Reportagem

Clube militar lidera a formação de atletas

Teresa Luís |

A fraca aposta generalizada na classe masculina de andebol, mesmo na fase de formação,  reflecte o desempenho pouco satisfatório das selecções nacionais em competições internacionais.

1º de Agosto é um dos poucos clubes que apostam na formação de jogadores o que contribui para uma boa prestação da selecção nacional
Fotografia: José Cola | Edições Novembro

Poucos sãos os clubes que têm uma política virada para o alcance da excelência a nível continental, com acontece na classe feminina. O 1º de Agosto e o Grupo Desportivo da Banca são praticamente os únicos “teimosos” neste campo.    
Quatro treinadores e dois auxiliares trabalham no andebol de formação masculino do 1º de Agosto, no Complexo Desportivo do Gama, localizado na bairro do Miramar. No arranque de cada época desportiva, são inscritas 20 crianças nos distintos escalões.
Desde 2002, a direcção do clube militar tem apostado na formação, com o objectivo de reduzir a contratação de jogadores.
Com dois campos cobertos para a prática da modalidade, os atletas das classes de iniciados, juvenis e juniores têm também à disposição um ginásio, transporte  e material desportivo.
De modo a evitar situações que podem perigar a saúde das crianças, no início da temporada desportiva os atletas são submetidos a exames médicos e contam com um  reforço alimentar no clube. Os assistentes sociais trabalham em colaboração com os treinadores, na elaboração da  planificação do treino.
Nelson Catito, coordenador da área de formação no Gama, revelou que, anualmente, é feito um trabalho de selecção. Os melhores integram as equipas imediatamente e os restantes, cuja perspectiva também é boa, fazem um trabalho à parte, com vista ao seu desenvolvimento.
“O viveiro também é formado por 20 atletas de cada categoria. Mas treinam de forma diferente. Em cada categoria temos duas equipas. Uma a competir e outra na reserva. Todos têm perspectiva de integrar as equipas principais. Trabalhar na formação de atletas requer paciência. O treinador precisa de ter um perfil pedagógico bem elaborado e amor pelo trabalho desenvolvido. Estamos a falar de uma “franja” [etária], que requer orientação e atenção permanente. O técnico precisa de ter em conta os aspectos biológicos e de maturação”, disse.
Nelson Catito adiantou que, ao trabalhar na formação, é preciso estabelecer correspondência entre a idade biológica e a de maturação. “Ao trabalhar com crianças, é preciso respeitar este quesito. Precisamos de estudar e analisar as distintas etapas, com o objectivo de sair do abstracto para o concreto, do simples ao difícil e do fácil ao complexo. Trabalhar com crianças na formação não significa que estamos a olhar para adultos em miniatura. Por isso, o treino tem de ser diferenciado”, explicou.
O coordenador da área de formação disse que a utilização dos princípios pedagógicos, desportivos, a individualização da actividade consciente e a sistematização, são aspectos que dão suporte aos técnicos para a planificação diária, semanal, mensal e anual. Caso contrário, o “produto final” não seria benéfico.
“É complicado quando a direcção do clube gasta dinheiro e não tem o retorno desejado. No fim de quatro anos, dá-me gozo perceber que a equipa  júnior tem seis atletas do escalão  juvenil. No processo de formação, as vitórias não são o mais importante. O importante é formar um verdadeiro desportista, com qualidades e habilidades úteis para servir o andebol e a sociedade”, sublinhou Nelson Catito.
Questionado sobre os resultados no processo de formação, o técnico revelou que o trabalho realizado permite ter na equipa principal jogadores formados no clube e reduzir as contratações. “Estamos satisfeitos com os resultados. Cinco atletas do conjunto principal saíram da formação. Nesta fase, não trabalhamos com o escalão de infantis. Trata-se de uma etapa, que obriga à existência de condições próprias. Mas existe a possibilidade da criação de estruturas de apoio”, adiantou o coordenador.

Formação na Banca   

O clube da Banca sempre apostou na formação do andebol masculino. Localizado na Maianga, o clube formou atletas consagrados, como Belchior Camuanga “Show Baby”,  Giovane Muachissengue, Elias António - titulares na Selecção Nacional que disputou o Mundial da França - e Pedro Neto “Oy”.
A direcção daquela agremiação implementou uma nova dinâmica, de modo a aumentar a captação de talentos. Para atingir o objectivo, foram contratadas pessoas entendidas na matéria, de modo a contribuírem para o desenvolvimento do desporto e recuperar o prestígio do clube. No ano passado, 96 atletas treinaram na Banca, sendo 27 iniciados,  32 juvenis e 37 juniores.
Face ao trabalho desenvolvido no processo de formação, a Banca já conquistou vários títulos e pretender coleccionar mais troféus.  Joaquim Adão, chefe do departamento da modalidade, disse que as condições de trabalho justificam os resultados. “A nossa aposta é apenas no sector masculino. De momento não pensamos no feminino. Temos boas condições de trabalho. Temos uma quadra aqui, na Maianga, e outra nos Coqueiros. Há necessidade de aplicar um piso novo na quadra da Maianga, onde já fizemos a cobertura e estamos a aguardar que o fornecedor aplique o piso”, explicou.
Os atletas recebem do clube os equipamentos de treino e competição, como bolas sapatilhas e uniformes. Além disso, dispõem de transporte colectivo para o local de treino e casa, e desfrutam de lanche depois dos jogos. Grande parte dos jogadores são moradores dos bairros da Maianga, Samba e Popular. A equipa tem à disposição dois fisioterapeutas e um médico. Os atletas dispõem de seguro de saúde para a prática desportiva e acidentes de trabalho. Indagado sobre os resultados produzidos até ao momento, Joaquim Adão disse: “Estamos satisfeitos com o trabalho realizado e com a entrega dos atletas e o nível de treino. É um trabalho aceitável e pensamos, nos próximos tempos, abrir o escalão ­sénior. Quando os atletas atingem o escalão superior, são cedidos ao Interclube, Exército e Petro de Luanda.”

Dificuldades na Lunda Sul

A Lunda Sul conta com quatro equipas, que trabalham na formação de jovens atletas. Apoiadas pela Sociedade Mineira de Catoca, 87 crianças aprendem os fundamentos da modalidade. O clube 4 de Abril trabalha com 60 crianças, o Sassamba prepara 50 e o  Progresso da Lunda Sul tem à disposição 70.
As equipas enfrentam várias dificuldades, desde a falta de material desportivo às infra-estruturas adequadas para a prática da modalidade. Para “driblar” a situação, as crianças treinam nas escolas, cujos campos não obedecem às medidas internacionais, o que se reflecte negativamente durante a disputa dos campeonatos nacionais.
A falta de treinadores qualificados também preocupa a direcção dos clubes. Além disso, têm dificuldades em adquirir  bolas, redes e apitos. André Nguzi, treinador do Progresso da Lunda Sul, disse existirem ideias para inverter a situação.
“Os campos estão degradados, por isso não dão para a prática da modalidade. Nas escolas, o piso é bruto e não podemos fazer determinados exercícios, para preservar a saúde dos atletas. Ainda assim, com muito sacrifício e espírito de equipa, temos tido

Misto de Cabinda
 
O Misto de Cabinda também enfrenta muitas dificuldades para colocar em prática as metas definidas. A falta de recursos financeiros e material desportivo são os principais obstáculos. Embora tenha estabelecido parceria com outros clubes, a situação é cada vez mais difícil.
José Afonso, treinador do Misto de Cabinda, afirmou que não há qualquer resposta de entidades contactadas para inverter a situação. “O silêncio é total. Para trabalhar com as crianças, usamos o pavilhão do Tafe. Apesar de o campo ter as medidas exigidas, se chove não treinamos. O campo está coberto, mas o piso tem lombas”, frisou. Ainda assim, cerca de 60 crianças, de ambos os sexos, treinam no clube.

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