Reportagem

Debate histórico faz antever disputa renhida nas presidenciais dos EUA

Santos Vilola

O teste positivo à Covid-19 do Presidente norte-americano, Donald Trump, obrigou a uma alteração de fundo na configuração do palco do debate entre o Vice-Presidente, Mike Pence, e a nomeada a Vice-Presidente pelos democratas para as eleições presidenciais de 2020, Kamala Harris. As medidas de biossegurança, no debate da madrugada de ontem, realizado na Universidade de Utah, em Salt Lake City, estavam mais apertadas em relação ao primeiro debate entre os candidatos a Presidente dos Estados Unidos (Donald Trump, pelo Partido Republicano, e Joe Biden, pelos Democratas).

Fotografia: DR

No debate de uma hora e meia sem interrupções para comerciais televisivos, dividido em nove segmentos de dez minutos cada, Mike Pence esteve perto de ser colocado numa caixa de vidro transparente e a uma distância de 12 passos da democrata, a senadora pela Califórnia, Kamala Harris. Tudo isso porque Mike Pence vinha de um lugar (Casa Branca) onde o número de oficiais seniores infectados pela pandemia da Covid-19, até ontem, era mais de 20, todos ligados à equipa do recuperado Donald J. Trump, que dias antes saiu do hospital onde esteve internado 72 horas por infecção da Covid-19.

A equipa de assessores do Vice-Presidente Mike Pence chegou a manifestar objecção à colocação da cerca de vidro ao candidato do Partido Republicano (GOP, na sigla original) e a comissão organizadora dos debates das eleições gerais cedeu. Decidiu, então, permitir que Mike Pence se apresentasse no debate em condições normais. Apenas duas barreiras de vidro transparentes colocadas perto de cada, separadas por 12 passos que distanciava um do outro, sentados. O “hall” da Universidade de Utah foi o palco escolhido para o frente-a-frente, testemunhado por uma plateia reduzida - e à distância social recomendada - a assistir ao debate. Sem aperto de mão, nem contacto físico, os candidatos proporcionaram um debate (quase) tranquilo em função do temperamento moderado de ambos. A senadora de Califórnia, a primeira a quem foi dada a palavra, por Susan Page, a jornalista moderadora, começou-o ao ataque: “Trump/Pence é o maior fracasso de qualquer administração presidencial na história do país.”

Tal como era de esperar, a Covid-19 foi o primeiro tema a ser abordado. Cada um dispunha de dois minutos para cada pergunta. À questão sobre o que Joe Biden e Kamala Harris fariam melhor que a Administração Trump/Pence não fez, a senadora começou por apresentar os números de casos da pandemia e do desemprego provocados pela Covid-19.

“Eles sabiam desde Janeiro o que se passava e não disseram nada, encobriram e ainda não têm um plano para combater a pandemia”, acentuava Kamala, repartindo a sua intervenção a olhar para Mike Pence e para os eleitores, através da câmara. Kamala Harris garantiu que, caso Joe Biden seja eleito, vai promover acções para que uma vacina seja descoberta e assegurar a gratuitidade para todos.

Tranquilo, Mike Pence rebateu que, desde o início do seu mandato, Donald Trump pôs a saúde em primeiro lugar. No início da pandemia, segundo Mike Pence, a Administração Trump fez a maior mobilização de sempre, desde o fim da II Guerra Mundial, para combater a doença. Indicou que o Presidente norte-americano chegou a cancelar uma visita que tinha para a China.

A abordagem sobre o impacto da Covid-19 no país consumiu mais de 20 minutos. Foi o tema que mais tempo levou a ser discutido. Sempre a sorrir, ajeitando o cabelo vezes sem conta, Kamala Harris parecia nervosa. A tranquilidade no debate durou apenas 30 minutos, até que a democrata, diante de interrupções cirúrgicas de Mike Pence, soltou o: “Deixa-me falar!”

A questão que se seguiu era a saúde do Presidente Donald Trump, infectado pela Covid-19, mas que anda livre pelos corredores da Casa Branca - esteve na varanda para saudar apoiantes que o aguardavam nos jardins - e se prepara para voltar à Sala Oval. Kamala defendeu que os americanos precisam de saber o estado de saúde do Presidente. Na abordagem sobre a economia, Pence lembrou que, quando Trump tomou posse, a economia americana estava a desacelerar e afirmou que Joe Biden vai subir os impostos.

O clima voltou a aquecer, mais uma vez, com Kamala Harris a usar expressões como: “Deixa-me falar, se quiseres ter uma conversa.

” Seguiram-se temas como a saúde e as alterações climáticas. Entretanto, para a senadora, a República Popular da China ganhou a guerra comercial contra os Estados Unidos por causa do “comportamento pouco amigável” de Donald Trump, que “traiu os seus amigos”, disse, citando Xi Jinping e Vladimir Putin. Acentuou que este último interferiu mesmo nas últimas eleições. Kamala Harris afirmou também que, na derrota na guerra comercial contra a China, os Estados Unidos perderam cerca de 3.000 fábricas e milhares de postos de trabalho.

Em resposta, Pence afirmou: “mantemo-nos fortes com os nossos aliados”, acrescentando que foi isso que permitiu desmantelar o Estado Islâmico.

Negros

Era o primeiro a responder à pergunta se, no caso da jovem negra Breona Taylor, morta a tiro pela polícia, a justiça teria sido feita. Mike Pence afirmou: “confio no sistema de justiça e zelo pela aplicação da lei”, negando que exista racismo sistémico nos Estados Unidos. Kamala, quase em prantos, lembrou apenas que a jovem tinha sonhos e queria ser enfermeira.

Quando Mike Pence respondia às questões sobre injustiça e discriminação racial, uma mosca grande pousou-lhe sobre o cabelo, que, de tão grisalho, realçava bem a presença, por cerca de um minuto, o insecto. Em relação à morte de George Floyd, o Vice-Presidente norte-americano disse que “não existe desculpa.” Já perto do fim, Kamala Harris chegou a reclamar o tempo que era dado em demasia a Mike Pence. O debate da madrugada de ontem foi o primeiro e o último entre ambos. A organização não prevê outros, mantendo apenas agendados para os dias 12 e 15 os debates entre os candidatos a Presidente dos Estados Unidos, caso Donald Trump recupere por completo da pandemia. As eleições acontecem no dia 3 de Novembro.

O papel do Vice-Presidente

Primeiro na lista de sucessão presidencial, o Vice-Presidente tem papel-chave na engrenagem institucional norte-americana, apesar de oficialmente não desempenhar um no Governo. O Vice-Presidente ocupa o posto de presidente do Senado dos Estados Unidos. Esta função é basicamente informal: não pode intervir nos debates, mas tem a possibilidade, em caso de empate, de escolher uma forma de evitar o bloqueio na Câmara Alta.

O Vice-Presidente não se limita, entretanto, a esta função, essencialmente honorária. O “Vice” de Bill Clinton, Al Gore, conduziu importantes programas sobre as novas tecnologias da informação e meio ambiente e o Vice-Presidente, Dick Cheney, na Administração George W. Bush, concentrou mais poderes que qualquer dos seus predecessores.

O artigo 2º da Constituição prevê que, “em caso de destituição, morte ou renúncia do Presidente, ou de incapacidade para exercer os poderes e cumprir os deveres, estes deverão ser transferidos para o Vice-Presidente.”

Em 1967, a 25ª Emenda da Constituição precisou que, “em caso de destituição, morte ou renúncia do Presidente, o Vice-Presidente se converteria em Presidente.”

Precisamente pela possibilidade de virar Presidente, o “Vice” deve responder aos mesmos critérios que o candidato à presidência: ser cidadão americano, nascido nos Estados Unidos, ter pelo menos 35 anos e ter vivido nos Estados Unidos durante pelo menos 14 anos.

A 25ª Emenda também permite ao Vice-Presidente substituir provisoriamente o Presidente, por alguma impossibilidade passageira. Assim, em duas ocasiões, em Junho de 2002 e Julho de 2007, Cheney ostentou, durante algumas horas, poderes presidenciais, enquanto George W. Bush estava sob os efeitos da anestesia para uma cirurgia.

O Vice-Presidente é eleito ao mesmo tempo que o candidato à presidência, mas nem sempre é pelo voto. Se o Vice é obrigado a deixar o cargo, o Presidente em função deve nomear outra pessoa para substituí-lo, com o consentimento do Senado. Isso aconteceu em 1973, quando Gerald Ford foi nomeado para substituir Spiro Agnew, obrigado a renunciar. Quando, um ano mais tarde, o mesmo Richard Nixon teve que se demitir, Gerald Ford, convertido em Presidente, nomeou Nelson Rockefeller Vice-Presidente.

Assim, pela primeira vez, os Estados Unidos foram governados por dois dirigentes que não haviam sido eleitos. Em Novembro de 1963, depois do assassinato do Presidente John Kennedy, o seu Vice, Lyndon Johnson, assumiu o papel de Presidente e não teve um Vice, até Janeiro de 1965.

Precisamente para corrigir esta anomalia, foi criada a 25ª Emenda à Constituição.

Catorze Vice-Presidentes tornaram-se Presidentes, nove deles por causa da demissão ou morte do Presidente. Dois Vice-Presidentes fracassaram na tentativa de se eleger Presidente pelo voto: os democratas Walter Mondale (1977-1981), vencido por Ronald Reagan, e Al Gore (1992-2000), derrotado por George W. Bush.

Perfil dos prováveis Vice-Presidentes

Michael Richard Pence (Columbus, 7 de Junho de 1959) é um político americano, actual Vice-Presidente dos Estados Unidos, e, por consequência, presidente do Senado dos Estados Unidos. Membro do Partido Republicano, serviu anteriormente na Câmara dos Representantes, de 2001 até 2013, e foi o 50º governador de Indiana, entre 2013 e 2017.

Pence é conservador e apoiante do movimento Tea Party. Foi presidente da Conferência Republicana da Câmara dos Representantes, de 2009 a 2011. Após as eleições de 2010, anunciou que não concorreria à reeleição. Em Maio de 2011, Pence anunciou, oficialmente, que concorreria como o candidato republicano nas eleições de 2012, para governador de Indiana. Em Novembro de 2012, venceu a eleição por uma pequena margem e tomou posse como governador, em Janeiro do ano seguinte. Em 15 de Julho de 2016, Donald Trump anunciou que o escolhera como seu Vice, na corrida eleitoral para a Presidência dos Estados Unidos do mesmo ano. Em 8 de Novembro, Trump foi eleito Presidente dos Estados Unidos e, consequentemente, Pence o Vice.

Kamala Devi Harris

(Oakland, Califórnia, 20 de Outubro de 1964) é advogada e política. Filiada ao Partido Democrata, é senadora pela Califórnia, desde 3 de Janeiro de 2017, e candidata à vice-presidência dos Estados Unidos na eleição de 2020. Foi procuradora-geral da Califórnia, desde 2011, tendo sido a primeira mulher procuradora-geral do Estado. Foi ainda a primeira senadora de origem indiana e afro-americana. Filha de uma indiana e de um jamaicano, Harris tem um bacharelato em Artes pela Universidade Howard e em Direito pela Faculdade de Direito Hastings, da Universidade da Califórnia. Nos anos 1990, trabalhou no escritório do procurador-geral do distrito e da cidade de São Francisco. Em 2004, foi eleita procuradora-geral de São Francisco. Harris foi eleita procuradora-geral da Califórnia, em 2010, reeleita em 2014. Em 2016, foi eleita senadora pela Califórnia, mantendo no Senado uma postura crítica em relação ao Governo Trump e sendo várias vezes considerada potencial candidata à nomeação democrata para a eleição presidencial de 2020. Em Janeiro de 2019, formalizou a candidatura à presidência, porém encerrou a campanha em Dezembro do mesmo ano.


A história já está escrita

É já a primeira mulher negra e com ascendência do Sul da Ásia a participar nos debates de campanha para as eleições presidenciais. No dia 10 de Agosto, sete dias antes da convenção Nacional Democrata, o candidato presidencial Joe Biden anunciava que a sua parceira de corrida à Casa Branca era Kamala Harris.
O anúncio significa que Harris pode ser a primeira mulher e a primeira negra Vice-Presidente dos Estados Unidos. Kamala recebeu uma mensagem de felicitações do rival Mike Pence, que a desafiou para o debate de ontem.

Kamala Harris entrou nas primárias presidenciais democratas como defensora do “Cuidados Médicos para Todos", o plano nacional de seguro saúde escrito e defendido pelo seu concorrente, o senador Bernie Sanders, de Vermont.

Quando ela desistiu, em Dezembro de 2019, a senadora da Califórnia havia retirado o seu apoio e divulgado o seu próprio plano, que previa a transição para um programa administrado pelo governo em 10 anos, mas permitindo a participação de seguradoras privadas.

 

Tempo

Multimédia