Reportagem

“Cidadela Jovens de Sucesso” é ponte de superação e reintegração social

Edivaldo Cristóvão

Ser órfão de ambos os pais não é condição fácil de gerir, principalmente, quando acontece a menores de idade. O jovem Godinho Emiliano Serafim Candela vive esta situação desde os 15 anos.

Fotografia: Cedida

Os seus progenitores faleceram em 2014. O pai por Acidente Vascular Cerebral (AVC), em de Outubro, e a mãe, de cancro, em Novembro do mesmo ano.
Após o infausto acontecimento, o jovem que nasceu e vivia, até então na província do Cuanza Sul, veio para Luanda em busca de melhores condições. Na capital, em poucos meses, as crescentes dificuldades do dia a dia, desencaminharam-no para o mundo das drogas e do alcoolismo.
Actualmente com 19 anos, Godinho Candela conta que foi acolhido pelo tio (irmão da mãe) no bairro Benfica, onde permaneceu três anos. Porém, a convivência local tornou-o vulnerável às drogas e ao alcoolismo que proliferavam na zona. A recente perda dos progenitores e a solidão levaram o jovem (com 15 anos, na altura) a apegar-se aos amigos de ocasião, para amenizar a tristeza e a angústia.
"Preferia estar na rua do que em casa porque tinha maior liberdade. Infelizmente, isso trouxe outras consequências, quando comecei a consumir bebidas alcoólicas e drogas ", desabafou, garantindo que "hoje, já consigo controlar isso. Superei o trauma, graças a este centro que me acolheu como se fosse um filho".
A partir do momento em que o tio percebeu que Godinho estava envolvido em más companhias, optou por integrá-lo num centro de reabilitação. A Escola Rural de Capacitação e Ofícios, "Cidadela Jovens de Sucesso”, de Cabiri, foi o destino escolhido para ajudar o jovem a abandonar o mundo das drogas e a não cair na delinquência.
"A minha integração aqui não foi muito difícil porque fui bem recebido. O programa de ocupação durante todo o dia ajuda-nos a recuperar e temos ainda o acompanhamento de um psicólogo. Além da formação profissional temos o estudo académico, praticamos exercícios e orientação religiosa. Assim que terminar o curso, quero voltar a viver com o meu tio, dar sequencia à minha formação e começar a exercer a minha profissão de electricista ou serralheiro", disse o jovem.
Tal como Godinho Candela, muitos jovens se encontram em situação vulnerável, devido a vários factores sociais, como a desestruturação familiar e a pobreza, fenómenos que provocam a fuga massiva das populações para as grandes cidades, a procura de melhores condições de vida.
O programa Escolas Rurais de Capacitação e Ofícios foi criado pelo Ministério da Administração Pública, Trabalho e Segurança Social, em 2008. Até a data foram formados mais de 200 mil jovens em todo o país, com destaque para as províncias do Bengo, Luanda, Moxico, Malanje e Namibe.
Segundo o director da Escola Rural de Cabiri, Miguel Júlio, as instituições funcionam em regime de internato, com os instruendos a frequentarem, em simultâneo, o ensino geral obrigatório, a formação profissional, o acompanhamento religioso e psicológico, além das instruções básicas de cidadania.
No ano corrente foram matriculados mais de 400 alunos, em Cabiri, sendo 120 em regime de internato e cerca de 300 externos, provenientes dos bairros da comunidade. Com 12 formadores internos, geralmente, os cursos ministrados têm duração de três anos. Miguel Júlio revelou que as especialidades mais frequentadas são a Agricultura e Pecuária, Alvenaria, Pintura, Ladrilho, Canalização, Carpintaria, Serralharia, Electricidade, Corte e Costura e Rádio e Televisão.
Nas Escolas Rurais de Capacitação de Artes e Ofícios “Cidadela Jovens de Sucesso” não é permitida a inscrição de meninas em regime de internato, porque os centros foram concebidos unicamente para rapazes. Mesmo assim, nesta altura, 38 raparigas frequentam a escola, no regime normal de ensino.
O executivo tem outros projectos que albergam apenas pessoas do sexo feminino, concretamente, os centros de formação feminina espalhados por várias províncias do país.
Os custos da formação e do internamento são suportados pelo Executivo e outros parceiros sociais. Em oito anos, a escola de Cabiri já formou 226 alunos. A mé-dia anual de jovens que concluem a formação é de cem finalistas.
Constância Fernandes tem 17 anos e é das poucas raparigas que frequenta o Centro de Cabiri, em regime externo. Vive no bairro da Mabuia com os país e frequenta a escola há três anos. Contou à reportagem do Jornal de Angola que se inscreveu por vontade própria, para poder dar continuidade aos estudos.
Após percorrer diariamen-te três quilómetros, Constân-cia chega ao Centro pela manhã e regressa apenas ao final do dia. Ao Jornal de Angola, revelou que gosta de lá estar,  por ser um lugar confortá-vel e de paz. “Aqui aprende-mos todos os cursos, temos oportunidade de aprender várias habilidades que nos podem ser úteis no futuro e ajuda-nos a estar preparados para o mercado de emprego”, disse.
Por seu turno, Severino Samssaria, de 19 anos, saiu do Huambo com o objectivo de entrar para a escola, por intermédio do seu irmão, que frequenta o centro Dom Bosco. “No Huambo não estudava por falta de condições e porque tinha de ajudar os pais no campo, com a criação de animais. Só comecei a estudar, com 16 anos, aqui no centro. Hoje já sei ler e fazer muita coisa que antes nem imaginava. Sou muito bem tratado aqui. Dão-nos alimentação, espaço confortável para dormir e coisas que em casa dos meus pais não era possível fazer”, contou.
Depois de concluir a formação, Severino pretende dar continuidade aos estudos e ser engenheiro informático, para trabalhar condignamente e ajudar a sua família no município de Londuibale, província do Huambo.
    
Escola do Cabiri
A escola possui três dormitórios com 120 camas no total. A instituição está   dotada de um posto com um médico e várias enfermeiras e equipamento clínico para atender os jovens, sendo os casos graves encaminhados para hospitais de referência.
O centro médico atende em média 25 pacientes por dia, entre alunos e diversos cidadãos da comunidade, num espaço que tem servido igualmente para a realização de campanhas de vacinação e tratamento das enfermidades que têm ocorrido.
O Centro de Cabiri tem oito hectares de construção de infra-estruturas e outros tantos para produção agrícola. Para o ano corrente há previsão de colheita de dez toneladas de tomate. No local está instalada uma fábrica de transformação que antes produzia 120 litros de leite por dia, mas neste momento, está parada por falta de equipamentos. Toda mão-de-obra é dos alunos.
No interior da escola rural de capacitação de Cabiri existem vários projectos que garantem a sustentabilidade da instituição.
Um estábulo com 15 cabeças de gado bovino, um aviário com 650 aves que diariamente põem 400 ovos, entre outros.
A zona de produção agrícola da escola tem oito estufas que produzem tomate, cebola, repolho, cenoura, couve, pepino e melancia, pimento, bringela e batata rena, destinados ao consumo interno. Existe também um lago onde se faz a reprodução de tilápia.

Projecto consistente permite a criação do próprio negócio

O programa foi criado com o intuito de dotar os jovens das áreas suburbanas de conhecimentos e habilidades técnicas para a confecção de produtos e serviços, estando assim aptas a integrar o mercado de trabalho local, como mão-de-obra especializada.
Depois do ciclo formativo, os formandos têm oportunidade de criar o próprio negócio, viabilizando assim a sua inserção social, o bem-estar da sua família, bem como a sua identidade social.
Como objectivo específico, as Escolas Rurais foram concebidas para proporcionar aos cidadãos habilidades e formas de superação, mesmo sem qualificação. Os alunos têm direito a livre escolha e à prática da profissão que pretendem exercer, a fim de aumentar e diversificar a capacidade formativa.
O público-alvo da “Cidadela Jovens de Sucesso” são os adolescentes a partir dos 14 anos, sobretudo aqueles que estão privados de amparo familiar. O projecto abrange igualmente indivíduos sem qualquer formação, pessoas à procura do primeiro emprego, portadores de deficiência ligeira, desmobilizados do exército e outros em situações de vulnerabilidade.
Os princípios orientadores deste progra-ma têm como quadro de referência a Lei de Base do Sistema Nacional de Formação Profissional, como factor de progresso social dos cidadãos, num contexto em que a redução das assimetrias de desenvolvimento constitui um dos objectivos propostos.
O ensino incide ainda no reforço da autonomia, do saber em acção, do aprender, do aprofundamento do conhecimento e de uma educação para a cidadania, valorização e intervenção cívica.
Em termos metodológicos, a formação consiste na alfabetização de ensino decorrente e formação em gestão básica de pequenos negócios, em contexto real de trabalho. São também utilizadas metodologias de técnicas diversas de suporte técnico-pedagógico e participativo, consoante o público-alvo.
O projecto “Cidadela Jovens de Sucesso” está a ser inserido, nesta altura, nas províncias de Cabinda e Malanje, contando com a parceria de uma empresa Israelita vocacionada para a formação profissional.

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