Crianças vão à escola pela primeira vez

Carlos Paulino | Menongue
12 de Janeiro, 2017

Fotografia: Nicolau Vasco|Menongue-Edições Novembro

A admissão de 350 novos professores em 2017 permite a entrada de mais de 20 crianças no sistema de ensino no Cuando Cubango, disse ao Jornal de Angola o director provincial da Educação, Ciência e Tecnologia, Miguel Kanhime.

O ano lectivo começa a 31 de Janeiro. Os novos docentes são admitidos no ensino primário, primeiro e segundo ciclos. O concurso público realizou-se em Dezembro do ano passado.
A Direcção Provincial da Educação, Ciência e Tecnologia conta com mais de 185 mil alunos matriculados da iniciação à 12ª classe, nas 262 escolas do Cuando Cubango, num total de 3.011 salas de aula, com quatro mil professores.
Material escolar, com realce para livros, está na ser distribuído em toda a província, em particular nas escolas do ensino primário e primeiro ciclo. Nos próximos dias, realizam-se seminários pedagógicos para capacitação dos professores. Estima-se que o Cuando Cubango tenha 30 mil crianças fora do sistema de ensino, devido à escassez de professores e de salas de aula. Directores de escolas, chefes de secretaria e de turma são obrigados muitas vezes a dar aulas sem as mínimas condições. Miguel Kanhime disse que, para colmatar o actual défice, são necessários, pelo menos, 1.200 novas salas de aula e 2.500 novos professores. A principal carência de docentes regista-se no segundo ciclo do ensino secundário.

Comparticipação dos pais


O regulamento da comissão de pais e encarregados de educação da província estabelece, há já alguns anos, a realização de uma reunião antecipada para determinar o valor a disponibilizar no acto de matrícula. Este ano, foram estipulados150 kwanzas para o ensino primário e 250 para o primeiro ciclo. O responsável referiu que o valor arrecadado se destina à manutenção da higiene nas escolas, compra de papel, de tinteiros e de outro material para o bom funcionamento das instituições escolares. A verba é gerida pela comissão de pais e encarregados de educação , que já trabalha na limpeza das escolas. Por dificuldades financeiras, nas zonas rurais nada se paga e os alunos responsabilizam-se pela limpeza das escolas.
Miguel Kanhime garante que o valor da comparticipação é estabelecido num acordo entre as direcções escolares e as comissões de pais e de encarregados de educação, pelo que não existem complicações.

Merenda escolar

O director provincial da Educação, Ciência e Tecnologia lamentou a falta de transparência das ­administrações municipais sobre a gestão da merenda escolar. Muitos relatórios enviados à direcção ignoram tais informações.
“Não temos informações que nos garantam que as administrações municipais estão a implementar a merenda escolar”, diz. O acompanhamento feito pela instituição revela que não existe distribuição de merenda escolar conforme programado.
Para o director, a distribuição da merenda escolar, sobretudo, nas zonas rurais, atrai crianças para as escolas e tem grande influência no aproveitamento dos alunos.
Apesar da situação, considera positivo o balanço do ano lectivo 2016. A instituição registou um nível de aproveitamento escolar de 75 por cento. Dos 165.575 alunos matriculados, da iniciação à 12ª classe, 145 mil pertenciam ao ensino primário. “O balanço dá-nos indicativos de um resultado positivo, porque houve uma redução significativa no absentismo escolar”, afirma. Em anos anteriores, verificavam-se altas percentagens de fuga às escolas, particularmente na época chuvosa, os alunos preferiam acompanhar os pais no apascentamento do gado e na lavoura.

Processo de alfabetização


A Direcção Provincial da Educação, Ciência e Tecnologia prevê matricular ainda neste ano lectivo cerca de 20 mil cidadãos dos 12 aos 40 anos de idade nas aulas de alfabetização e aceleração escolar nos módulos I, II e III.
No ano passado, 15.766 cidadãos da província terminaram com êxito as aulas de alfabetização e aceleração escolar, no quadro do programa “Sim, Eu Posso”, em parceria com Cuba. O projecto é assegurado por 200 alfabetizadores e 108 facilitadores.
De acordo com Miguel Kanhime, o processo de alfabetização na província regista resultados satisfatórios. O bairro Tchipuaca 2, no município do Cuito Cuanavale, foi declarado pela primeira vez livre do analfabetismo em 2016. O responsável acrescenta que 56 por cento da população da província já foram alfabetizados. Até ao próximo ano, 60 ou 70 por cento dos habitantes podem aprender a ler e a escrever. A falta de pagamento de subsídios aos alfabetizadores e facilitadores, o mau estado das vias de acesso, a aquisição de material didáctico e a distância entre os bairros são algumas das dificuldades encontradas.

Deficiência pedagógica


O Cuando Cubango possui um número considerável de professores sem agregado pedagógico e outros a precisar de refrescamento para melhor leccionarem no ensino primário, a base para o sucesso da formação do homem.
Por esta razão, a direcção provincial elaborou um livro com cerca de 200 páginas, intitulado “Prática para o ensino pré-primário e primário”, a ser lançado nos próximos dias para colmatar estas debilidades.
Pós-doutorado em Gestão de Qualidade e Administração Institucional, Miguel Kanhime diz que o manual constitui uma importante ferramenta para directores de escolas e professores. Contém técnicas modernas para um ensino mais simples e os encarregados de educação podem adquiri-lo para darem explicação ou ensinarem os filhos.   
 
Professores fantasmas


O Cuando Cubango é a província do país que mais desactivou funcionários fantasmas das folhas de salários no sector da Educação. Dos cerca de oito mil existentes em 2012, o número ficou reduzido a 5.025, dos quais quatro mil professores. Antes, a Direcção Provincial da Educação gastava mais de 600 milhões de kwanzas por mês para o pagamento de salários. O valor caiu para 375 milhões.
Miguel Kanhime diz que esta acção só foi possível graças a um cadastramento realizado pela instituição e a marcação de faltas nas escolas para se detectar os professores existentes. Esse trabalho começou em 2012. Havia muitos professores na folhas de salário, mas presencialmente não existiam.
Apontou ainda como principais dificuldades da instituição a falta de meios de transporte todo-o-terreno, para apoiar o ensino geral e o processo de alfabetização em todos os municípios da província, assim como de técnicos de inspecção. Os 16 existentes são muito poucos para vistoriar as 262 escolas da região.
O sector enfrenta ainda falta de verbas para a nomeação de directores de escolas e promoção dos professores que trabalham há muitos anos e aqueles que estão a fazer ou terminaram o ensino superior, bem como, a superação ou refrescamento para professores, supervisores e inspectores.

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