Reportagem

Corrida ao ouro suplanta o risco

O munícipio do Chipindo, na Huíla, tornou-se no mais recente “el dorado de Angola”. Pessoas saídas de Benguela, Huambo, Bié e Namibe chegam todos os dias àquela localidade, atraídas pela fama do ouro. A sorte nem sempre sorri da mesma forma a todos. Uns ganham dinheiro, outros perdem tudo, até a vida.

Fotografia: Estanislau Costa | Edições Novembro

Estanislau Costa | Lubango

Faustino Capitango, 40 anos, salvou-se por pouco do desmoronamento de terra, na madrugada de sexta-feira, que fez 13 vítimas mortais, numa mina desactivada, município de Chipindo. O porte invejável dá-lhe a ousadia de garimpar com algum conforto. As vestes avermelhadas com poeira e o rosto  ensopado com o suor face retratam o trabalho árduo. “Naquela madrugada de sexta-feira, os meus companheiros insistiram para eu descer no buraco, porque era a minha vez de cavar. Rejeitei, porque estava a sentir dores no corpo e febre”. Um dos companheiros desceu para se juntar a outros dois, que já estavam no poço, a uma profundidade de 20 metros.

Após aproximadamente uma hora de trabalho, houve um movimento estranho de terra e arbustos. Ouvem-se gritos: “os buracos taparam e os outros estão lá”, conta, ao mesmo tempo em que lembra o pânico e a gritaria dos companheiros, ao aperceberem-se da tragédia. Uma frase que se ouvia em quase todo o lado que hoje não lhe sai da mente é: “vamos, ajudem a cavar, rápido”. Durante oito anos de garimpo, Faustino não tem dúvidas: foi o pior dia da sua vida. Uma madrugada de terror, na sua opinião. 

Alberto Filipe, 36 anos, é outro garimpeiro que escapou na madrugada de sexta-feira. Professor primário do município do Chipindo, Alberto viu no garimpo de ouro a forma mais fácil de melhorar os rendimentos e proporcionar uma vida melhor à família. Conhece o perigo, mas afirma que o risco compensa. Em quatro anos de actividades, conta hoje com dez motorizadas a fazer trabalhos de táxi. “Aqui nas minas de Chiwele há grande concorrência, porque é fácil encontrar ouro. Basta tirar o cascalho do buraco e escolher com uma peneira ou balaio”, afirma, para justificar a aposta numa actividade precária e de risco a troco de uma carreira de professor do ensino primário. “A fase melindrosa é na época das chuvas, porque a terra aqui é arenosa e resiste pouco à humanidade”, disse.

Atraídos pela fortuna

Tal como o professor Alberto Filipe, Faustino Capitango também considera que “o risco compensa”, principalmente no seu caso que encontrou um trabalho rentável, depois de perder o emprego no Huambo, há oito anos, quando a empresa de construção civil fechou as portas. Hoje, o mestre de construção civil, que che-gou ao Chipindo, na Huíla, atraído pela fama do ouro de Chiwele, garante que “valeu a pena arriscar”. Tem uma casa, no Huambo, e um turismo a fazer táxi. Para quem antes vivia numa casa alugada, os oito anos de garimpo valem a pena. Além da Huíla, a maioria dos garimpeiros é oriunda das províncias do Huambo, Bié e Cuando Cubango.

Dezenas de buracos, de cinco a 20 metros de profundidade espalhados por todo o lado, dão a imagem assustadora do que é que a força humana é capaz, quando busca a fortuna. “Alguns existem há mais de 10 anos e nós aproveitamos para continuar a extrair o ouro, que é muito procurado e tem rendimento por causa da boa qualidade”, explica, Alberto que há dois anos perdeu um irmão e um amigo, soterrados num poço de 10 metros. Existem ainda outros perigos, como as cobras e animais ferozes, que de madrugada, podem surpreender tudo e todos.

Exploração

Com uma superfície de 3. 898 quilómetros quadrados e uma população de 64.714 habitantes, o município de Chipindo tem na exploração do ouro a expectativa de aumentar as receitas, aumentar o emprego e melhorar a vida da população.
Apesar de estar ainda num período de pesquisa, os benefícios já são visíveis na circunscrição. A exploração propriamente dita na mina de Calomoroi, comuna de Bambi, ainda não iniciou, mas os benefícios já estão à vista.
No âmbito da criação de condições para a exploração deste minério, foram reabilitadas as estradas que dão acesso ao local, com a colocação de pontes sobre os rios Tchissõe, Cassanda, Tchombo e Canjanja, que muito contribuem para a transporte de pessoas e bens com segurança, embora em terra batida.Existem perspectivas de que mais de cinco mil cidadãos vão estar empenhados na exploração de ouro no município, um contributo valioso para o programa de Combate à fome e à po-breza, com destaque para o meio rural.
As perspectivas apontam que, aquando do processo de exploração do ouro no Chipindo, mais de cinco mil pessoas vão encontrar emprego, das quais quatro mil jovens nacionais. O processo técnico envolve tecnologias de ponta, o que vai proporcionar também formação aos jovens nacionais.
O equipamento foi montado com sucesso e falta apenas o pormenor da calibragem do equipamento já instalado, para que se possa começar a produção durante as 24 horas por dia.

Fintar a fiscalização

Para escapar à fiscalização, o garimpo de ouro nas localidades de Chiwele, Calomoroi e Bambi é feito por volta das zero às 5 horas. “Não há fiscal a essas horas. Por isso, aproveitamos explorar o máximo”, afirmou Alberto Filipe, 36 anos. O material é escondido nas matas, por ser difícil transportar.
Dias antes da tragédia, uma acção da Polícia Nacional, no âmbito da “Operação Transparência”, foram detidas 15 garimpeiros, acusados de actividade ilegal. O administrador municipal, Hélder Lourenço, disse que as autoridades também trabalham na sensibilização das pessoas, para as desencorajar da exploração ilegal de ouro.

Legalizar o garimpo

Há quase três semanas, a região foi surpreendida com o aglomerado de pessoas oriundas de Caconda, Cuvango, Huíla, e das províncias do Bié, Huambo e Uíge, em busca de ouro. O administrador alertou que a Polícia Nacional no Chipindo iria ser exemplar na punição de qualquer pessoa que for encontrada a explorar ilegalmente o ouro ou a exercer outra actividade sem a devida legalização.

Para quem faz do garim-po a opção de vida, mais do que punir o melhor seria legalizar a exploração artesanal do ouro no Chipindo e no município da Jamba. “As autoridades, ao invés de prenderem os garimpeiros nacionais, devem licenciar a actividade, porque é uma forma de sustento de muitas famílias”, apelou o Joaquim, um técnico de construção civil que, montou um pequeno negócio e fabrica jóias de ouro.

Histórico do ouro

A exploração do ouro nos municípios de Chipindo e Jamba foi interrompida em finais de 1976, devido ao conflito armado, logo após a Independência Nacional. O equipamento ficou destruído. A qualidade reconhecida dos metais - ouro e ferro - motivou, há oito anos, o reinício das acções de prospecção pelos consórcios Ferrangol Lavulo e Chipindo Company (Lafech), todos de direito angolano.

Outra empresa, a mineira Demang-SA, efectuou estudos e testes de qualidade numa área de 67 mil hectares, investindo mais de cinco milhões de dólares. O programa previa instalar uma linha de produção de 100 a 150 gramas de ouro por hora. A boa nova para os mu-nícipes de Chipindo tem a ver a criação de condições técnicas e humanas para a retomada da exploração de ouro na zona de Caromoloy, no corrente ano, facto que reacende as esperanças na melhoria das condições sociais e económicas da região.

Tempo

Multimédia