Reportagem

Cuanza-Sul: Picada em mau estado dificulta ajuda aos missionários no Gungo

Armindo Pereira

No dia 16 do corrente mês, depois de serem submetidos ao teste de detecção da Covid-19 por RT-PCR, um grupo de avanço dos TLC, composto por quatro pessoas, dirigiu-se à sede da missão para fazer o levantamento das necessidades, numa parceria com os aventureiros do Volta a África.

Fotografia: DR

Semanas antes haviam recebido garantias que o percurso “muito acidentado” seria melhorado, de modo a facilitar a circulação. No entanto, só foi possível fazer 18 dos cerca de 50 quilómetros.

De acordo com Paulo Diogo “Passarinho”, a intenção é fazer um passeio turístico sob o lema “Vamos Abraçar esta Causa”, de Luanda até o Gungo, de 31 de Outubro a 2 de Novembro, com um total de 100 viaturas e levar bens de primeira necessidade até à missão católica de Leiria (Portugal), dirigida pelo padre David Ferreira.

“Infelizmente, nos deparamos com muitas dificuldades, ao longo do percurso, o estado da picada não vai permitir. Um carro 4x4 comum não tem possibilidades de fazer aquele percurso, aquilo é para veículos extremamente preparados, com pilotos experientes. Tivemos a sorte de ter apenas um pneu furado, mas nem toda a gente tem um carro com as mesmas condições que o meu”, acautelou Paulo Diogo.

Comparado àquela picada, segundo Diogo, só os percursos de desafios extremos em “Trial 4x4”, onde carros comuns com tracção às quatro rodas não são capazes de participar.

Paira no ar a incerteza, pois o estado acidentado da picada vai condicionar a materialização do objectivo. Paulo Diogo diz que será necessário uma máquina niveladora para puxar a terra de ambos os lados, tapar os buracos maiores, encher as trilhas e compactar com um cilindro de modo a colmatar as inúmeras “crateras e pedras enormes”, ao longo de mais de 30 quilómetros.

“É o que precisamos para chegar até à missão. Não queremos uma pista como aqueles 18 quilómetros, mas de uma picada normal, como tantas outras que existem pelo país. O passeio todo-o-terreno tem desafios em que os carros são postos à prova e isso faz parte da aventura”, sublinhou.

De modo a facilitar o escoamento dos produtos do campo para a cidade, a missão tem à disposição da comunidade, desde 2010, um camião Mercedes-Benz Unimog. O mesmo é tido como um meio de importância vital para as actividades pastorais e sociais da igreja.

Para o efeito, os moradores, sempre que necessário, têm partido pedras à marreta para pavimentá-las, a fim de facilitar a circulação. Apesar dos resultados já alcançados pela missão católica, o isolamento do local é ainda um dos principais entraves para resolução dos seus problemas básicos.

Paulo Diogo acredita que pode ter o apoio das entidades competentes para o cumprimento da nobre missão à comuna do Gungo, localidade que dista mais de 110 quilómetros do município do Sumbe: “estamos a mover muitos apoios e não pretendemos baixar os braços”.

Apelos reiterados
Nos últimos dias os integrantes do TLC multiplicaram os apelos nas redes sociais em busca de pessoas que possam abraçar a causa. Com a ajuda a ser recolhida, caso não os consigam por oferta, os mentores do projecto pretendem adquirir, aos melhores preços, os seguintes bens: um tractor e respectivas alfaias, medicamentos, motor para o britador, mala de ferramentas para o Land Cruiser do sacerdote, duas baterias de gel, de 100 amperes cada, para o sistema de energia e telefone satélite, pois na localidade ainda não existe cobertura de telefonia móvel.

Constam igualmente das prioridades 11 balanças analógicas para o posto de saúde, material escolar e alimentos não perecíveis: arroz, massa, feijão, sal, açúcar, bem como leite para recém-nascidos e produtos de higiene (sabão, lixívia, sacos de plástico...).

O pedido de ferramentas para o carro do padre pode parecer inusitado, mas Paulo Diogo avançou as razões: “A viatura que o padre conduz, muitas vezes, faz de ambulância para percorrer até 32 quilómetros em quatro horas”.

O estado da principal via de acesso representa um bloqueio ao desenvolvimento da vida dos mais de 33 mil habitantes do Gungo, segundo o padre Ferreira. Muito recentemente, o sacerdote ajudou na transferência de uma mulher que havia entrado em trabalho de parto há mais de 24 horas. O transporte da parturiente foi feito da sede da missão até à maternidade: “Isso, às vezes, faz a diferença entre a vida e a morte”.


Trabalho desenvolvido

Apesar de ser o rosto da Missão do São José do Gungo, David Ferreira diz que os resultados até aqui alcançados foram possíveis graças aos esforços de todos, quer portugueses quer angolanos, que trabalhando em conjunto têm transformado aquela parcela do território nacional num pólo de desenvolvimento.

“O trabalho base é o desenvolvimento. A nossa motivação é religiosa, enquanto católicos e vindos para Angola por questões de fé. Depois transformamos essa nossa vontade de fazer o bem em projectos sociais e, nesta conformidade, fomos identificando os problemas para tentar resolvê-los”.

A saúde precária na comuna é a principal preocupação do missionário, uma vez que o hospital mais próximo fica a mais de cem quilómetros, isto é, na sede municipal e a principal via de acesso dificulta a evacuação dos doentes para a cidade.

Os postos de saúde do Estado, nos arredores, nem sempre estão providos dos meios de assistência que possam assistir convenientemente os habitantes, e, sempre que possível, a missão procura cobrir essas lacunas, quer por meio de assistência médica e medicamentosa, quer na formação dos agentes de saúde locais.

“Sempre que recebemos missionários vindos de Portugal, estudantes de Medicina, médicos, enfermeiros e fisioterapeutas, fazemos questão de proporcionar momentos de formação para todos os técnicos, incluindo as parteiras tradicionais”, explicou David Ferreira.

Há também duas moagens comunitárias a funcionar. As duas trituradoras, segundo o clérigo, contribuem significativamente no trabalho das mulheres de transformar o milho ou o bombó em fuba. Um camião todo-o-terreno Mercedes-Benz Unimog auxilia no escoamento dos produtos do campo para a sede municipal.

As principais culturas são o milho, feijão, ginguba, batata-doce e banana. A base da alimentação é o funge de milho, faltando, principalmente às crianças, alguns nutrientes indispensáveis para o seu crescimento.

A agricultura, feita com meios rudimentares, sem qualquer meio mecânico, é o principal garante para a auto-sustentabilidade das comunidades locais. Aos poucos, segundo ainda o padre David Ferreira, as pessoas passam a ter noção da importância do trabalho por elas desenvolvido para o bem comum.

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