Reportagem

Cruz Vermelha reunifica famílias

Desde a assinatura do Memorando de Luena, na província  do Moxico, em Abril de 2002,  a Cruz Vermelha de Angola tomou como prioridade a reunificação de famílias separadas, devido ao conflito armado que dilacerou o país durante trinta  anos.

Para acudir muitas famílias desamparadas a Cruz Vermelha Internacional tem um programa para reencontro social
Fotografia: DR

César AndréCom o intuito de acudir o sofrimento de muitas famílias desemparadas cujos parentes estavam em lugares desconhecidos devido à guerra, esta organização hu-manitária angolana, em colaboração com a Cruz Vermelha Internacional, entendeu dar sequência a um programa  que designou  de reunificação de laços familiares.
Iniciado em Janeiro de 1984, este programa, que teve acções visíveis, procedeu durante aquele  período até a presente data (2018) a reunificação de 1.256 famílias das províncias do Moxico, Lunda-Norte e Sul, Uíge, Huambo,  Bié,  Kuando Kubango, Huíla, Namibe e Cunene.
O director nacional de programas e serviços da Cruz Vermelha de Angola, que prestou esta informação numa en-trevista ao Jornal de Angola, disse que durante aquele período  foram distribuídas 5.891 mensagens dentro e em  países vizinhos como a República da  Namíbia, Zambia e Botswana.
Bernardino Culombola disse que as constantes trocas de mensagens dentro  e  fora do país levou a que milhares de angolanos reencontrassem as suas famílias desaparecidas durante a guerra. 
O activista cívico anunciou por outro lado que actualmente as acções daquele programa abrandaram o seu curso normal por causa do período de paz que o país vive. “Hoje, as necessidades já não são aquelas que tínhamos no passado, porque  antes do conflito armado havia muitas famílias desaparecidas e neste perío-do de estabilidade em que nos encontramos a necessidade de procura já não é assim tanta”, disse.
Bernardino Culombola  frisou existirem outras pessoas de nacionalidade angolana, que ainda continuam a contactar os responsáveis dos consulados, à procura dos seus parentes.  Por exemplo, disse, há pessoas  que fugiram da guerra e depois foram viver ao longo das fronteiras, como a Zâmbia, República Democrática do Congo e Namíbia, ansiosas  em regressar ao país. Essas, que perderam os contactos dos parentes,  são as que mais  solicitam ajuda, no âmbito da reunificação de laços familiares.
O activista humanitário anunciou,  por outro lado, que,  com o  problema da crise dos refugiados da RD Congo que se instalaram na província da Lunda-Norte, o programa de reunificação de laços familiares   vai funcionar na sua plenitude em parceria com o Comité Internacional da Cruz Vermelha. “Estamos a fazer a reunificação de laços familiares. Todas aquelas famílias que vêm do Congo Democrático  refugiadas  passam por um  processo  de entrevista,  para saber como é que foi a viagem, quantos saíram de lá e quantos chegaram. Muitos deles acabam por morrer durante o percurso e os nossos voluntários estão a fazer pesquisas para saber onde estas pessoas foram parar.
O funcionário sénior da Cruz Vermelha de Angola  disse que, actualmente, aquela organização humanitária está a inovar o  programa  de reunificação de laços familiares. “Não é só  pesquisa  ou  fazer entregas  de mensagens, também foi criado um programa de telefonia no  centro de refugiados do Lovua. Este posto de telefonia atende os cidadãos que pretendem contactar os  seus parentes que ficaram  RD Congo”, salientou. Bernardino Culombola afirmou, também, que actualmente as pessoas que procuram a instituição são aqueles concidadãos angolanos que estão na Zâmbia, RD Congo e Namíbia, que agora pretendem regressar ao país  mas perderam os contactos dos seus familiares.
Em relação ao número de procuras, Culombola disse que neste primeiro trimestre do ano a organização registou cerca de 20 e recebeu  catorze mensagens estão a ser  procurados. “A maior parte  dessas pessoas que procurara os seus parentes está mais  direcionada para a província do Moxico, sobretudo no município do Alto Zambeze, Lumbala Nguimbo.
 Essas são as localidades onde estamos a ter  maior necessidade de procura, pelo facto de elas  terem ligação muito  directa com a República da Zâmbia”, precisou.
A título de exemplo disse que existe um cidadão que reside  em Luanda, no bairro Mártires de Kifangondo  que tem um familiar na Zâmbia. “Pelo menos,  essa pessoa deu-nos o contacto   telefónico, fizemos várias chamadas, o telefone tocou, mas infelizmente essa pessoa não atende ou responde as chamadas”,  disse.
O proprietário do referido contacto telefónico em Luanda, disse Culombola,  tem o seu parente na Zâmbia e precisa de contactá-lo. A signatária vivia na altura na cidade do Moxico e, no período do conflito armado, acompanhou  o vizinho e suas  filhas que se dirigiam para  a fronteira com a Zâmbia em busca de segurança. Hoje, com a estabilidade que o país conhece, ela pretende regressar, mas infelizmente não se consegue contactar o seu parente em Luanda.
Questionado sobre se, além dessa solicitação, a instituição  tem recebido outros casos do género, Bernardino Culombola disse que o  única solicitação foi a do Bailundo que está relacionada com o desaparecimento de um  jornalista sul-africano. “Naquela  altura, em 1992, o mesmo esteve a fazer trabalhos de reportagem naquela localidade, posteriormente  desapareceu e ninguém sabe do seu paradeiro.”
A solicitação de procura vem da África do Sul  por intermédio da sua esposa. “Já fizemos uma incursão e alguns rastreios naquela localidade e  ainda não obtivemos resposta ou algum sinal. Procedemos igualmente vários contactos com o partido UNITA, porque naquela altura a localidade estava sob sua  responsabilidade e até aqui ainda não obtivemos nenhum  feed back.”
Na  província do Huambo, disse  ser esse o único caso que aquela instituição  recebeu em Novembro do ano passado e que até agora ainda não se conseguiu terminar o ciclo de procuras.  “Quando recebemos a notificação de procura, a  necessidade de pesquisa é de  até  três meses. Temos esse período para fechar o caso e, se o caso não estiver bem esclarecido, prorrogamos mais outros três meses, mas esse caso  do jornalista sul-africano que desapareceu no Bailundo  ainda não está fechado ou todo esclarecido.”
 
Refugiados no Lovua
Instado a pronunciar-se  sobre os refugiados estacionados no Lovua,  Bernardino Culombole esclareceu  que a Cruz Vermelha de Angola  tem uma equipa de 25 voluntários, que foram treinados em primeiros socorros e, além desse treino, foram  capacitados para os primeiros socorros,  técnicas de reunificação em laços  familiares, pesquisas e organização  social. Têm o apoio do Comité Internacional da Cruz Vermelha e do Unicef. O seu  foco principal no  Lovua  é a mobilização social por causa das doenças que podem surgir neste  campo de refugiados.
Independentemente dessa tarefa, disse Culombola, os voluntários  fazem o pré e o registo dos refugiados  e, posteriormente, esses dados são encaminhados para o  HCR e o Minars para  confrontação. Essas organizações são  parceiros muito valiosos para a organização.
O director  nacional de programas e serviços  da Cruz Vermelha de Angola disse que o actual número de refugiados  em comparação ao trimestre anterior do ano passado é maior.

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