Reportagem

Cuvango entra na cadeia produtiva de cereais em Angola

Arão Martins | Lubango

A produção e a distribuição de alimentos em grande escala à população, um desiderato do Executivo, inserido no programa de diversificação económica e de combate à fome e à pobreza dispõem,

Pormenor do lançamento do projecto do perímetro irrigado do Agrikuvango
Fotografia: Dombele Bernardo | Edições Novembro

doravante, do contributo do projecto agro-industrial denominado “Agrikuvango”, destinado à produção em grande escala de arroz, trigo, milho, feijão e ginguba, no município do Cuvango, província da Huíla.
Com características inatas, o município do Cuvango, província da Huíla, está numa zona benéfica com solos aráveis disponíveis e topograficamente adequados, de excelentes e abundantes recursos hídricos, factor preponderantes para a produção de alimentos em grande escala.
Inserido numa área de cerca de cinco mil hectares, o projecto Agrikuvango posiciona-se equidistante das principais redes rodoviárias e ferroviárias, situando-se a 30 quilómetros da estrada nacional 280 (que liga as províncias da Huíla e do Cuando Cubango), a 40 quilómetros da linha férrea dos Caminho-de-Ferro de Moçâmedes, e para apoio aéreo, a 80 km do aeroporto da Jamba mineira.
Com o lema “O futuro começa agora”, o projecto “Agrikuvango”, que está a ser implementado pelo grupo empresarial RDK- Rui Tyihongo Kapose, tem por objectivo a produção, processamento e comercialização de bens alimentares de consumo primário (arroz, trigo, milho, ginguba, bem como derivados de produção sustentável, como fuba de milho, farinha, rações e bio-combustivel), que são utilizados de forma integrada e sustentável.
O lançamento do perímetro irrigado do Cuvango “Agrikuvango” aconteceu em simultâneo com a entrega do título de concessão de superfície ao grupo, feita  na quinta-feira, pelo governador provincial da Huíla, João Marcelino Tyipinge, na presença do vice-governador para o sector Económico, Sérgio da Cunha Velho.
O presidente do Conselho de Administração do Grupo Empresarial Agrikuvango, Rui Kapose, explicou que a missão do projecto é posicionar-se na vanguarda da indústria agro-alimentar angolana, garantindo produtos de elevado valor acrescentado num mercado onde ainda existem algumas carências, cumprindo desta forma os acordos de fornecimento em termos de quantidade e qualidade com aposta na diferenciação da produção. O projecto Agrikuvango prevê, numa primeira fase, produzir mais de 30 mil toneladas de cereais diversos, através da utilização das mais modernas técnicas de produção, contribuir para a prossecução das políticas de desenvolvimento do sector agrícola e para a diminuição da dependência externa de bens alimentares.
A produção de arroz é uma das actividades mais relevantes do projecto agro-industrial do Cuvango, ao ocupar uma área de aproximadamente 1.000 hectares, regados e por alagamentos, produzindo cerca de 6.000 toneladas de arroz por ano.
Rui Kapose explicou à reportagem do Jornal de Angola que dispondo de uma área de cerca de 1.500 hectares regados por pivôs (com duas culturas anuais), dedicados à produção de milho, trigo e ginguba, serão cultivados com milho aproximadamente 750 hectares, resultando numa produção anual de 7.500 toneladas de milho por ano.
A produção de milho é uma realidade durante os primeiros seis meses do ano em curso, numa área de 1.500 hectares regados por pivôs, enquanto cerca de 750 hectares da fazenda serão dedicados à produção de ginguba, atingindo anualmente mais de 2.550 toneladas, que vão ser colocadas no mercado imediatamente, após a colheita derivada das características específicas do mercado.
Amplamente consumida em Angola, a farinha obtida pela moagem fina do milho seco após a extracção do glúten (gérmen), será vendida para a indústria de alimento composto para animais. O processamento industrial de 7.500 toneladas de milho vai permitir fabricar cerca de 5.250 toneladas de fuba por ano.
Como segunda cultura do ano, o trigo vai ser semeado em 1.500 hectares previamente ocupados com milho e ginguba, resultando numa produção anual de 9.000 toneladas, cujo destino são a principal indústria da província da Huíla e as panificadoras do país.
No âmbito do projecto da fazenda, vão ser prestados serviços de secagem, limpeza e armazenagem a cerca de 6.000 toneladas de arroz e 7.500 de milho por ano. “Após a colheita, secagem e limpeza, a produção anual de 6.000 toneladas de arroz será objecto de descasque e ensacamento, originando aproximadamente 3.600 toneladas de arroz descascado, 600 de trinca de arroz e 600 de farinha de arroz, destinadas ao mercado nacional”, explicou.
O responsável disse que, para além do arroz, o descasque “que segue para polimento e ensaque dá a trinca que, a seguir ao polimento, também vai seguir para ensaque. Estimativas apontam que 1.200 toneladas de casca de arroz subsequentes serão utilizadas como energia, contribuindo para o desempenho ambientalmente sustentável”, indicou.
O presidente do Conselho de Administração do grupo RTK esclareceu que o projecto é implementado em 18 meses e a primeira semente de milho acontece em Junho próximo, numa área total de 500 hectares. Para a primeira fase, foram criados 400 postos de trabalho directos, dos quais 200 para jovens locais.
Até à fase final do projecto, vão ser criados 2.500 postos de trabalho directos e 13 mil indirectos. Rui Kapose diz que, para a sustentabilidade da mão-de-obra qualificada, a sua direcção vai trabalhar junto do Instituto Médio Agrário do Tchivinguiro, para a contratação de técnicos da área.
Rui Kapose informa que o projecto vai também proporcionar bolsas de estudo para os técnicos locais no Instituto Superior Politécnico da Huíla, situado na comuna da Arimba, município do Lubango, que lecciona cursos de graduação nas áreas de engenharia informática, computação, minas, construção civil, geologia, mecânica, zootecnia, agronomia e design.
 
Benefícios visíveis

A implementação do projecto “Agrikuvango”, que contempla a abertura de furos de água, construção de escolas e unidades sanitárias, já tem benefícios sociais concretos.
A terraplenagem de cerca de 37 quilómetros de estrada permitiu encurtar a distância entre a sede municipal de Cuvango e a de Chipindo, passando pelo quilómetro 50 e comuna do Galangue 2, com uma largura de seis metros.
O soba grande do Cuvango, Lourenço Njundo, disse que o surgimento do projecto tem um significado positivo para a comunidade local, porque a população nativa é a  primeira a beneficiar da produção em grande escala de milho, trigo e ginguba. A população vive da agricultura de subsistência. Nem sempre os resultados são positivos. Com o surgimento do projecto, a população também ganha postos de trabalho e com o dinheiro que receber compra gado bovino, caprino e suíno.
“Com o dinheiro,  a população vai poder diversificar a dieta alimentar, com a compra de óleo alimentar, peixe seco e fresco, açúcar, massa alimentar, roupa, bicicleta e motorizadas”, disse, acrescentando que o projecto vai beneficiar de forma directa a população que vive nas aldeias de Katola, Zimbambi, Tchiungo, Tchitundo, Malova, Kassesse, Kesso, Kanhama, Mangonga, Kapembe, Kassindi, Vitula, Tchiongo, Kuando, Linduva e Calulo, entre outras.
Pedro Ndala, 22 anos, figura no grupo de 400 jovens que encontraram o seu primeiro emprego no projecto Agrikuvango, província da Huíla. Morador da aldeia de Mangonga, Pedro Ndala confessou que o surgimento do projecto é bem-vindo, porque, além de gerar postos de trabalho directos, vai permitir eliminar o matagal da localidade.
“A localidade tem um matagal muito vasto, que faz com que muitos animais se multipliquem, ameacem as pessoas e devastem grandes extensões de hectares de campos cultivados de milho, mandioca, massango, massambala, batata-doce e rena”, disse, acrescentando que, com o projecto, a água do rio Cuvango é aproveitada também.
 
Cuvango na cadeia produtiva
 
Localizado 340 quilómetros a leste da cidade do Lubango, o município do Cuvango tem uma população estimada em 75.805 habitantes, tendo como actividade predominante a agricultura de subsistência. A população local pratica a agropastorícia.
O administrador municipal do Cuvango, Miguel Luís, garantiu que, com a implementação do projecto, o município vai entrar de forma efectiva na cadeia de produção alimentar do país.
Miguel Luís disse que a pluviosidade do Cuvango está situada entre 800 e 1.000 milímetros por ano, entre os meses de Outubro e Abril.
A produção de milho, arroz, trigo, mandioca, batata rena e doce, amendoim, leguminosas, hortícolas diversas e fruteiras de clima tropical é o forte. A produção pecuária, como o gado de pequeno, médio e grande porte, suíno, caprino e bovino também é forte na da região.
A floresta madeireira é constituída por miombo, com predominância de brachystegia spiciformos (mupanda) e julbernadia panicalta (mumue), em grandes quantidades. Ainda há outras espécies em pequenas quantidades, tais como girassonte, mubanji, mussive. A rica floresta em fauna e flora, com animais de pequeno, médio e grande porte, constitui também prato forte do Cuvango.

Potencial hídrico

Os rios Mbale e Cubango constituem as principais fontes de recursos hídricos do município do Cuvango.
O director provincial da Agricultura na Huíla, Lutero Campos, disse que a extensão do perímetro com cerca de 100 quilómetros de comprimento é banhada por cerca de 52 mil hectares dispostos à beira-rio.
Lutero Campos diz que, no Cuvango, já está implantado um leque de equipamentos industriais de pequena e média montra, que inicialmente suportará as dezenas e centenas de milhares de toneladas de produtos diversos que vão sair das grandes fazendas a serem implantadas no perímetro do Cuvango.
Para os vários projectos concebidos no Cuvango, afirmou, prevê-se a criação de 13 parcelas a serem trabalhadas em igual proporção no total de 52 mil hectares por ano, totalizando 326.150 toneladas.
O plano prevê a colheita de 97 mil e 500 toneladas de milho, arroz 78 mil, trigo 117 mil e de amendoim 33.150. A produção de mel prevê fazer  4 mil litros cresta, como amostra da produção sazonal de 100 apicultores tradicionais. O director provincial da Agricultura, Desenvolvimento Rural, Pescas e Ambiente na Huíla, Lutero Campos, afirma que com a implantação de várias unidades estruturantes de produção, cujos excedentes exigirão dos seus produtores a transformação e, com isso, a implantação de indústrias de pequeno e médio porte, urge a reabilitação da mini-hídrica para o fornecimento de energia eléctrica, aproveitando o potencial da bacia hidrográfica do Cuvango.
 
Referência económica

O sector agrícola em Angola assume um papel de referência na economia nacional como contribuinte para o produto interno bruto (PIB) nacional, como suporte da actividade agro-industrial e como dinamizador de negócios deste domínio, na estratégia de uma substitução paulatina das importações de bens alimentares por produtos nacionais.
O governador provincial da Huíla, João Marcelino Tyipinge, diz que advogam prioridade nos programas do Governo a necessidade de promover-se um desenvolvimento económico  e social abrangente e sustentável fora do sector petrolífero.
“Para o efeito, torna-se necessário promover a transformação sustentável da agricultura de subsistência para uma agricultura comercial orientada para o mercado, visando alcançar a segurança alimentar e a dinamização da agro-indústria nacional e, consequentemente, o combate à fome e à pobreza, com incentivo a unidades de produção como é o caso do perímetro irrigado do município do Cuvango, banhado pelos rios Mbale e Cuvango, com 52 mil hectares, a par dos perímetros irrigados de Caconda, banhados pelos rios Calei e Cunene, com 24 mil hectares, e Chipindo, banhado pelos rios Calei e Cunene, com 36 mil hectares.
O governante afirma que as ideias estão a ser concretizadas. “O Governo cria condições, promove e faz decretos, regulamentos e propõe leis, que depois são aprovados pela Assembleia Nacional, e os sectores empresariais aproveitam a oportunidade para executar as políticas traçadas pelo Governo”, disse.
João Marcelino Tyipinge disse que o aproveitamento dos recursos hídricos contribui para a produção de alimentos em grande escala. Afirmou que, na Huíla, foram estabelecidas políticas que visam fazer um aproveitamento aceitável dos recursos hídricos.
Indicou que o Cuvango é um município abençoado, porque tem tudo para se desenvolver. O município tem terras aráveis e espaços livres, com muitos rios e boa população e, ao juntar sinergias, pode-se fazer do município e da província da Huíla, em geral, produtores.
A primeira experiência piloto, reconheceu, tem como mentor o empresário local Rui Kapose, um exemplo concreto que visa dinamizar a produção de alimentos.
 Tradicionalmente, a província da Huíla conta com camponeses de subsistência, que produzem e levam a produção a outras províncias da região sul e centro de Angola. Ao unir a acção dos camponeses e grandes produtores, a província da Huíla tem capacidade de produzir cereais em grande escala e acudir situações de carência noutras regiões em qualquer época e intervir no programa de combate à fome e à pobreza.
João Marcelino Tyipinge disse que o Governo Provincial da Huíla está a distribuir terrenos aráveis superiores a 4 mil hectares a pessoas com capacidade de produzir.
 “Estamos a distribuir terras aráveis para serem produzidas e devem ser activas”, alertou. 
A coabitação salutar entre o investidor e a população encontrada deve ser a tónica dominante. Deve-se fazer sentir que projectos do género beneficiam o município e a população. “Com esses projectos, o sector privado paga impostos e, com os valores, o Governo realiza projectos sociais nas áreas da educação, saúde e reabilitação e construção de estradas e pontes no município”, garantiu.
 
Verdadeiro celeiro
 
Reavivar o estatuto de celeiro do país e fazer dela uma região industrializada, com a transformação de produtos locais, constitui a aposta das autoridades da província da Huíla e do Executivo, que continuam a incentivar acções viradas neste domínio.
O governador provincial da Huíla disse que as autoridades estão abertas a investimentos em diversas áreas. “Não se pode ter inveja, seja lá de quem se deslocar a qualquer região da província para investir. Quando alguém investe no município ou comuna, é um benefício para todos. Não precisamos de ter inveja. A terra é para ser trabalhada e produzir alimentos e contribuir para o crescimento do município”, defende.
João Marcelino Tyipinge disse que estão a ser desenvolvidos programas que visam aumentar a oferta de alimentos. Acrescentou que sempre houve desigualdades entre municípios e não só. Isto aconteceu também nas províncias. Indicou que os municípios mais próximos das capitais provinciais apresentam maior índice de desenvolvimento. 
Para contornar a realidade, João Marcelino Tyipinge afirmou que o Executivo está a promover acções que visam o desenvolvimento sustentável entre as regiões.
Indicou que antes, na província da Huíla, as atenções só estavam viradas para os municípios da Matala, Chibia e Humpata. Hoje, a realidade é abrangente até nos municípios que distam mais de 200 quilómetros do Lubango, como é o caso de Chipindo, Cuvango, Caconda e Caluquembe.
Felicitou o grupo RTK pela iniciativa e convidou outros empresários a seguirem o exemplo. João Marcelino Tyipinge disse que a Huíla tem áreas vastas que precisam de investimentos.
“É preciso que, à medida que se faz o desmatamento, se faça também o aproveitamento da madeira e produção de colmeias para produção do mel”, disse.

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