Reportagem

Défice de técnicos nacionais joga a favor dos expatriados

Natacha Roberto

Os aplicativos tecnológicos ganham cada vez mais espaço na banca nacional, mas o défice de engenheiros em telecomunicações, electrónica, informática e ciências da computação torna o mercado fértil para as empresas estrangeiras do ramo.

Fotografia: Dr

Em 2017, as instituições de ensino superior no país graduaram 1.060 engenheiros das áreas de telecomunicações, informática, electrónica e ciências da computação, um número superior aos 925 registados em 2016, mas ainda assim, muito aquém das necessidades do mercado.
Como confirmou a directora nacional de Formação Graduada do Ministério do Ensino Superior, Ciência e Tecnologia, Lilian da Silva, o número de especialistas em novas tecnologias no país ainda é muito reduzido para aquilo que se pretende atingir.
A formação específica em Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) no país, de acordo com Lilian da Silva, apresenta um grande défice. “O Ministério tem desenvolvido acções conjuntas com as empresas, no sentido de se definir os perfis dos técnicos formados na área com base nas necessidades do mercado”, disse.
César Cardoso, criador angolano de aplicativos financeiros tecnológicos, afirma que o mercado ainda é pouco explorado. “A consultoria externa pode prevalecer ainda por muito tempo porque precisamos de quadros formados e com capacidade para criar novas soluções tecnológicas”, disse.
"Só que os grandes bancos não querem experimentar e investir em aplicações desconhecidas e pouco testadas, preferindo soluções amplamente usadas e certificadas internacionalmente", afirma.
“Os bancos procuram equipas experientes que, na maioria das vezes, são disponibilizadas por empresas estrangeiras. Outra mais-valia destas empresas é que garantem suporte técnico continuado”, sustenta César Cardoso.
O também director da Cloudstream, empresa angolana voltada para o desenvolvimento de soluções tecnológicas, afirma que “o grande calcanhar de Aquiles” consiste em garantir capacidade técnica de acordo com os padrões internacionais aceites e encontrar formas de aumentar o investimento nas empresas nacionais.
“Se fizermos uma análise dos parceiros locais existentes vamos concluir que são poucas, senão raras, as empresas nacionais consolidadas no mercado”, disse.
Na sua opinião, o mercado evoluiu muito mas a oferta de parceiros locais e a formação de competências nestas áreas não acompanhou a dinâmica. César Cardoso afirma também que as universidades não formam quadros nesta área com a qualidade desejada.
Para o engenheiro, a situação tem ajudado as consultoras estrangeiras a concretizar inúmeros contratos milionários com os bancos nacionais.
“A consultoria externa faz com que muito dinheiro seja enviado para o estrangeiro e a única forma de alterar este quadro é apostar nas competências locais”, defende. O pagamento aos nacionais, de acordo com o técnico, não representa sequer um terço dos contratos realizados com as empresas estrangeiras.

Falta de confiança

Para além da falta de quadros nacionais, os poucos provedores existentes também não fazem um trabalho sério. “Percebemos que existe pouca confiança nos parceiros locais por desleixo da imagem da empresa. O empresariado e os empreendedores angolanos devem preocupar-se mais em colher os frutos do trabalho bem executado”, disse César Cardoso.
O presidente da Associação Angolana de Bancos (ABANC), Amílcar Silva, entende que a formação na área deve constituir uma aposta do Estado e das instituições bancárias. Nos grandes bancos existem equipas especializadas em tecnologia que acabam por desempenhar funções relevantes no dia-a-dia.
O sistema de ensino aplicado pelas universidades em Angola está ultrapassado para aquilo que são os objectivos das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC). Nos países mais avançados, as instituições de ensino superior formam quadros voltados para o empreendedorismo, em que o estudante tem a oportunidade de criar soluções tecnológicas dentro da universidade.
“Eu formei-me em Angola e não recebi valências que permitam desenvolver a minha própria empresa quando terminei a licenciatura”, conta César Cardoso.
Para o empreendedor, nota, as instituições de ensino devem apoiar os estudantes a criar as suas próprias iniciativas.
“Infelizmente, os quadros formados nas nossas universidades saem apenas com capacidade para trabalhar nas empresas públicas e privadas, não ganham ferramentas para criar o seu próprio caminho”, disse.
A empresa Cloudstream, de César Cardoso, desenvolveu um interface para a central de informação de risco de crédito do Banco Nacional de Angola (BNA), um portal onde todos os bancos reportam o crédito concedido.
“Este sistema permite ao banco obter a informação do endividamento do seu cliente em outras instituições bancárias”, explica.
Além do trabalho com o BNA, a Cloudstream possui uma solução móvel denominada “eCaderneta electrónica” que é utilizada em várias escolas, creches, infantários e jardins-de-infância no país e também no Brasil e Portugal.
A plataforma digital angolana permite aos encarregados de educação estar informados sobre a rotina diária dos filhos, por via do computador ou do telemóvel.

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