Reportagem

Cunene, percurso marcado por múltiplos fenómenos

Domingos Calucipa e Quinito Kanhameni |Ondjiva

Quando, por volta das 7h00 do dia 23 de Agosto de 1981, caiu a primeira bomba da aviação sul-africana, Gerónimo Haleinge encontrava-se a tomar o pequeno-almoço, no Palácio Municipal da Cahama, na companhia do administrador local, João de Brito Hiliwanifa, e outros colegas de trabalho.

Há 50 anos, no dia 10 de Julho, Cunene deixava de ser uma parcela do então Distrito da Huila e passava a conduzir o seu próprio destino
Fotografia: Edições Novembro| Arquivo

 Gerónimo Haleinge era o responsável da Delegação Provincial da Educação do Cunene. Cumpriam uma missão de serviço no município da Cahama, quando foram surpreendidos pela aviação sul-africana. “Juntamo-nos aos militares que se encontravam nas trincheiras da unidade militar. Mas estávamos com os corações em Ondjiva, onde tínhamos as famílias e estavam as principais estruturas do Governo”, descreve Gerónimo Haleinge.

Os quatro dias que se seguiram foram de intensos bombardeamentos. “As bombas caíam no mata-bicho, no almoço e no lanche”, lembra e acrescenta: “normalmente começavam da zona norte para a zona sul da vila”. Haleinge lembrou que a invasão à província do Cunene começou pela vila da Cahama.

As forças sul-africanas apelidaram o ataque “Operação Proteia”, porque lá se encontrava a brigada de infantaria motorizada das Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA), comandada na altura pelo major Joaquim António Lopes “Farrusco”. O objectivo era retirar a protecção à cidade de Ondjiva, para depois culminar o ataque.

Hoje rei da Ombala de Kwanhama, Gerónimo Haleinge salientou que, na Cahama, estava estacionada a unidade mais bem equipada de todas que se encontravam na província do Cunene. A invasão sul-africana visava a destruição do poder político-administrativo da província, alegadamente para impedir a luta de libertação da Swapo para a Independência do seu território, a Namíbia.

Ocupação da cidade de Ondjiva

No dia 27 de Agosto de 1981, as forças do regime do Apartheid, da África do Sul, ocuparam a cidade de Ondjiva, com o pretexto de perseguição e aniquilamento dos guerrilheiros da Swapo em Angola. Hilário Sikalepo, que era professor na altura e membro activo da organização juvenil do MPLA, conta que, na invasão, as forças sul-africanas entraram pelo Calueque e os Marcos 9 e 16, na fronteira angolana com a Namíbia, apoiados por potentes tanques de guerra e aviação.

O comissário provincial (título equivalente a governador provincial), Arí da Costa, não se encontrava no Cunene. Dois dias antes, as forças inimigas já haviam ocupado a vila de Xangongo, no município de Ombadja. Mas foi por volta das 19 horas do dia 26 que Ondjiva foi fustigada com fortes bombardeamentos de aviação.

“Nessa altura, já tínhamos recebido informações de que iriam atacar a cidade no dia seguinte”, lembrou Hilário Sikalepo, que viveu na pele os momentos de terror. Disse que, após tomarem conhecimento da eminência do ataque, foram tomadas medidas preventivas para defender a capital da província. Além dos militares da FAPLA, foram também mobilizados tra­balhadores civis para se ajuntarem à Organização da Defesa Popular (ODP).

Hilário Sikalepo era chefe de pelotão. Era preciso posicionar-se na parte norte da cidade e outros na parte oeste, nas imediações do Aeroporto de Ondjiva. “Não tínhamos a mínima ideia de que lado começaria o ataque do inimigo”, conta Hilário Sikalepo. Faz uma pausa, para lembrar que foi exactamente a partir do Aeroporto local por onde começou o ataque, terrestre e aéreo. Eram 6h00 do dia 27.

Os combates viriam a durar cerca de sete horas. “Não estava fácil para nós, já que a aviação deles lançava as bombas a uma altitude que a nossa artilharia anti-área não podia alcançar”, sublinha. No meio dos intensos bombardeamentos, a infantaria sul-africana já havia contornado o Aeroporto, a parte Norte, surpreendendo as forças do Governo por trás.

Conseguem penetrar no Quartel da 11ª Brigada das FAPLA, que se encontrava fixada na Bavária, à entrada da cidade. “Tivemos algumas baixas, incluindo um companheiro, chefe de pelotão, atingido por um obus, na trincheira em que se encontrava. Daí recebemos ordem para abandonarmos a posição e nos juntarmos às FAPLA, nas imediações do Cemitério Municipal do Cuanhama, para se organizar a retirada”, conta Hilário Sikalepo.

A fuga de Ondjiva

“Não tivemos alternativa se não abandonar Ondjiva”, afirma Hilário Sikalepo. Estava-se por volta das 16h00. Os militares anunciavam a ordem de retirada. “Cada um safou-se como podia”, lembra. Boa parte de civis, entre eles crianças e alguns doentes, que se encontravam internados no Hospital Geral de Ondjiva, foi em direcção ao município do Cuvelai.

Já as forças militares das FAPLA saíram combatendo em direcção ao norte da província, enquanto o grosso das forças da ODP e trabalhadores retiraram-se em direcção à localidade de Oipembe, 10 quilómetros a oeste de Ondjiva, procurando caminho para atingir a localidade do Péu-Péu e daí atravessar o rio Cunene, com destino ao Mulondo.

Mas não estava fácil, devido a presença das tropas sul-africanas entre Ondjiva e a comuna da Môngua, na Estrada Nacional 105. “Depois surgiu a ideia de avançarmos para as proximidades da Onaghwe, para contornar a comuna da Môngua e surgir para as imediações da localidade de Shakati”, conta, mas surge outro imprevisto: “calculámos mal a distância e acabamos por penetrar numa área controlada pela UNITA”. Foram mais de 30 minutos de confrontos, que atrasaram ainda mais a caminhada para a retirada.

São repartidos em dois grupos. Um consegue atravessar a EN 105, entre Shakati e Xangongo, para depois transpor o rio Cunene, na zona do Péu-Péu e alcançar o Mulondo, na Huíla. O outro atravessa o rio num outro ponto e acaba por permanecer algures em Ombadja, até Março de 1982. Já Gerónimo Haleinge, com a tomada de Ondjiva e Xangongo pelas forças sul-africanas, procurou refúgio na cidade do Lubango, em companhia do administrador municipal, onde foram acolhidos por conterrâneos.

Uma realidade que orgulha a sua gente

Uma nova era de progresso e crescimento se abre, com o regresso do Governo ao Cunene. Era preciso reerguer-se dos escombros da guerra. A mobilização é total. É assim que, em 1998, surgem os primeiros edifícios de carácter emergencial, para albergar a sede do Governo da província, delegação da Justiça, Palácio do governador, comando da Polícia, entre outros, que permitem colher, com urgência, a administração do Estado e expandir os serviços de Saúde e Educação. Hoje a realidade é diferente, com a construção de infra-estruturas económica e social que orgulha a sua gente.
No ano passado, a província voltou a sofrer. Desta vez foi a seca, que bateu com tal intensidade que as consequências chegaram a mobilizar a solidariedade do país e de instituições internacionais. Números assustadores chegaram a ser revelados: 178 mil famílias afectadas, num total de 857 mil pessoas, mais um milhão de bovinos (a riqueza da região) afectados, sendo que mais 26 mil acabaram por morrer. Mais de 400 localidades foram mapeadas como críticas.
Um fenómeno cíclico na província, devido a proximidade do Deserto do Namibe e do Kalahari, as autoridades trabalham, agora, no sentido de mitigar os efeitos da seca junto das comunidades. Um investimento de 200 milhões de Kwanzas está programado para a construção de três barragens hídricas, canais adutores de água e 98 reservatórios de água (vulgo Chimpacas). As estruturas vão ser construídas a partir da localidade do Cafu, nos rios Cunene, Calucuve e Cuvelai, para beneficiar às populações dos municípios de Ombadja, Cuvelai e Namacunde. ~

Nova imagem da capital
Ondjiva apresenta uma nova imagem. Além da asfaltagem das principais artérias, nos últimos anos, a capital registou a construção de estruturas definitivas, na Avenida 11 de Novembro, como a segunda sede do Governo Provincial, o Palácio Residencial, Casa da Cultura, Aeroporto de Ondjiva, incluindo a Casa protocolar.

Investimentos e infra-estruturas
A criação do Ensino Superior, na província, surge em 2009, com duas unidades orgânicas: Escola Superior Pedagógica de Ondjiva e Instituto Superior Politécnico de Ondjiva. As duas unidades estão confinadas no mesmo edifício. A primeira lecciona o único curso de Biologia e a segunda com especialidades como Enfermagem, Análises Clínicas, Agronomia, Engenharia Hidráulica e Informática, Energia e Água.
O estabelecimento, em 2013, da linha de alta de tensão a partir de Onuno, República da Namíbia, no quadro da cooperação entre os dois países, veio melhorar o abastecimento de energia, ao substituir a primeira, de média tensão, construída em 1988, cujos equipamentos se encontravam em estado obsoleto, e reforçar a Central Térmica de Ondjiva, que produz 10,3 Megawatts. No ano seguinte, arranca a construção da conduta de água a partir do rio Cunene, na vila do Xangongo, para abastecer as comunidades de Môngua, Missão da Môngua, Mbulunganga, Ondjiva, Namacunde e Anhanga, num percurso de cerca de 100 quilómetros.

Um pouco de História
Através do investigador cultural e historiador Pedro Tongeni é possível traçar um percurso da província. Após a ocupação colonial, nos anos 1920, a região passou a denominar-se Baixo Cunene e compreendia todo o território que se situava a margem esquerda do rio Cunene, enquanto decorria a disputada do espaço entre ingleses e portugueses.

A partir de Julho de 1926, descreve, com a delimitação da fronteira entre Angola e Namíbia, e já sob o domínio do regime colonial português, a região passou a denominar-se Conselho do Baixo Cunene e, consequentemente, a anexação ao Distrito da Huíla.

O investigador conta que a ideia de criação do Distrito do Cunene surgiu em 1967, mas só veio a se concretizar três anos depois, fruto do “bom senso” do então administrador do Conselho do Baixo Cunene (que abrangia Cahama e Curoca), o português Covilhã Padrão. Era preciso escolher entre Ondjiva e Xangongo para ser capital do distrito.

A escolha recaiu à primeira cidade, que albergou o Reino do Kwanhama, que confrontou duramente as forças da ocupação colonial. A formação do Distrito tinha como finalidade a implementação de determinados projectos virados para o desenvolvimento do território, como a abertura de postos escolares no meio rural e projectos de água, sobretudo para o gado, que abundava.

Pedro Tongeni assinalou que a separação do Cunene do Distrito da Huíla trouxe muitas vantagens para a população local. Foi a partir daí que se pensou na consolidação da estrada do Lubango (Huíla), passando por Ondjiva, até à fronteira com a Namíbia. A mesma tinha continuidade, de Ondjiva ao Cuando-Cubango e outra para o Huambo, passando pelo Cuvelai.

Última região do país a ser ocupada pelo regime colonial (após a morte em combate do Rei Mandume ya Ndemufaio em 1917), a província do Cunene não conheceu um desenvolvimento de “se encher os olhos”, como aconteceu com muitas capitais de província, pelo curto período de ocupação colonial.

Castanheira de Pêra, a outra capital

Com muitos populares, incluindo funcionários públicos, concentrados na sede municipal do Cuvelai, 166 quilómetros a Nordeste de Ondjiva, surge a ideia do Governo da Huíla, de ceder um espaço para acomodar a população e os serviços do Governo do Cunene. A localidade escolhida seria Castanheira de Pêra, no município da Matala. Do grupo concentrado em Cuvelai estava a mulher de Gerónimo Haleinge, que fez toda a caminhada a pé, desde Ondjiva, com parto fresco e o bebé de apenas 12 dias de vida.

Sem quaisquer infra-estruturais para instalar um Governo provincial, Castanheira de Pêra aguentou-se como pode. A localidade tinha sido criada para albergar perto de sete famílias de colonos. As poucas casas encontradas eram então partilhadas por sete a oito famílias de responsáveis governamentais. O mesmo espaço albergava também os gabinetes.

As condições de infra-estruturas para os serviços do Governo e moradias para a população só iniciariam em 1983, com o fabrico de adobes (blocos de barro), num trabalho que contou com o envolvimento da juventude. Primeiro é erguido o complexo escolar (zona académica), com 80 salas de aula, para as classes da 5ª a 8ª. Os alunos que concluíam o ensino de base recebiam bolsas de estudo para frequentar o ensino médio e superior no Lubango ou em Luanda.

O retorno a província

O retorno à província do Cunene ocorre oito anos depois, em Julho 1988. Na altura, o comissário provincial já era Pedro Mutindi. Gerónimo Haleinge é o comissário provincial adjunto para o sector Social e de Organização. “Reunimo-nos na Cahama, onde depois o comissário Pedro Mutindi disse que já não regressava mais à Castanheira e que ficaria pela Cahama para acompanhar melhor os acontecimentos da província. Foi daí que paulatinamente os gabinetes começaram a transferir-se para a Cahama”.

No final de 1988, começaram a aproximar-se à cidade de Ondjiva com mais uma paragem de alguns meses por Xangongo. No ano seguinte, em Julho, atinge-se Ondjiva. As forças sul-africanas já haviam abandonado o território. Segue-se a transportação da população da Castanheira para o regresso ao Cunene. São mobilizadas perto de duas dezenas de camiões para transportar pessoas, haveres e até animais. A transladação só termina no início de 1990.

 

 

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