de beleza e hospitais. Todavia, os relatos na primeira pessoa revelam-se assombrosos. Sem saber, acabamos agendando encontro com o pavor.
O mecânico sente dificuldade em contabilizar os prejuízos. “Os estragos são imensos. Perdi mobílias pelo menos três vezes.” Casado, Bruce revive as três noites consecutivas em que dormiu no telhado com os três filhos. Durante anos a fio, o telhado serviu também de despensa para “guardar” o que conseguiam salvar. “Você pensa que a água vem pela porta, quando dá conta, os quartos estão cheios”, con-ta. Nos dias melhores, dormia com as crianças no beliche, única peça de mobiliário poupada pelas enchentes nos últimos anos.
“A comandante chuva é má. Todas aquelas pessoas que ali estão perderam as casas”, aponta para o outro lado da vala. “A minha televisão é pequenina. Com a nossa vida, não valia a pena comprar telas. Perdemos tudo”, sublinha. Cita vizinhos em piores condições. “Nem uma panela possuem. O que morava ali ficou com a porta do quarto como recordação da casa que teve”, fala, indicando as ruínas.
Os utentes de viaturas parqueavam na rua. Ao sentirem os primeiros pingos as recolhiam-nas para um lugar seguro. A água levou muitos carros. Até então calmo, o jovem que se apresenta como pastor Teixeira, afecto a uma igreja Pentecostal, intervém. “Metíamos malha sol nas janelas, para evitar a saída de arcas e botijas de gás. Geralmente passavam”.
Os bombeiros estiveram por diversas vezes no local a fim de controlar as pessoas. O pastor destacou o apoio de um técnico da administração, presente em situações calamitosas. “Aquele moço já nadou connosco para ajudar a salvar um bebé”. No ano passado, trouxeram o governador Higino Carneiro, que nos viu a flutuar com as coisas. Não trouxeram os sacos de arroz, nem as caixas de massa e os colchões que nos prometeram. Mas vimos passar um camião com colchões directo para o mercado dos Correios.
“Ficaríamos gratos se montassem na vala uma daquelas pontes feitas pelos chineses”, almeja o pastor, preocupado, sobretudo, com as crianças. Os bebés anteriormente amarrados às costas por causa da correnteza têm que dar voltas enormes para diminuir a exposição a riscos. Eles tiram a pequena ponte de ferro em dias chuvosos, para não ser arrancada pela força da água, conforme aconteceu no passado.
Volvidos quase 30 anos, a situação mudou, no sábado, 19 de Fevereiro. Partiram a ponte “graças à administradora e ao Presidente João Lourenço.” Apelos políticos à parte, a destruição da ponte deixou visível o lixo acumulado que impedia o escoamento de águas pluviais provenientes de outras zonas. Na madrugada da terça-feira, 20 de Fevereiro, pela primeira vez, durante anos sofríveis, os moradores viram-se livres dos efeitos da tormenta. Apreciaram a chuva na cama. Faís-ca, da última casa da Moura não perdeu tempo.
Foi o primeiro a derrubar a muralha. Voltou a ter um portão convencional. Dentro de casa, a pintura recente não esconde totalmente as marcas da chuva. O quadro de energia eléctrica permanece fora do lugar. “Estamos em reconstrução”, exalta. Os amigos imitam a cantoria do vizinho que vive no bairro desde 1974. “Já vou comprar colchão, vou comprar guarda-fatos novo”. A alegria justifica-se. Para eles, a chuva quase tudo levou. O presente sugere que os dias sombrios ficaram para trás.

Cobras e centopeias
Ouvimos descrições indeléveis em todos bairros onde estivemos. Sofrimento e morte foram as palavras frequentes. O clima de celebração terminou mal alguém citou as tragédias que abalaram a comunidade. Duas famílias vizinhas vivenciaram o pesadelo em épocas distintas. O Faísca ainda se recorda do dia em que o Pita pisou um fio eléctrico descascado, perto da vala. Morreu no local do incidente. Passaram-se aproximadamente trinta e cinco anos. O Kanguengue, cujo quintal estava interligado ao Pita, por uma portinhola, perdeu a vida no ano passado, enquanto tirava a água do quintal.
As duas últimas casas da rua foram abandonadas de-vido à falta de condições de habitabilidade. Os antigos proprietários mudaram-se para o Zango 3. No interior, proliferam águas putrefactas, centopeias de tamanho incomum, ratazanas e insectos voadores. “Às vezes, aparecem cobras e escorpiões”, adverte o pastor Teixeira. Contornámos o habitat dos bichos peçonhentos. Na rua a seguir, houve igualmente mortes. Numa noite, deitaram-se duas crianças. Uma sobreviveu. A outra foi apanhada pela correnteza. Distanciadas de desgraças passadas, jovens entrançam o cabelo no quintal completamente alagado. “Habituamo-nos a viver com as pernas mergulhadas”, comenta o pastor.
A casa tombada pela fúria das águas lembra imagens sobrepostas em câmara lenta. O único membro da família “residente” nos escombros da habitação dorme debaixo da figueira. Ao relento, portanto. Assim como toda aquela gente ao redor da vala.
“Se não tivessem derrubado a ponte, a esta hora estaríamos por cima daquele primeiro andar”. Bruce Miranda olha para o edifício protector.
Eles festejam o futuro. Fazem planos. Pretendem pintar paredes e reequipar as casas. Como se fosse a primeira vez. Evidenciam satisfação ao ver a água escorrer livremente pela vala. Isabel Cassule junta a sua voz à da legião de flagelados. Enfrenta os receios comuns que afastam o sono mal começa a pingar. “Se a mesa não for resistente, parte de tanto peso. A comida vai para o lixo e outras makas mais”. Isabel reconhece os benefícios da reabertura do canal de escoamento.
Infelizmente, a resolução de um dilema desencadeou outros. Residente na divisória do Neves Bendinha com o Palanca, assustou-se ao regressar a casa. Se não lhe tivessem avisado, a pouquíssimos metros da ponte, ter-se-ia deparado com o vácuo na noite escura. “Vejo daqui o meu quintal. Para chegar lá, tenho de dar uma volta tremenda”.
A ponte derrubada aumentou a distância. “As crianças dificilmente vão à escola sozinhas. Temos que correr para apanhar os nossos filhos se chover ou faltar energia”. Os delinquentes aproveitam qualquer oportunidade. “Muitos moços fumam liamba abertamente. Ando atenta aos movimentos suspeitos, sempre a cantar e a louvar”. Roga pela colocação de uma ponte provisória.

  Enxurradas de ontem causaram morte de três crianças

Três crianças (de três anos e de três e dois meses)  morreram, ontem, em Luanda, em consequência da chuva que se abateu sobre a província, de acordo com o porta-voz do Serviço de Protecção Civil e Bombeiros, Francisco Minguês.
No bairro Caop B, município de Viana, faleceu a menor de três anos, devido ao desabamento de uma parede, em consequência da chuva. A morte foi confirmada pelo o administrador municipal adjunto de Viana para Área Técnica, Fernando Binje.  Além da morte da criança, segundo o responsável, registou-se ainda a inundação de mais de três mil casas em toda a extensão do município.
As outras duas crianças faleceram em Cacuaco e no Cazenga, ambas por  afogamento, segundo Francisco Minguês. A autoridade deu ainda a conhecer que mais de 6 mil residências ficaram inundadas e 48 outras desabaram. Nove escolas também acabaram inundadas.
Ainda em relação às escolas, equipas do Serviço de Protecção Civil e Bombeiros  estão a desenvolver trabalhos de sucção das águas, para permitir o regresso dos alunos mais cedo às aulas. Francisco Mingês disse que os municípios de Viana e Cacuaco foram os mais afectados pela chuva, embora os dados sejam ainda provisórios.
No município de Belas, mais de oito edifícios do KK5000, que ainda se encontram desabitados, ficaram submersos. O administrador do município, Mateus da Costa "Godó", deu a conhecer que, no bairro Mundial, mais de 200 casas estão submersas.
Na Samba, muitas famílias que viram os seus quintais inundados com a água da chuva voltaram a pegar em baldes para retirá-la. Situações dessas são frequentes em Luanda, sempre que a chuva cai.
O reduzido número de valas de drenagem, para a saída das águas, tem sido apontado, por especialistas, como uma das razões para muitos dos  constrangimentos vividos.

INAMET
O porta-voz do INAMET, Estanislau João, disse que Luanda recebeu um volume de água de 89.6 milímetros, o que equivale a 90 litros por cada metro quadrado, uma quantidade que considerou elevada.
Disse que, por se estar em época chuvosa, poderá continuar a cair mais água sobre a capital e outros pontos do país. Depois da chuva que caiu ontem, o INAMET prevê um abrandamento para os próximos dias.

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