Reportagem

Criadores apostados em baixar défice de carne

Domingos Mucuta | Lubango

Angola consome 150 mil toneladas de carne por ano. O país produz neste momento cerca de 10 mil. O grosso vem da região Sul, cujos criadores estão empenhados em reduzir o défice actual.

Cooperativa de criadores de gado da região Sul está empenhada em reduzir o actual défice de carne em todo o território
Fotografia: Nicolau Vasco

Isabel Tchombe dirige um touro de raça simbra, pertença da fazenda em que trabalha há cinco anos. A mão esquerda segura a corda, enquanto a direita abraça o cupim, a parte carnuda mais saliente no topo do pescoço do animal.
Os dois parecem amigos de longa data. À medida que caminham para o pavilhão da fazenda Vime na exposição da XIII Feira Agro-pecuária da Huíla, os presentes admiram a grandeza do touro e também a coragem e a destreza da mulher.
A pastora mostra o caminho e o animal obedece às orientações até à montra, onde o boi é amarrado a uma estaca de ferro. Mais pastores trazem outros 30 animais de raça que o fazendeiro Mauro Alves apresenta na maior bolsa agro-pecuária, promovida todos os anos pela Cooperativa de Criadores de Gado do Sul de Angola (CCGSA).
O fazendeiro Mauro Alves, que expõe há dez anos na Feira do Gado, explica que a cumplicidade entre criadores e animais e o tratamento dado a estes tem influência no seu desenvolvimento saudável e qualidade. O mais novo dos expositores, com 37 anos, fala com vaidade da qualidade das criações, desenvolvidas em campos rotativos de 35 hectares para cada grupo de 64 animais.
O filho do fazendeiro, Caires Alves, compra novilhos, procede à engorda e leva-os a leilão ou para o abate. Mauro Alves apresentou na exposição agro-pecuária animais com o mesmo porte físico, saudáveis e com um brilho que mereceu elogios dos visitantes e criadores de outras regiões.
“Para os jovens que gostam desta actividade, sobretudo, nesta fase em que se apela para a diversificação da economia, tenho a dizer que o segredo é trabalho e gosto pelo que se faz. O segredo no sucesso dos animais está nas vacinas e desparasitação constante”, diz.
O criador dispõe de cerca de 600 cabeças de gado bovino, na sua maioria da raça simbra. Mauro Alves perspectiva ter cerca de sete mil dentro de 10 anos. “Esta meta não é impossível com trabalho árduo e força de vontade”, afirmou o fazendeiro, que emprega dezenas de pessoas.
 
Leilão de gado

O tradicional leilão de gado de raça realizado no Lubango, no âmbito das Festas de Nossa Senhora do Monte, teve, este ano, um volume de negócios acima de 100 milhões de kwanzas, impulsionado pela procura de animais de raça por criadores de outras regiões do país.
O director da CCGSA, Álvaro Fernandes, disse que foram leiloadas 350 cabeças de gado bovino, caprino, ovino, suíno e equino, apresentadas pelos 25 expositores das províncias da Huíla, Huambo, Cunene, Namibe, Cuanza Sul, Benguela e Cuando Cubango.
O leilão foi dominado pelas raças bovinas bosnara, brahman, simbra, nelore, liousin, nguy e regional, além de espécies melhoradas de ovinos, cavalos, búfalos e aves. O valor deste ano é superior em 50 por cento ao do ano passado, em que a organização registou um volume de negócios de 50 milhões de kwanzas.
Álvaro Fernandes destaca que o leilão de gado é uma oportunidade para os criadores de outras províncias adquirirem animais de raça e reprodutores de qualidade. A situação dos fazendeiros é difícil devido à falta de divisas, que impede a importação de bens de produção. O país tem potencial para, “com os pés assentes na terra”, atingira auto-suficiência na produção de carne, garantiu.
A prova de carne foi uma novidade introduzida na XIII Feira Agro-pecuária da Huíla, que esteve aberta aos visitantes. A qualidade da carne nacional foi ainda posta à prova num concurso de gastronomia.
 
Reduzir importações

Os fazendeiros da região Sul mostram-se dispostos a apoiar as políticas do Executivo que visam o aumento da produção nacional e a redução das importações de produtos agro-pecuários. O presidente da CCGSA, Luís Nunes, afirma estarem prontos para os novos desafios, porque os produtores são peças fundamentais no xadrez da diversificação da economia e do crescimento económico.
“Estamos preparados para os desafios que nos forem apresentados, para os sacrifícios que nos forem pedidos, pois, como no passado, os criadores de gado de Angola continuam firmes e presentes nas trincheiras do desenvolvimento”, realça.
O líder dos pecuaristas da região Sul reitera o pedido de apoios para os empresários nacionais, que têm vontade de contribuir para o engrandecimento da pátria, através da revitalização da produção agro-pecuária, considerada fundamental para o abastecimento do mercado.
“Creiam em nós, oiçam as nossas preocupações e acreditem nos nossos projectos, porque somos capazes. Somos capazes se continuarmos unidos e coesos na defesa dos interesses nacionais, na luta pelo crescimento económico e na solução dos problemas da população”, disse.
Luís Nunes lembra que os criadores de gado associados em cooperativas sempre demonstraram capacidade de produzir em quantidade e qualidade. “Durante muitos anos, fomos contrariados pelas opiniões mais cépticas que duvidaram sempre da nossa capacidade e da disponibilidade. Hoje, confrontados com a dura realidade que estamos a viver, não pode haver lugar para outras opiniões que não sejam a de nos ouvirem, acreditarem em nós, satisfazerem as nossas preocupações e motivarem os nossos anseios”, diz.
 
Cadeia produtiva

Assegurar carne de qualidade desde as fazendas até ao consumidor final requer mais investimentos na cadeia produtiva de animais de corte, defendeu o consultor agro-pecuário Paulo Morgado.
Ao dissertar sobre “A cadeia produtiva de bovinicultura de corte”, nas jornadas dedicadas ao sector, Paulo Morgado diz que a mesma é composta por vários agentes e eventos, desde a porteira até ao consumidor, incluindo insumos agro-pecuários, como vacinas, fármacos, embriões, rações e meios de transporte.
O controlo higiénico-sanitário e nutricional nas fazendas é fundamental para que os animais cresçam com saúde, para serem entregues à indústria transformadora e centros de abate, onde é obtida carne pelos retalhadores para venda ao consumidor, o último elo da cadeia.
O especialista brasileiro defende que cada elo da cadeia produtiva de bovinicultura de corte precisa de especializar-se e melhorar cada vez mais para reduzir custos e aumentar a qualidade da actividade, de modo a satisfazer os consumidores.
Paulo Morgado afirma que a criação de gado de qualidade e de forma sustentável exige conhecimento técnico e científico para que a carne chegue à mesa dos consumidores com qualidade. “São necessários bons profissionais agro-pecuários, gestores, bons fornecedores de equipamentos e insumos, técnicos de cadeias de frio e retalhistas, já que os consumidores estão cada vez mais exigentes”, referiu.
O consultor acrescenta que, devido ao grande potencial existente no país, há que profissionalizar o sector para se atingir o ponto óptimo e depois se pensar em exportar. Para tal, é necessário planeamento e organização, definição de objectivos e metas sobre a cadeia de bovinicultura, tanto do gado exótico ou de corte, como do familiar.
Para Paulo Morgado, é possível desenvolver as duas vertentes agro-pecuárias em paralelo, para que o gado familiar possa complementar a carne proveniente dos fazendeiros e contribuir para a produção nacional. Reforçou que a assistência veterinária deve contemplar o gado das famílias para melhorar os índices zootécnicos dos criadores tradicionais.
As jornadas de bovinicultora de carne constituem um espaço para a transmissão de conhecimentos técnicos aos criadores tradicionais, que detêm 95 por cento do efectivo de gado nacional, com o biótipo sanga, para estimular a produção de mais carne. O programa inclui a troca de impressões, experiências e a transmissão de conhecimentos aos criadores sobre assistência técnica.
 
Dados agro-pecuários


Angola consome 150 mil toneladas de carne por ano. O país produz neste momento cerca de 10 mil. Os criadores da região sul estão empenhados em reduzir o défice de carne de 140 mil toneladas.
A Cooperativa dos Criadores de Gados do Sul de Angola aponta para a existência de cerca de 3,5 milhões de cabeças de gado em Angola. Deste número, 91 por cento estão na região sul, oito no centro e um por cento no norte.
O censo de gado está previsto para o próximo ano. A cooperativa quer uma maior precisão sobre a população ganadeira do país para uma melhor gestão dos animais. A CCGSA realça o impacto da actividade agro-pecuária na criação de postos de trabalho e no combate à pobreza. As fazendas associadas empregam mais de 3.500 pessoas.
O presidente da cooperativa defende a união de todos para vencer mais esta batalha. “Não podemos vacilar, não nos podemos dispersar na tentativa de resolver, cada um por si, os seus problemas. Devemos usar a união como força para ultrapassar as nossas limitações e enfrentarmos as dificuldades”, exortou.
Luís Nunes sublinha que, este ano, a Feira Agro-pecuária realizou-se num contexto diferente dos anos anteriores, pois, o momento actual é marcado por dificuldades financeiras. Os criadores de gado tomaram a responsabilidade de dar continuidade ao certame, para mostrar a sua preocupação e dedicação ao crescimento económico do país.
O presidente da CCGSA defendeu mais apoio e protecção aos empréstimos à produção nacional e à actividade empresarial privada, como única e mais rentável forma de diversificar a economia.
“Com todas as dificuldades, torna-se mais difícil fazer, pois, diversificar a economia implica tempo, que escasseia, e dinheiro, que não temos”, refere. No entanto, os criadores de gado do Sul de Angola sabem que “é difícil, mas ainda é possível, pois nunca temem as adversidades, nem elas são condicionantes no empenho e espírito de sacrifício.”
Para o pecuarista, tal é possível, “se sentirmos que estamos seguros e que podemos contar com a protecção e com o apoio do Governo, principalmente do Presidente José Eduardo dos Santos, a quem sempre manifestámos e continuamos a manifestar total disponibilidade e apoio”, afirmou.
 
Controlo epidemiológico

A situação epidemiológica do gado no país é estável, segundo o director dos Serviços Veterinários, António José, da comitiva do Ministério da Agricultura durante a inauguração da exposição agro-pecuária.
António José diz que a preocupação com a ocorrência de casos de febre aftosa no Cuangar, Cuando Cubango, e no Cubaty, Cunene, está ultrapassada e foi levantada a restrição ao movimento de animais.
Mais de 3,5 milhões de doses de vacina foram disponibilizadas para imunizar todo o gado contra doenças, como febre aftosa, pleuropneumonia contagiosa bovina, carbúnculo hemático e sintomático, dermatite nodular e sarna. A região sul merece toda a atenção por ser a que mais gado detém.
A direcção nacional está empenhada no controlo e inspecção dos locais de abate clandestinos. Os Serviços Veterinários trabalham com outros organismos no combate a essa prática, para evitar que carne “não inspeccionada vá ao prato do consumidor.” António José tranquiliza a população, ao referir que grande parte da carne chega aos consumidores a partir dos locais de abate, conhecidos pelas autoridades, que inspeccionam os produtos. Todos que pretendem participar no abate, devem contactar as estruturas competentes para serem orientados. Os Serviços de Veterinária estão capacitados para verificar, orientar e aprovar os locais.
Durante a feira, foram expostos fármacos para combater doenças em animais e humanos. A Socifarma e a Merial apresentaram o medicamento ivomec gold de 1,5 litros, um endoctocida injectável de longa acção para bovinos.
O director comercial da Socifarma, Manuel Martins, diz que uma embalagem de um litro e meio do fármaco é suficiente para desparasitar 750 bovinos com 100 quilos de peso vivo.
Dada a sua concentração em ivermectina, três vezes superior a outros fármacos injectáveis, o ivomec gold assegura um efeito residual prolongado de até 75 dias, controlando larvas de mosca, carraça azul, piolhos, ácaros e sugadores, que retardam o desenvolvimento dos animais.

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