Reportagem

Comunidade cubana festeja 60 anos da Revolução em Luanda

Francisco Pedro

Este ano os cubanos têm vários motivos para festejar. Além do 60º Aniversário da Revolução Cubana, assinalado a 1 de Janeiro, cuja festa em Luanda aconteceu ontem,no Clube dos Caçadores, comemoram, também, os 500anos da fundação da cidade de Havana - 16 de Novembro de 1519, cuja programação inclui um conjunto de eventos ao longo de 12 meses.

O sistema de Educação e de Saúde e o sector do turismo fazem de Cuba um país enigmático, deixando curiosos os estrangeiros
Fotografia: DR

Embora a República de Cuba seja percentualmente o país com mais pessoas centenárias no mundo, à frente do Japão, e com o melhor sistema de educação, de saúde, e ostente dos melhores turismos deste século, o país lida  com inúmeras dificuldades, dando a impressão de ter estagnado, sem acompanhar as evoluções sociológica, tecnológica, científica e artística da época moderna, ao mesmo ritmo acelerado que outros países do Mundo conheceram.
O país vive um período de estagnação, mas não no absoluto. E a causa desta aparente inércia chama-se bloqueio, imposto há 60 anos pelos Estados Unidos.
O bloqueio - e não embargo, ao contrário do que algumas pessoas referem -, não afecta a capacidade de Cuba  garantir a qualidade constante dos serviços públicos universais, como a saúde e a educação, apesar das restrições comerciais que impedem a compra de equipamentos médicos e materiais didácticos a empresas norte-americanas.
 Há produtos que não podem ser adquiridos porque são feitos nos Estados Unidos ou têm componentes, inclusive tecnologias, provenientes daquele  país, que podem salvar vidas.
A implementação do bloqueio tem dificultado o acesso de Cuba à tecnologia necessária à aprendizagem avançada, investigação científica e inovação.
Cuba atrai muitos turistas por ser uma ilha situada no mar do Caribe, com praias paradisíacas. O balneário de Varadero, com resorts e praias de águas cristalinas e areias finíssimas, constitui o grande cartão de visita, agregado à diversidade cultural, muita história, beleza e um povo muito caloroso.
Antes da promulgação do bloqueio, 80 por cento dos norte-americanos que viajaram para as Caraíbas visitaram Cuba. Depois do bloqueio, a ilha foi excluída dos benefícios derivados da expansão do sector. Na ausência de proibições, nada menos de 25 milhões de norte-americanos teriam visitado Cuba e a ilha teria recebido uma receita de mais de 16 biliões de dólares (somente até 2005).
De acordo com o anuário turístico de Cuba, em 2016, a ilha recebeu quase 4,5 milhões de turistas, um aumento de aproximadamente 800 mil em relação ao ano anterior.
Nem mesmo os abalos provocados pelo furacão Irma, em Setembro de 2017, diminuíram as perspectivas para o sector em 2018, que previa um largo crescimento. A expectativa, naquela altura, foi de aproximadamente 6 por cento de aumento.  
O Canadá é o país que mais turistas oferece à ilha. Seguem-se países europeus, como a Alemanha, Rússia e Espanha, e o vizinho México. No ano passado, Cuba teve um recorde de 4,7 milhões de turistas, influenciado por uma maior presença de norte-americanos.
 Os visitantes dos Estados Unidos somaram 619 mil desembarques, uma subida em relação ao ano anterior, segundo dados da chancelaria cubana para os EUA. As autoridades cubanas afirmam que os prejuízos causados pelo bloqueio imposto pelos EUA têm provocado à ilha danos de mais de  134 mil 499 milhões e 800 mil dólares.
O mundo não parou de se opor, cada vez mais, ao bloqueio dos Estados Unidos a Cuba, como mostram os resultados dos votos na tribuna da ONU, que se realizam anualmente desde 1992.
O país outrora dirigido pelos irmãos Fidel e Raúl de Castro, agora sob comando de Miguel Díaz-Canel, regista na história do turismo três capítulos importantes, sendo o primeiro ocorrido na década de 1950, quando os primeiros voos comerciais chegaram à ilha.
O segundo, na metade da década de 1990, quando o país despertou para a importância desse forte segmento económico abrindo, cada vez mais, as portas ao Mundo.
O terceiro capítulo, considerado o “boom  do turismo”, é recente.  Deu-se por volta de 2014, ano em que os “grandes rivais” (Cuba e Estados Unidos) deram passos históricos na tentativa de mudar e melhorar as relações políticas e económicas.

Foi em 2014, a 17 de Dezembro, quando os Presidentes Barack Obama (EUA) e Raúl Castro (Cuba) anunciaram a retomada das relações, pondo fim a 53 anos de afastamento entre as duas nações, adoptando uma política de abertura económica. Foram libertados prisioneiros de ambos os lados como primeiros gestos de boa vontade. Ambos os Presidentes agradeceram ao Papa Francisco, que teve uma participação fundamental nas negociações de reaproximação. Em fim de mandato, Barack Obama facilitou as viagens à ilha com fins educacionais, culturais, desportivos e religiosos.

Turismo é a segunda fonte de receitas da Ilha atraindo milhões de visitantes

Apesar do retrocesso ou estagnação nas relações políticas e diplomáticas entre Cuba e EUA, uma pesquisa publicada, no ano passado, pela consultoria Cuban Educational Travel, que organiza intercâmbios entre Estados Unidos e Cuba, mostrou que 86 por cento desses viajantes acreditam que ir à ilha beneficia o povo cubano. Segundo os números, 76 por cento dos visitantes dos EUA hospedaram-se em casas particulares, 85 por cento andaram em táxis privados e outros 86 por cento voltaram com compras de peças de artesanato, obras de arte e discos.
O jornal online “Caribbean News Digital” disse que, a edição de 2018 da  Feira Internacional do Turismo de Cuba (FITCuba) juntou 3.319 representantes da indústria turística provenientes de 62 países e entre as delegações mais numerosas, destacaram-se a de Espanha, Estados Unidos, México e do Reino Unido, como país convidado de honra. Segundo uma projecção do Conselho Comercial e Económico dos EUA-Cuba, as grandes empresas que oferecem serviços vão deixar mais de 623 milhões de dólares na ilha entre 2017 e 2019.
Mas, afinal, o que provocou essa explosão turística, mesmo com um bloqueio de 60 anos?
Com 11,48 milhões de habitantes, como Cuba consegue dar ensino gratuito desde o pré-escolar até à licenciatura?
Cuba abriga 2.153 pessoas com mais de cem anos de idade, com três deles pelo menos, entre 113 e 115, de acordo com dados oficiais publicados pela imprensa local, sendo o país com maior proporção demográfica de centenários.
Geograficamente, a maioria dos centenários cubanos está localizada nas províncias orientais do país, com a capital, Havana, possuindo uma quantidade considerável. Sendo pouco mais da metade, 1.200, mulheres.
O país possui uma das maiores taxas de envelhecimento populacional do mundo, com mais de 2,2 milhões de pessoas acima dos 60 anos, cerca de 20 por cento da população, enquanto  87 por cento vive mais de 60 anos. Estes dados podem chegar a mais de 90 por cento na próxima década, de acordo as estatísticas do Departamento do Idoso, Assistência Social e Saúde Mental de Cuba.
Será o facto de as pessoas terem resolvidas as suas necessidades básicas, tais como saúde, alimentação, educação e segurança de forma gratuita, além de viverem em cidades com nível reduzido de poluição, originando uma expectativa de vida de 79 anos, uma das mais altas da América Latina, quase empatada com a de países ricos, como os Estados Unidos?
Sem referir Educação e Saúde, que podem servir de exemplo para África e não só. Importa realçar que, dois anos depois da Revolução Cubana, isto em 1961, Cuba foi declarado país livre do analfabetismo, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).
Actualmente, 99,5 por cento das crianças até aos 6 anos frequentam o ensino pré-escolar.

 

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