Reportagem

Combate à tuberculose começa nas comunidades

Osvaldo Gonçalves |

O Mundo assinalou a 24 de Março o Dia Mundial da luta contra a Tuberculose, mas os dados relativos à doença em todo o planeta e a África Austral, em particular, demonstram que o combate à enfermidade deve ser reforçado e que, como bem refere o lema deste ano, “ninguém pode ficar de fora”.

Fotografia: Angop

Angola registou no ano passado 48 mil casos de tuberculose, com uma taxa de incidência de 195,1 por cada 100 mil habitantes. O secretário de Estado da Saúde, Eleutério Hivilikwa, disse em Luanda que ocorreram 1.022 óbitos, com uma taxa de mortalidade de 4,1 por cada 100 mil habitantes.
O número de casos baixou em relação a 2015 em 5.842.197 óbitos. Ainda assim, a tuberculose “foi a terceira causa de morte em 2016, depois do paludismo e dos acidentes rodoviários”, referiu o secretário de Estado. Principal doença infecciosa do Mundo, a tuberculose causa em torno de cinco mil mortes por dia no Planeta e a maior incidência recai sobre comunidades que enfrentam desafios socioeconómicos, como grandes migrações, refugiados, pessoas privadas de liberdade, a viver na rua, minorias étnicas, mineiros e outras que trabalham e vivem em ambientes sujeitos a riscos, além das mulheres marginalizadas, crianças e idosos.

Negligência familiar

Em Angola, mais de 500 novos casos, na maiora de tuberculose pulmonar, são diagnosticados por mês só no Hospital Sanatório de Luanda.
O director clínico da unidade, João Chiwana, disse que os números tendem a crescer de forma significativa face à ineficácia dos programas de combate à tuberculose. Aumentam também os riscos de contágio nas comunidades, pois os pacientes recorrem aos cuidados médicos três a quatro meses após o aparecimento dos primeiros sintomas da doença.
“A não procura dos cuidados médicos durante o aparecimento dos primeiros sintomas pode levar a uma infecção dos membros da família, colegas de escola e vizinhos próximos”, afimou.
Embora seja uma doença frequente em idade jovem, a OMS refere que o país teria uma cura da tuberculose em 87 por cento, mas o abandono do tratamento por parte de muitos pacientes, bem como o consumo exagerado de bebidas alcoólicas, drogas e fumo, atrasam o país a atingir esta meta, referiu. A cura em doentes de tuberculose no país é estimada em 70 por cento.
O desleixo das famílias é a principal preocupação das autoridades sanitárias em todo o país. O director do Hospital Sanatório do Mangue, no Menongue, província do Cuando Cubango, Alberto Funvo, disse ao Jornal de Angola que, das 50 mortes por tuberculose ocorridas no ano passado, em 804 casos registados, a maioria deveu-se à negligência dos familiares. “Muitas pessoas, quando estão doentes, recorrem primeiro ao tratamento tradicional e só procuram uma unidade sanitária quando o quadro clínico do seu ente querido se agrava”, lamentou.

Resistência ao tratamento

A tuberculose é uma doença cujo tratamento requer cuidados redobrados e uma grande dose de paciência e persistência por parte dos doentes, por ser muito demorado e obrigar a observância de novos hábitos alimentares e de higiene pessoal e do meio onde vivem.
Por norma, os pacientes que abandonam o tratamento desenvolvem a chamada tuberculose multirresistente, cujo tratamento é ainda mais dispendioso, por o agente vector da doença passar a oferecer resistência aos medicamentos considerados de primeira linha.
O Estado angolano suporta a compra dos medicamentos pelo Hospital Sanatório de Luanda com base no orçamento cabimentado para a unidade hospital, disse o director clínico da unidade, João Chiwana.
A introdução de novas técnicas de diagnóstico naquela unidade construída em 1972, como o laboratório de microbiologia, área de broncoscopia, ecografia e de prova de esforço, permite a detecção de um número muito maior de casos.
Dentro de seis meses, a unidade vai poder internar doentes multirresistentes, afirmou. O médico referiu que “não existe um valor taxativo sobre o custo para curar um doente, mas digo que um doente de urgência, que vem com lesões avançadas de co-falência renal, cardíaca e pulmonar, o custo é alto. Já um doente do ambulatório, com apenas lesão pulmonar, o custo é mais razoável, pois estes respondem positivamente aos medicamentos da primeira linha”, referiu.

Nova abordagem

De acordo com a OMS, mais de um terço das pessoas (4,3 milhões) com tuberculose no mundo não são diagnosticadas ou notificadas, algumas não recebem cuidados e outras recebem cuidados de qualidade questionável, pelo que têm de ser adoptadas medidas também do ponto de vista ético no combate à doença.
Pobreza, desnutrição, situações precárias de moradia e saneamento — agravados por outros factores de risco, como o HIV, tabagismo, consumo de álcool e diabetes — podem colocar as pessoas em risco elevado de contrair tuberculose e dificultar o acesso aos cuidados.
Em 2014, os países da Região Africana concordaram em reduzir as mortes por tuberculose em 75 por cento e para metade o de novos casos da doença até 2025.
Para se atingir tais novas metas, é preciso intensificar os esforços para alcançar, tratar e curar todos os doentes com tuberculose, sobretudo as populações mais pobres e mais vulneráveis, que são afectadas de uma forma desproporcional  pela tuberculose e precisam de atenção especial.

Questões éticas

Este mês, a OMS lançou uma nova orientação ética que visa garantir que os países que puserem em práticaa estratégia pelo fim da tuberculose (End TB) adoptem padrões éticos sólidos para proteger os direitos de todos os afectados pela doença.
A organização enfatiza ainda cinco obrigações éticas fundamentais para os governos, trabalhadores de saúde, prestadores de cuidados, organizações não-governamentais, pesquisadores e outras partes interessadas. São elas a fornecer aos pacientes o apoio social de que necessitam para cumprir as suas responsabilidades, abster-se de isolar os pacientes com tuberculose antes de esgotar todas as opções para permitir a adesão ao tratamento e apenas sob condições muito específicas; permitir que “populações-chave” tenham acesso ao mesmo tipo de cuidados oferecidos a outros cidadãos, garantir que todos os profissionais de saúde operem num ambiente seguro e, por último compartilhar rapidamente evidências das pesquisas realizadas para actualizar as políticas nacionais e globais sobre tuberculose.
A nova orientação ética da OMS aborda questões controversas, como o isolamento de pacientes contagiosos, os direitos dos pacientes com tuberculose que vivem em privação de liberdade e as políticas discriminatórias contra os migrantes afectados pela doença, entre outras.
Embora sejam direitos humanos consagrados, a ética e a equidade não são fáceis de aplicar no terreno. A OMS refere que pacientes, comunidades, profissionais de saúde, formuladores de políticas e outras partes interessadas enfrentam com frequência conflitos e dilemas éticos.
Angola vive situações análogas. Experiências algo recentes puseram em evidência a necessidade do entendimento da cultura, sobretudo, os hábitos e costumes de cada região no combate às doenças. A epidemia de margburg, na província do Uíge, que provocou centenas de mortos em 2004/005, foi exemplo disso.
Houve que contar com a força mobilizadora das igrejas e outros organismos da sociedade civil na mobilização da população para que os esforços do Executivo através do Ministério da Saúde, com a intervenção directa dos Serviços de Assistência Médica Militar das Forças Armadas Angolana, apoiados por organismos e ONG internacionais, tivessem sucesso.
O conhecimento da situação permite-nos dizer que a propagação da tuberculose se deve em parte à continuação da observância de determinados hábitos e costumes por parte dos doentes e respectivas famílias. Se o abandono dos pacientes graves é uma grande causa de morte, a inobservância de determinados cuidados relativos à higiene e o contacto com os enfermos contribui grandemente para a propagação da endemia.
A OMS considera necessário mobilizar o compromisso político e social para um maior progresso nos esforços para acabar com a doença. Consideramos que os programas do Governo, por maiores que sejam os orçamentos, têm poucas hipóteses de atingir as metas preconizadas sem contarem com a participação das comunidades.
Este ano é marcado por um grande impulso ao nível das mais altas esferas com o anúncio da primeira Conferência Ministerial Global sobre a Eliminação da Tuberculose, marcada para Novembro em Moscovo, Rússia,
Ren Minghui, subdirector-geral do programa da OMS para o HIV/Sida, referiu a propósito que essa conferência ministerial “vai destacar a necessidade de uma resposta multissetorial acelerada à tuberculose no contexto dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável”.
A sociedade angolana é chamada, desde já, a fazer a sua parte neste movimento global para o combate à tuberculose. Os primeiros esforços devem ser dirigidos à sensibilização das pessoas e sua mobilização em relação aos cuidados a ter com a doença.
De uma maior e melhor informação depende em muito a forma como se encara a doença, a começar pela maneira como pacientes com ou suspeita de terem tuberculose são tratados pelos demais membros da comunidade.

Tempo

Multimédia