Reportagem

Clube de Ténis de Luanda é viveiro de talentos

Adalberto Ceita|

Depois de um período de letargia, o ténis começa a dar sinais visíveis de recuperação em Angola. A responsabilidade é do Clube de Ténis de Luanda, instituição que ao longo dos seus 89 anos de existência nunca fechou as portas à modalidade.

A criação da escola surgiu da necessidade de formação de tenistas e da vontade de muitos jovens em competir ao mais alto nível
Fotografia: Eduardo Pedro

A necessidade de elevar a fasquia ao mais alto nível e fazer jus ao estatuto que a modalidade já alcançou, em particular no panorama continental, é visível no trabalho que emerge nos courts de ténis desta associação desportiva.
Tenista do Clube de Ténis de Luanda (CTL), três a quatro vezes por semana, Nundo António cumpre à risca um ritual. Limpa cuidadosamente com a toalha o punho de uma das raquetes que recebeu no dia em que começou a dar os primeiros passos na modalidade. Foi há sete anos. De lá para cá, muita coisa mudou na maneira de encarar o ténis. Devido ao forte domínio que impõe nos jogos, a sua presença nos courts de ténis é facilmente referenciada.
Aos 17 anos, Nundo António, que é visto por alguns “olheiros” como um talento em ascensão, realça que a receita para melhorar o seu rendimento passa por suportar horas e mais horas de treino intenso.
O início da prática da modalidade não foi obra do acaso. Um tio, que viu nele potencialidades, abriu-lhe as portas para um mundo, cuja existência estava longe de imaginar. A partir daí, até se transformar em paixão foi um pequeno passo. Agora, Nundo António faz parte da equipa principal do CTL e o seu próximo compromisso é a disputa do campeonato provincial, que decorre este mês na cidade de Luanda.
“Quase que já não vivo sem o ténis e, desde que aqui entrei, tenho feito tudo para que a minha presença nos courts não seja mais uma”, disse.
Pensamento idêntico é partilhado por Danilson Bento, de 13 anos. Para ele, as manhãs de segunda, quarta e sexta-feira são encaradas com entusiasmo. As longas sessões de treino de bola com direita e esquerda deixam-no exausto e ao mesmo tempo optimista.
Apesar da pouca idade, tem consciência que o futuro da modalidade passa por escolas de formação, embora reconheça que existem poucas, mas elogia o trabalho desenvolvido pelos técnicos dos escalões de formação do CTL. “Infelizmente, temos poucas escolas de formação, por isso aproveitamos ao máximo os ensinamentos que nos são transmitidos”, salienta o adolescente.
Actualmente, o CTL conta com pouco mais de 60 adolescentes e jovens, nas categorias de cadetes, juvenis e juniores. Deste grupo também faz parte Chanday Miguel. A paixão que nutre pelo ténis tem muito que se lhe diga. Ainda criança, chegava a trocar as aulas na escola primária pelas partidas de ténis. Primeiro como assistente e depois como praticante. Com o decorrer dos anos, juntou outros sentimentos à forma como vê o ténis: “Sonho ser, um dia, campeão africano.”

Aposta na formação


A ideia da criação da escola do CTL surgiu da necessidade de formação de tenistas e da vontade manifestada por muitos jovens em competir ao mais alto nível. Apesar das dificuldades existentes, os dirigentes orgulham-se de nunca terem encerrado as portas.
O coordenador da escola, Michel Sebastião, considera que foi uma aposta ganha, porque a maioria dos atletas se inclinou para a alta competição. Fruto da experiência com os jovens praticantes, acredita que com maior aposta na formação é possível voltar a ter atletas com nível elevado: “O nosso nível baixou muito. Acho que já não temos jogadores como o José Nenganga, que chegou às meias-finais do campeonato africano, e tantos outros”.
Além de lamentar o nível baixo de competição que se verifica no ténis angolano e apontar o baixo rendimentos dos atletas como uma das consequências, Michel Sebastião reconhece que se não fossem a associação provincial e o CTL que, por vezes, realizam competições para manter viva a modalidade, provavelmente o ténis estava pior.
“Apesar de todo o esforço que é empreendido pelos amantes do ténis, a modalidade vive uma fase triste”, desabafa.

Nova página

As “águas turvas” nas quais o ténis esteve mergulhado fazem parte do passado. Existe o reconhecimento que as divergências internas da anterior direcção da Federação contribuíram para adiar o seu desenvolvimento. Só que, agora, a modalidade parece querer escrever uma nova página na sua história.
Michel Sebastião refere que o virar da página não se circunscreve apenas em “termos bons jogadores, é importante que haja um trabalho conjunto entre a federação, clubes e associações provinciais, para nos posicionarmos num bom patamar”.
Homem do ténis há longos anos, e com títulos de campeão nacional e provincial no seu currículo, recorda que Angola já teve um bom nível nos campeonatos africanos e em outros grandes circuitos.
Michel Sebastião, que tudo faz para transmitir aos mais novos a sua experiência, está convicto de que o trabalho é a chave para se atingir, e até mesmo superar, o nível conquistado no passado.
“Para melhorar é necessário um trabalho conjunto entre a federação, as associações provinciais e os diferentes clubes existentes”, explica.

Modalidade cara

Considerada uma modalidade de elite, a prática do ténis acarreta custos elevados. O preço de materiais como raquetes, vestuário, sapatilhas e bolas, falam por si. A título de exemplo, uma raquete chega a custar entre 30 a 40 mil kwanzas, mas o coordenador da escola do CTL garante que tem havido apoio para colmatar as dificuldades quanto à aquisição dos materiais.
“Realmente, o ténis é uma modalidade cara, mas contamos com o apoio da direcção. Prova disso é o facto de os alunos entrarem aqui sem material e treinarem com aquilo que encontram”, assegura. Em geral, o material desportivo é adquirido na África do Sul e em Portugal. “Posso dizer que estamos bem servidos nesse aspecto e também posso garantir que temos bons jogadores no clube, aliás, não é em vão que ainda temos atletas seleccionáveis”, realça.

Criação de talentos


Associação desportiva de interesse público, o Clube de Ténis de Luanda tem como objectivo a prática do ténis e o convívio social entre os sócios e utentes. Como escola funciona há mais de dez anos. Actualmente, tem os seus quadros de formação subdivididos nas categorias de sub-12, sub-14 e sub-18.
Michel Sebastião diz que são todos bons jogadores e constituem um valor acrescentado para o futuro da modalidade. Nesse universo de praticantes, realça que a instituição trabalha também com atletas do sexo feminino.
A escola não cobra qualquer propina aos alunos e a ideia principal é a criação de talentos. As inscrições no clube são gratuitas.
“Existe entre nós uma boa relação com a Federação Angolana de Ténis. Em termos de apoios não podemos dizer que estamos mal, uma vez que contamos com o apoio do presidente do clube”, acrescenta Michel Sebastião.

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