Reportagem

Condutas de água fabricadas no país

Natacha Roberto |

É crescente a participação de pequenas e médias empresas angolanas nas grandes empreitadas públicas.

Fotografia: Dombele Bernardo | Edições Novembro

A actualização da lei sobre as micro, pequenas e médias empresas permitiu absorver o potencial do sector público e das grandes companhias que devem actuar como impulsionadores das pequenas empresas.
A Indutubo é uma das empresas a gerarem mais receitas à economia angolana com a sua participação nos projectos de construção de infra-estruturas do Estado.
A empresa, com apenas cinco anos de actividade, é umas das principais fornecedoras de condutas de abastecimento de água potável para as obras do Estado.
A fábrica inaugurada em Maio de 2012, na Zona Económica Especial (ZEE) Luanda-Bengo, possui duas linhas de produção, uma das quais com capacidade de produzir 10 mil e 200 toneladas de tubos de alta densidade por ano e outra para acessórios de apoio ao sector da construção civil.
A empresa tem estado em destaque nos projectos habitacionais do Estado. Para melhorar o abastecimento de água potável na centralidade do Kilamba, a Indutubo procedeu a um reforço com a instalação de uma conduta de 630 milímetros de diâmetro. Uma conduta de 500 e outra de 315 milímetros foram ainda instaladas no projecto habitacional Vila Pacifica e nas instalações da nova Assembleia Nacional. Este ano está a ser executada na Vila Pacífica a instalação de uma nova conduta de 250 milímetros de diâmetro.
A empresa ambiciona conquistar novos mercados a nível da região. O responsável de produção, Junqueira de Lemos, adiantou que está a fornecer o material robusto de plástico às províncias do Huambo, Huíla, Benguela e Bié. Todos os meses são processados 316 tubos com diâmetros que variam dos 1.200 a 1.600 milímetros. Desde a sua criação até ao momento a empresa investiu 44 milhões de kwanzas.
Junqueira de Lemos explicou que os tubos de polietileno são bastante competitivos no mercado nacional. O material produzido de alta densidade é também muito utilizado para produção de embalagens de detergentes e óleos para automóveis, tampas e tambores de tintas.
O material é inquebrável, resistente a baixas temperaturas, leve, impermeável e resistente quimicamente. A sua utilização na indústria remonta aos anos 50 devido à durabilidade e resistência à corrosão. Além disso, graças à sua flexibilidade, é menos susceptível a danos causados por oscilações extremas, como escavações e terramotos.
A matéria-prima de cor preta e granulada é expelida por um tubo de sucção que o transfere para um depósito onde é diluído a 200 graus de temperatura. O material de plástico vai para um tanque onde sai em formato de tubo e é arrefecido com água fria a uma temperatura ambiente. Num processo muito rápido, o tubo circula pela máquina e de forma automática é bobinado (embalado) e levado para o depósito onde é armazenado.

Reciclar o material 

Na fábrica nada é desperdiçado. O material é seleccionado, limpo, moído, secado e transformado em pequenos grânulos, matéria-prima que serve para a criação de novos tubos. Para o responsável de produção o processo de reciclagem produz benefícios com a redução de 33 por cento no consumo de energia, 90 de água, 66 na emissão de dióxido de carbono, 33 na emissão de dióxido de enxofre e 50 na de óxido nitroso.
Além disso, a reciclagem do polietileno permite que não haja acúmulo de lixo plástico não biodegradável no meio ambiente, em função de os plásticos demorarem centenas de anos para se decomporem.
Um dos maiores problemas da reciclagem de plásticos é que eles não se misturam facilmente quando o material é diferente. O processo de mistura deve ser homogéneo. Plásticos diferentes tendem a não se misturar, assim como a água e o óleo.

Primeira experiência


José Carlos Domingos é um dos operadores de máquina que têm a função de acompanhar todo o processo de criação dos tubos de alta densidade. Pai de quatro filhos, exerce a função pela primeira vez na unidade fabril. Para o operador a actividade é de fácil adaptação. 
Residente no Zango II, o operador de máquina conquistou a casa própria com o salário que aufere na fábrica. A empresa tem valorizado as capacidades dos funcionários e propiciado a formação dos trabalhadores. É o caso de Correia Paulino Bastos. Em 2012 foi admitido na fábrica para trabalhar na jardinagem.
Depois de beneficiar de uma formação, Correia Bastos obteve avaliação positiva e foi transferido para a unidade de produção onde trabalha como operador de extrusão. Residente no município de Cacuaco, o pai de quatro filhos teve uma aumento salarial face às novas funções que exerce na fábrica. Há cinco anos na empresa, Correia Bastos já conseguiu comprar um terreno na zona da Funda, onde pretende construir a sua primeira casa.
A actividade exige muita concentração. O responsável de turno Jacinto Romão faz questão de supervisionar a toda a hora a actividade exercida pelos seus colegas. Para ganhar espaço na unidade fabril, Jacinto Romão beneficiou de um estágio que durou dois anos. Apesar de ser a sua primeira experiência trabalhar numa unidade fabril, o pai de três filhos demonstra facilidade no domínio de fabricação de tubos.
Antes de ser admitido na fábrica, Jacinto Romão já trabalhou como supervisor de uma bomba de combustível. A par da actividade que exerce com mestria, o responsável quer continuar a fazer formação para aprimorar a sua actividade na fábrica. Nilton Paulo Nhato também é um dos operadores que demonstram facilidade em manusear a máquina de criação de tubos. Há três anos na empresa, o operador de extrusão, de 32 anos de idade, sai de casa todos os dias pelas seis horas para se dedicar à criação de novos tubos de alta densidade.
Morador no bairro Golf II, tem a actividade como sustento da família. Pai de três filhos, beneficiou de formação sobre as técnicas de funcionamento de extrusão. O operador quer dar continuidade à formação para conquistar outras funções na unidade fabril.

Estado contrata

Em 2014 o Estado pagou 375 mil milhões de kwanzas às micro, pequenas e médias empresas no quadro da subcontratação de bens e serviços.
O Executivo concedeu um financiamento de mais de 66 mil milhões de kwanzas a 324 projectos no âmbito do Programa Angola Investe, coordenado pelo Ministério da Economia.  Neste âmbito, 25 por cento do OGE de 2014 esteve reservado à aquisição de serviços prestados pelas micro, pequenas e médias empresas.
Em entrevista ao Jornal de Angola, o administrador do Instituto Nacional de Apoio às Micro, Pequenas e Médias Empresas (Inapem), Samora Kitumba, defende a contínua aposta do Estado no apoio às unidades fabris.
Na sua opinião, as micro e pequenas empresas podem dinamizar a economia, por estarem mais próximo dos cidadãos e serem geradoras de emprego.
O responsável pelo departamento que acompanha a participação das micro, pequenas e médias empresas (MPME) na contratação pública entende que o apoio constitui mola impulsionadora das economias modernas. Daí que, no seu entender, a participação das empresas nacionais na contratação pública dá maior robustez às empresas, facilita o desenvolvimento das suas actividades e permite a obtenção de parcerias público-privadas.
“Com a formação do empresariado nacional, facilmente as empresas conseguem obter contratos, formar parcerias, conquistar mercados e continuar com o seu trabalho”, defende.
O gestor esclareceu que é da responsabilidade do Instituto Nacional de Apoio às Micro, Pequenas e Médias Empresas (Inapem) velar pelas medidas de implementação e de apoio previstas na Lei das MPME, enquanto o Serviço Nacional da Contratação Pública vela pela regulação e supervisão do mercado da contratação pública. Na sua óptica, esse mercado é muito importante, porque, em termos gerais, representa 40 por cento do OGE.
Samora Kitumba entende que a participação activa das pequenas e médias empresas nas empreitadas públicas garante maior abertura aos negócios e reduz de forma significativa os custos de transacção, tornando-as mais competitivas. “Na maioria dos países, as pequenas empresas são responsáveis por uma parcela importante do Produto Interno Bruto, geram volumes significativos de emprego, são mais flexíveis que as grandes companhias”, disse.
O responsável acrescenta que as pequenas empresas são ainda mais resistentes aos choques externos e menos exigentes em termos de capital inicial. “Nos concursos de grandes empreitadas de obras públicas está reservada uma parcela de 25 por cento às micro, pequenas e médias empresas, medida consagrada na Lei 30/11, através do decreto conjunto Executivo 157/14, que define os procedimentos para que os apoios institucionais sejam adoptados”, ressalta.

Origem dos tubos

A origem do plástico que se utiliza para matéria-prima de tubos de alta densidade é extraída do petróleo, um combustível fóssil não renovável, composto por várias substâncias com diferentes pontos de ebulição.
O combustível passa por uma série de processos, dando origem a uma resina plástica que é enviada para as indústrias transformadoras em forma de grânulos.
O processo de transformação pode ser feito por compressão onde a resina é introduzida num molde aquecido até atingir a forma desejada ou por injecção em que é pressionada para o interior destes moldes. Outra forma é por extrusão, em que a resina é progressivamente aquecida, plastificada e comprimida, ou ainda por laminação, em que a resina é impregnada em papel ou tecido.
Os plásticos levam muito tempo para se decompor. São em média 500 anos para a decomposição de sacolas plásticas, 450 anos nas fraldas descartáveis, 400 anos para embalagens de bebidas, 150 para tampas de garrafas, 50 anos para copos plásticos.

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