Reportagem

Curadora angolana na “Arco Lisboa”

A curadora para o projecto de arte de África na Arco Lisboa, Paula Nascimento, espera que a presença africana inédita na feira, que começa hoje, “abre portas” para outros mercados, fora dos mais procurados por artistas africanos.

Paula Nascimento
Fotografia: DR

Entrevistada pela agência Lusa, Paula Nascimento disse que recebeu um convite directo da organização da Arco Lisboa - Feira Internacional de Arte Contemporânea de Lisboa, que vai decorrer até domingo, com 71 galerias portuguesas e estrangeiras, incluindo seis de África.
De passagem por Lisboa para viajar até Veneza, onde vai visitar a 58.ª Bienal Internacional de Arte, a arquitecta e curadora independente angolana falou sobre o actual trabalho dos artistas contemporâneos africanos.
“Para mim, foi uma surpresa pois é a primeira vez que esta feira acolhe galerias africanas”, comentou, explicando que aceitou o convite com o objectivo de fazer “uma aproximação da Arco ao continente” africano.
Paula Nascimento foi uma das curadoras da participação de Angola na Bienal de Arte de Veneza de 2013, com Stefano Pansera, quando o país venceu o Leão de Ouro para o pavilhão nacional com o projecto “Luanda, Cidade Enciclopédica”, baseado em fotografias do artista angolano Edson Chagas.
Na curadoria para a Arco Lisboa, desenhou uma estratégia com a organização, recolhendo propostas de galerias africanas e enviando convites a outras, tendo decidido, na escolha final, “quebrar a questão linguística (do português) e trazer práticas de outros países africanos”, como o Uganda e a África do Sul.
Nesta linha, a nova secção especial, África em Foco, conta com seis galerias, a Afriart (Kampala, Uganda), Arte de Gema (Maputo, Moçambique), Jahmek (Luanda, Angola), Momo (Cidade do Cabo, África do Sul), Movart (Luanda, Angola) e This is not a White Cube (Luanda, Angola).“É um programa muito fluido, que se espalha por toda a feira, desde o programa geral a outras secções, e também às conversas”, descreveu a curadora à Lusa sobre o seu projecto.
Questionada sobre se foi fácil fazer esta selecção para a feira, Paula Nascimento disse que não, porque “Portugal é ainda um mercado de arte muito periférico” e a participação teve de ser “negociada.”
“Lisboa está na moda, mas os artistas africanos procuram mais a visibilidade em plataformas como Londres e Paris, e, agora, começam a ir para os Estados Unidos. Portanto, Portugal não faz parte destes circuitos”, disse, explicando que, “como o mercado de arte português não é conhecido, foi preciso um processo de negociação da presença das galerias”, argumentando com “o interesse em chegar a outros mercados.”
Neste foco especial em África, na Arco Lisboa, vão ser apresentados trabalhos de artistas angolanos como Kiluanji kya Henda, Yonamine e outros, menos conhecidos, como Keyezua e Januário Jano.
Em Angola, “há uma cena artística jovem que está a lutar para sobreviver e para crescer”, descreveu, na entrevista à Lusa.
“Há um crescendo de artistas que estão a atingir o topo e, cada vez mais, a serem comprados e valorizados internacionalmente e, ao mesmo tempo, a desenvolver projectos no país, que acabam por servir como plataformas de outros artistas”, descreveu a curadora.
Paula Nascimento apontou que, actualmente, existe uma grande diversidade de práticas artísticas e há galerias e artistas a fazer trabalhos independentes, com poucos espaços de exposição, mas “existe um crescendo de artistas com carreira internacional valorizados no mercado mundial”.
“Em Moçambique, acredito que exista um movimento parecido, com muita coisa a acontecer de forma independente”, disse, acrescentando que, numa época em que a comunicação é global, por via da Internet, surgem muitas plataformas artísticas.
A curadora deu como exemplo de crescimento o caso do Uganda, “um país com uma cena artística jovem e interessante, enquanto a África do Sul é uma força maior a nível do continente, com muitas galerias e um mercado bem estruturado.”
Na mesma linha do interesse pela arte africana, apontou que o Ghana vai participar pela primeira vez na Bienal de Arte de Veneza, tal como o Madagáscar, “e as suas representações já estão a ser comentadas e a criar muita expectativa.”
Paula Nascimento chamou a atenção para o aspecto económico da arte e disse que “os mercados devem abrir-se cada vez mais à diversidade de práticas artísticas de vários países.”
“É importante que as galerias circulem noutros mercados, para países que ainda não estão no mapa das suas preferências imediatas. É também bom para as economias locais, porque reverte para eles próprios”, sublinhou.
No entanto, a presença das galerias nas feiras “não é barata e a visibilidade exige um investimento que tem de ser constante para estabelecer relações mais duradouras, sabendo que, muitas vezes, o retorno não é imediato.”
Co-organizado pela Feria de Madrid (IFEMA) e pela Câmara Municipal de Lisboa, o certame apresenta galerias de 17 países na Cordoaria Nacional, organizada em torno de três áreas, o Programa Geral, com 52 galerias, Opening, com nove, e Projectos, também com nove.
Globalmente, participam 24 galerias de Portugal, 24 de Espanha e duas do Brasil, e de países como o Reino Unido, Roménia, Itália, Polónia e França.

Angola “deve regressar e bem” à Bienal de Arte de Veneza

A curadora para o projecto de arte de África na Arco Lisboa, Paula Nascimento, defendeu que Angola “deve regressar, e bem”, à Bienal de Arte de Veneza, onde está ausente este ano, “começando a pensar já nas próximas edições.”
Paula Nascimento foi uma das curadoras da participação de Angola na Bienal de Arte de Veneza de 2013, com Stefano Pansera, quando o país venceu o Leão de Ouro para o pavilhão nacional, pelo projecto “Luanda, Cidade Enciclopédica”, baseado em fotografias do artista Edson Chagas.
Este ano, Angola não está representada na Bienal de Veneza - um dos certames mais antigos e mais importantes do mundo da arte contemporânea - tendo o Governo angolano justificado apenas que a ausência se devia ao facto de “não haver condições” para a sua participação.
Numa entrevista à agência Lusa, em Lisboa, a arquitecta e curadora angolana disse que não esteve envolvida neste processo, mas teve conhecimento, pela media, que houve “alguns atritos” que acabaram por impossibilitar a sua participação na bienal.
“É uma pena que Angola não participe. Espero que esta ausência seja pontual, que volte à Bienal e regresse bem. Uma participação deve ser bem pensada e organizada e deve-se começar a pensar já no assunto”, defendeu.
Quando, em 2013, a atribuição do Leão de Ouro foi anunciada na cerimónia oficial de abertura, em Veneza, houve quem perguntasse, entre o público, em que continente ficava aquele país que se estreava na Bienal de Arte.
Dezenas de jornalistas rodearam a curadora, quando estava a ser entrevistada no local, pela agência Lusa, e comentavam também que língua era aquela que não percebiam, o português.
Estreante e vencedor, o pavilhão nacional de Angola - com fotografias do artista angolano Edson Chagas, no Palácio Cini, em Veneza - recebeu repentinamente uma onda de visitantes, desde o público interessado em arte, até representantes de alguns dos mais importantes museus e galerias de todo o mundo, que queriam conhecer o projecto.
“Foi como ganhar os jogos olímpicos da arte contemporânea”, comentou à Lusa Paula Nascimento, recordando um episódio que viria a ter “grande impacto” na carreira da curadora independente e na do artista.
O percurso expositivo continha pilhas de cópias em grande formato das fotografias de Edson Chagas sobre Angola, que os visitantes podiam levar, se quisessem, envoltas numa capa.
Eram fotografias de objectos e edifícios nas ruas de Luanda, captadas desde o período colonial à modernidade. Em dois dias, a edição de 2.000 capas e exemplares das fotografias na exposição esgotou e, segundo Paula Nascimento, o pavilhão recebeu, nessa altura, muitos “visitantes interessantes.”
A arquitecta angolana sorri quando recorda aqueles momentos de um acontecimento histórico para a arte contemporânea de Angola, com um “impacto muito significativo, imediato e a longo prazo” no país.
Uma “explosão” que acabou por ser “um incentivo para que outras pessoas participassem e se envolvessem em iniciativas” nesta área - disse à Lusa - e um “interesse crescente de participação de países africanos na Bienal de Veneza.”
“Muitas vezes, o impacto não é financeiro, mas de projecção do que se tem feito localmente. Abriu-nos muitas portas, em termos de carreira, e gerou uma onda de curiosidade sobre o que Angola estava a fazer na arte contemporânea”, recordou.
Edson Chagas, que trabalhava como fotojornalista, conseguiu, depois do prémio, dedicar-se totalmente à arte contemporânea: “a obra dele duplicou ou triplicou de valor”, disse a curadora.
Paula Nascimento e o seu atelier, o Beyond Entropy, presentemente em “ano sabático”, receberam muitos convites. “Coube-nos a nós perceber o que interessava e não interessava. Nós vínhamos de um movimento que já existia e o prémio foi sendo mais impactante à medida que o tempo passava”, lembrou, concluindo que “Angola podia ter aproveitado melhor” o galardão.
A presença em certames de arte - como a Bienal de Veneza - representa, na opinião da curadora “uma necessidade de um investimento que deve ser feito de forma pensada e constante.” No caso de Angola, Paula Nascimento acredita que “é uma questão de organização.”
“É preciso fazer tudo, mas passa muito pela delineação de políticas culturais credíveis e que possibilitem que os artistas e os agentes possam ter plataformas de apoio ao seu trabalho. Falta uma estruturação política do que é cultura e do que queremos atingir”, argumentou.
“Fazer, as pessoas fazem. Com muito ou com pouco. Mas não temos toda uma estrutura de apoio ao que está a ser feito neste momento”, avaliou.

 

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