Reportagem

Cuando Cubango relança a pecuária

Carlos Paulino | Menongue

Vários projectos agro-pecuários em carteira no Cuando Cubango vão conhecer maior dinamismo nos próximos tempos devido aos esforços do governo provincial para ultrapassar os efeitos da crise económico-financeira que afecta o país, disse ao Jornal de Angola o chefe do departamento do Instituto de Desenvolvimento Agrário (IDA), Raimundo Ngonga.

Dezenas de fazendas agro-pecuárias fornecem milhares de cabeças de gado bovino por ano para a produção de carne e potenciar criadores de outras regiões de Angola
Fotografia: Santos Pedro

O responsável destacou alguns projectos considerados prioritários no âmbito da diversificação da economia nacional, como a constituição das 50 fazendas agro-pecuárias no Cuchi, o rio Cafuma no Cuangar e o matadouro, antes previsto para o Bondo-Caíla (Cuangar), mas agora transferido para a comuna do Missombo, a 15 quilómetros da cidade de Menongue.
De acordo com Raimundo Ngonga, embora se registe um ligeiro atraso na execução de tais projectos, por causa da crise, tudo está a ser feito para que os mesmos conheçam dias melhores.
O chefe do departamento provincial do IDA sublinhou que o matadouro, a ser instalado na comuna do Missombo pela empresa italiana Cremonini, vai poder abater mil cabeças de gado bovino e duas mil de caprino por dia, para reduzir a importação de carne.
Em termos gerais, o pólo agro-industrial vai albergar 10 mil hectares, numa primeira fase, para a produção de hortícolas e a criação de animais diversos.
As 50 fazendas agro-pecuárias vão fornecer milhares de cabeças de gado bovino por ano para a produção de carne e potenciar criadores de outras regiões de Angola, afirmou. Essas unidades vão também proceder à plantação de eucaliptos para assegurar os altos-fornos da Companhia Siderúrgica do Cuchi, que vai produzir 96 mil toneladas de ferro gusa por ano. Situado a 94 quilómetros a oeste de Menongue, o Cuchi é ponto de passagem do Caminho-de-Ferro de Moçâmedes, facto que lhe confere uma localização privilegiada na região.
O projecto Rio Cafuma, no município do Cuangar, compreende uma área de dois mil hectares. A ser executado em quatro anos, pela empresa Tecnocarro, está avaliado em 20,6 milhões de dólares, para uma produção anual de 64 mil toneladas de milho e 20 mil de soja. O projecto gera postos de trabalho e contempla a criação de escolas e posto médico. “Os três importantes projectos, além de proporcionarem um maior desenvolvimento socioeconómico à província do Cuando Cubango, vão gerar cerca de cinco mil postos de trabalho directos”, referiu.
Os projectos de grande dimensão vêm reforçar a capacidade produtiva da província, onde a agricultura familiar é, de momento, a única a apresentar resultados mínimos. Mais de 115 mil hectares estão preparados pelos camponeses para a campanha agrícola de 2016/2017, em que as autoridades prevêem colheitas superiores a 200 mil toneladas.
A província do Cuando Cubango, que detém cerca de 40 por cento dos recursos hídricos do país e largos milhares de hectares de terras férteis, vê o sector da agro-pecuária enfrentar um mar de dificuldades devido à letargia do sector privado, disse ainda Raimundo Ngonga.

Pescadores pedem meios

O departamento do IDA no Cuando Cubango regista um aumento no número de pedidos de material de pesca, como barcos, redes, linhas e anzóis, caixas térmicas para conservação, bóias e coletes salva-vidas.
O chefe do departamento provincial do instituto disse ao Jornal de Angola que os pescadores artesanais queixam-se da falta desses meios para aumentarem a actividade, cujos frutos são conhecidos devido à existência de um grande número de rios, lagos e lagoas na região.
A Direcção Provincial da Agricultura no Cuando Cubango tem registadas 33 cooperativas de pescadores. Se forem bem apoiadas, podem tornar a região num ponto de referência na produção de pescado, afirmou o responsável. Apesar dos pedidos feitos, os meios tardam a chegar, acrescentou.
“Devido à falta de recursos financeiros, aguardamos por iniciativas privadas”, disse Raimundo Ngonga. A província, garantiu, dispõe de condições propícias para dar início a esta actividade pesqueira. Faltam apenas apostas sérias no sector, com destaque para o fornecimento de material aos pescadores.
Raimundo Ngonga recordou que dois empresários nacionais trabalham na construção de sete tanques para a produção de peixe, sendo quatro na comuna do Missombo e três no bairro da Missão Católica, arredores da cidade de Menongue. Por falta de meios de trabalho adequados, muitos pescadores desenvolvem a actividade de forma precária, sobretudo, com canoas feitas de troncos de árvore. Esses profissionais põem em risco a própria vida. Muitos são atacados por hipopótamos e jacarés.

Iniciativas privadas

Um centro de larvicultura de tilápia está ser criado na comuna do Missombo, município do Menongue, numa parceria do Executivo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação (FAO) e do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), anunciou recentemente a ministra das Pescas, Vitória de Barros.
As declarações de Raimundo Ngonga coincidem com as de Fernando Mucanda, coordenador da Unidade Técnica para o Investimento Privado (UTIP) no Cuando Cubango, que pediu há dias maior empenho dos empresários da região em acções que concorram para a diversificação da economia.
Fernando Mucanda sugeriu uma aposta maior nos sectores das pescas, pecuária, agricultura, agro-indústria, hotelaria e turismo. Afirmou que a UTIP no Cuando Cubango tem sob sua jurisdição 50 empresas, entre pequenas e médias, e tem estado a ajudar a organizar e a preparar o expediente para a criação de empresa e potenciar o pequeno empresário.
Segunda maior província de Angola, depois do Moxico, com uma superfície de 199.049 quilómetros quadrados, o Cuando Cubango tem nove municípios, 32 comunas e uma população estimada em mais de 510 mil habitantes, na sua maioria camponesa, cuja actividade tem conhecido dificuldades devido à seca que afecta a região há quase três anos.

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